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IN.SO.LEN.TE

Ainda sabemos o que é a liberdade? - As respostas que me deu Vasco Lourenço (parte II)

Nos dias que correm é preciso sangue frio para não virar extremista. É quase impossível manter uma postura ponderada perante as barbaridades que se lêem e ouvem atualmente. Há "opiniões" tão absurdas que podiam ser só ridículas se não fossem absolutamente revoltantes.

Há menos de um mês os cânticos de natal ensurdeciam-nos para os riscos que escolhemos ignorar. Todos ficámos felizes por ter a consoada no sapatinho, alguns um pouco chateados com falta da passagem de ano. Semanas depois os números de infetados com Covid-19 aumentam, mas não nos revoltamos com as nossas próprias atitudes. Apontamos o dedo ao Governo, porque se nos tivesse proibido em condições nada disto teria acontecido!

Afinal que liberdade queremos nós? A de agir? Ou a de aliviar a consciência?

Com o agravamento incontrolável da pandemia vejo, por um lado exigências de fecho de escolas, e vejo, por outro cidadãos indignados com tamanhas restrições. Por vezes ambas as visões coexistem na mesma pessoa. Há até quem afirme que nunca se viveu "repressão" como a que vivemos agora (?!), coisa que acho absolutamente inacreditável...

Se a liberdade significa responsabilidade não estaremos a entrar em contradição? As restrições que enfrentamos são fruto de atitudes coletivas, não de iniciativas de repressão impostas de forma arbitrária.

Ramalho-Eanes-e-Vasco-Lourenco-25-Novembro-1975-03

Foto: DR

Com esta ideia em mente, apresento de seguida a segunda parte (podem ler a primeira aqui) de uma conversa com alguém que lutou pela liberdade enquanto valor coletivo e enquanto condição para uma sociedade mais justa.

Parto diretamente de onde tinha ficado: a ideia de cooperação para conseguir justiça social.

Questionei o Coronel Vasco Lourenço sobre a suposta “subsidiodependência” que dizem vigorar em Portugal. Será esta uma afirmação que faz sentido?

“Para já, [esse] é mais um aspeto demagógico e populista, em que se pega em algumas situações existentes, se generalizam, e se deita fumo para os olhos das pessoas. É evidente que qualquer sociedade devia procurar a maior igualdade possível e a maior justiça social possível. Infelizmente em Portugal é esse o aspeto que me desilude mais ao longo destes 40 anos, o do campo da justiça social. Na altura [pós-25 abril] fez-se um esforço tremendo e conseguiram-se dar passos muito significativos no campo de um aumento da justiça social."

 

"Mas nós hoje assistimos a que o vencimento maior [de quem ganha mais] pode ser mais de mil vezes superior ao vencimento menor [ou seja, de quem ganha menos], o que é uma injustiça espantosa, que, aliás, não é só no nosso país, é em todo o mundo. Eu lembro-me que aqui há uns anos, quando houve aquela grande crise, um dos problemas - as grandes movimentações internacionais que houve – [deveu-se ao] facto de 1% da população ter 99% da riqueza em todo o mundo.”

 

“Quando essas situações se criam, provocam depois situações extremas que a sociedade, para obter uma situação de paz mínima e de concórdia nacional, tem que tentar resolver. E portanto, tem que encontrar os subsídios mínimos: os subsídios para isso, os abonos para isto e para aquilo… que são panaceias. Porque a solução não deve ser essa, a solução deve ser a de criar uma sociedade em que todas as pessoas têm acesso e direito a ter uma vida razoável."

 

"É evidente que um indivíduo que clama contra a acumulação de vencimento mas que depois prova que, nessa altura que estava a clamar contra acumulação de vencimento, ele próprio tinha três vencimentos… um indivíduo desses não tem nenhuma autoridade moral para vir falar a dizer que ele é que trabalha para os outros. Deve estar a brincar comigo, como se costuma dizer… portanto é mais uma falácia, mais uma demagogia, mais uma hipocrisia - que é o sentimento que eu mais detesto, é a hipocrisia.”

 

Nesta fase - e já que se fez referência a um dos candidatos - quis falar diretamente das presidenciais. Não estava interessada em comentários sobre eventuais vencedores ou vencidos, mas antes do próprio processo eleitoral. Tenho-me questionado se a diversidade dos candidatos será um sinal positivo ou negativo: estamos perante uma saudável diversidade democrática ou assistimos a uma lamentável instrumentalização da campanha para ganhos próprios?

“É mais essa segunda hipótese do que do que a primeira. É evidente que todo o cidadão com mais de 35 anos e com os seus direitos pode concorrer desde que consiga os apoios necessários, mas, na minha opinião, a campanha presidencial está absolutamente subvertida num aspeto essencial que não tem sido considerado. Se reparar, os candidatos praticamente todos – talvez  menos o atual Presidente da República, porque está como Presidente da República - a grande maioria dos candidatos, o que é que discutem? Os poderes do Presidente? Não, [antes] discutem os poderes do Governo. Dá a impressão, a certa altura, que nós estamos a disputar umas eleições para primeiro-ministro, porque todos os dias dizem “eu fazia assim, eu faria assado” mas o Presidente da República não tem poderes para fazer isso que eles dizem que fariam! Fariam como? É que eles todos diziam “eu faria, faria, faria”… mas faria o quê? Para fazer isso teria de começar por não fazer o juramento que é obrigado a fazer, que é cumprir e fazer cumprir a Constituição. Porque se a Constituição não dá ao Presidente da República poderes executivos para ele poder fazer determinadas coisas, como é que o candidato a Presidente pode vir dizer “eu se fosse Presidente faria isto, faria aquilo, faria aqueloutro…”? Só se não cumprisse o seu próprio juramento de cumprir a Constituição! Portanto isto está absolutamente subvertido."

 

"Agora, é evidente que as forças políticas estão a aproveitar as candidaturas na sua generalidade para manter ou reforçar os poderes que têm como forças políticas e não para concorrer a Presidente da República. Isso é evidente e… e pronto, lamento. Eu gostava de ver uma campanha com uma eleição com a respetiva campanha para Presidente da República e não para o Primeiro-Ministro.

 

Assim sendo, será este um fator que irá fazer aumentar a abstenção? Sabemos que a pandemia terá impacto, mas a própria postura dos candidatos pode agravá-la…

“É evidente que eu penso que há aqui dois ou três fenómenos que vão influenciar a abstenção. O maior vai ser, de facto, a pandemia. Não tenho dúvidas (ainda que provavelmente vá ser utilizada como bode-expiatório para justificar tudo o resto que levou a uma maior abstenção). Depois há dois fenómenos que podem ser um pouco opostos e que podem, por um lado aumentar a abstenção, mas que, por outro lado, podem lutar contra a abstenção. Por um lado, a sensação que existe de que o Presidente já está eleito. São sete candidatos e há um que tem garantida a eleição. Por outro lado, a necessidade que existe, que as forças democráticas têm, de demonstrar que a força radical de direita, neonazi, tem menos força do que efetivamente tem e portanto a necessidade de impedir que essa força fique em segundo lugar.

 

"Eu, se tivesse que jogar no Totobola em relação à abstenção, confesso que não sei onde poria a cruzinha. Há aqui aspetos contraditórios…pronto… eu penso que a grande maioria das pessoas mais conscientes, mais informadas irá votar e irá fazer um esforço para votar apesar da pandemia.”

 

“Admito que grande maioria da massa que… enfim…não militante, da massa que não quer saber, que começa a ter aquela ideia [de que] os políticos são todos iguais, que é tudo a mesma coisa, que não vale a pena etc, etc… não têm a consciência de que têm um direito mas também têm um dever de exercer esse direito, que é participarem na escolha. [Dever de] não reforçarem o poder dos outros não participando, porque se eu me abstiver, estou a reforçar o poder de quem se não abstém. Estes são sentimentos contraditórios e eu confesso que neste momento não sei. Se fosse obrigado a dizer o que penso que vai acontecer… não sei qual seria a minha resposta.

 

Fiquei curiosa: O que diria um Capitão de Abril a um abstencionista confesso?

“Eu digo: o direito ao voto é um direito tão forte, custou tanto a ganhar em Portugal - durante quase 48 anos não tivemos quase direito ao voto - que é um crime as pessoas deixarem de o utilizar. E portanto, o direito deve transformar-se num dever. As pessoas devem intuir que aquele direito lhes provoca um dever. Porque eu acho extraordinariamente estúpido – e utilizo o termo com todas as letras - se eu tenho direito a participar numa escolha [mas] abstenho-me e deixo-a para os outros, que podem inclusivamente pensar o contrário do que eu penso! É uma estupidez de todo o tamanho, eu não consigo perceber! Não consigo perceber… eu admito que haja situações em que as pessoas não possam ir votar, agora desde que possam ir votar, eu não admito… não consigo conceber na minha mente como é que uma pessoa pode não ir votar!"

 

"Eu sei que as pessoas têm direito a tudo, inclusivamente a ser estúpidas, mas acho impressionante a pessoa decidir “eu não vou votar”. “Atão' não vais votar porquê, o país não é teu?”. É que a seguir são os primeiros a virem protestar contra as atitudes de quem foi eleito.”

 

“O que eu insisto é isto: se eu me abstenho de participar na decisão eu não posso depois criticar a decisão que foi assumida pelos outros, porque não tenho essa legitimidade para criticar. Se me abstenho de participar também me abstenho da capacidade de criticar. Essa é minha opinião.”

 

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Foto: Daniel Rocha/Público

 

Durante a pandemia muitas vozes se levantaram contra a declaração de Estado de Emergência. Há quem teça críticas ao facto de se recorrer demasiado a este estado de excepção. Questionei o Coronel Vasco Lourenço sobre isso. Estaremos a assistir a uma banalização do Estado de Emergência?

“Bem, eu não tenho todos os dados que me permitam colocar numa posição de decisor. A leitura que eu faço com os dados que tenho é que não se está a banalizar. Porque eu olho para o que se passa no resto dos países da Europa...e há uma [outra] coisa que eu de facto não compreendo… os comentadores, os políticos, os candidatos, por um lado gritam contra o exagero da tomada de medidas e depois dali a 5 minutos estão a dizer que essas medidas são poucas, [que] deviam ser tomadas mais e que chegam tarde demais e já se deviam ter tomado… “

 

“Eu lembro-me do clamor que foi feito contra o Governo e contra o Presidente da República para festejar o Natal, e eu lembro-me que, na altura, foi altamente criticado. E depois o clamor que se levantou e que levou o Governo a considerar que se devia fazer exceções para o Natal…O que é facto é que, como ainda há pouco um amigo meu me dizia: “se reparares a pandemia esta a demonstrar que os asiáticos têm uma consciência cívica muito superior à dos ocidentais”. Porque aqui dá impressão que só proibindo mesmo! Nós, por exemplo, entrámos hoje [15 de janeiro] em confinamento, basta ver a quantidade de pessoas que andam na rua. Basta ver o movimento automóvel que continua na rua. Porquê? Porque cada um está a aproveitar a possibilidade de passear o cão, ou de ir aqui ou além para sair à rua. Não perceberam que, quando não se teve condições políticas - e eu compreendo – [quando] o Governo não teve condições para decretar a proibição no Natal, de maiores restrições e menores concentrações, deixou à [mercê da] civilidade das pessoas."

 

“Aquilo que a mim me irrita como cidadão - e cidadão interessado na coisa pública -  é ver permanentemente toda a gente a dizer que isto não é o melhor que se devia fazer, deviam-se fazer outras [coisas], mas ninguém diz qual é a qualificação que determinadas pessoas têm para dizerem quais as medidas mais convenientes a tomar. Se nós temos um núcleo importante de técnicos a discutir e a analisar a situação, a aconselhar o decisor político…" 

 

"Agora, isto não impede que eu também seja crítico em relação a alguma descoordenação, e à falta de algum planeamento. Mas isso pronto, temos o sistema que temos, temos os governantes que temos, temos os dirigentes que temos. Não podemos ir ali mandar fabricar outro tipo de dirigentes porque também temos o povo que temos.”

 

“Nós somos o que somos. Temos demonstrado muito pouca consciência cívica, infelizmente estamos a demonstrar mesmo muito pouca consciência cívica. A responsabilidade é sempre dos outros. Nós não temos responsabilidade [nenhuma]! Você hoje vai à rua hoje [15 de janeiro], o primeiro dia de confinamento aqui em Lisboa, e encontra a cidade de Lisboa cheia. Eu não fui à rua mas pela janela vejo!

 

“É evidente que o Governo, o Presidente da República, não fazem sempre aquilo que nós achamos que era melhor fazer mas há um princípio, ao qual me habituei na vida militar: para decidir é preciso ter todas as componentes da informação, e o cidadão comum não tem as componentes todas da informação para saber qual é a melhor decisão a assumir. Portanto, eu procuro evitar colocar-me naquela posição de criticar por criticar e dizer “devia ser assim ou devia ser assado”…”

 

Infelizmente quer-me parecer que hoje em dia todos fazemos exatamente o contrário. 

Após quase duas horas de conversa coloquei a minha última questão: Como será então que fica a democracia no fim da pandemia? Reforçada por nos unirmos mesmo à distância, ou antes fragilizada por nos isolarmos cada vez mais?

“Não é fácil responder-lhe… não é fácil responder-lhe. Eu penso que há condições para que a democracia saia reforçada mas… sabe que muito do que se passou agora foi porque não conseguiram unir-se à volta do essencial e tomar medidas que evitassem que se chegasse à situação que se chegou. Estou a falar em tudo, inclusive das causas desta pandemia… as causas e as consequências. A parte ecológica, a parte do aquecimento global… de tudo isso que se passou no mundo.

 

“Só unindo esforços e, portanto, reforçando a solução democrática, só envolvendo a generalidade das pessoas, quer nas decisões (na não abstenção), quer depois na execução das decisões assumidas, só assim é que se consegue um mundo melhor. Agora, abre-se a porta (e ela está aberta, não podemos ignorá-la), abre-se a porta a ditaduras com o medo. Porque a ditadura normalmente tem como suporte maior o medo que incute nos cidadãos. Portanto, reforçando o medo de novas situações semelhantes, dando primazia às questões ditas de segurança – que às vezes não são de segurança, são de falta de liberdade, que não é a mesma coisa – portanto, isso… cá estamos em mais uma situação em que eu não me atreveria a pôr a cruzinha num sítio ou no outro [risos]. Não me atrevo a apostar. Penso é que é necessário muita coragem para lutar contra os ditadores. Penso que é necessário muita coragem para continuar a lutar pela liberdade, mas, a liberdade tem um principio que é indissociável dessa mesma liberdade: a minha liberdade termina quando começa a liberdade dos outros.


“Tem que se olhar para a liberdade em termos de coletivo e não em termos de interesses individuais. E há que não confundir segurança com repressão. Porque eu posso garantir a segurança mantendo a liberdade do coletivo... e pronto, é isso…”

Vasco Lourenço

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Depois disto, nada a acrescentar.

Apenas mais um obrigado pelo apelo à nossa consciência. 🌹

"Bjo de Abril"

Ainda sabemos o que é a liberdade? As respostas que me deu Vasco Lourenço (parte I)

Às vezes é preciso dar um passo atrás para ver o quadro completo. Não é possível contemplar a imagem na sua totalidade se estivermos demasiado perto e olharmos apenas os pormenores. Quase sempre o afastamento confere uma visão mais abrangente e diferenciada.

Há uns dias achei que precisava disso.

No meio do circo mediático pré-eleitoral tem-se tornado difícil avaliar o que quer que seja. Entre uma pandemia a agravar-se de forma exponencial, um confinamento confuso e uma crise económica e social incontrolável não sobra lucidez suficiente para avaliar as eleições. Talvez não estejamos a encará-las com a seriedade que merecem.

Num mundo repleto de restrições é talvez fácil esquecermo-nos do quanto somos livres e do quanto isso foi difícil de conquistar.Por este e outros motivos pensei em fazer perguntas a quem pudesse ter uma perspetiva mais abrangente sobre o estado da democracia atual.

O que se segue são alguns excertos de uma longa conversa com Vasco Lourenço sobre liberdade e outros valores esquecidos.

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Foto: Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

 

Comecei por perguntar sobre o que mais me incomoda: a ascensão da extrema-direita em Portugal. O que pensa um Capitão de Abril sobre este regresso do fascismo?

“Tentando responder à questão que me coloca, eu diria que a ascensão da extrema-direita, do neofascismo, é uma realidade em todo o mundo ocidental. Não só na Europa mas nomeadamente nos Estados Unidos, e como nós temos verificado, no Brasil e noutros sítios. Em Portugal talvez porque – e é uma presunção que pode parecer…elevada – mas talvez porque aconteceu o 25 de abril e houve uma transformação, uma ruptura sem grande violência, essa ascensão tem tido dificuldade em se impor.”


“Mas isso [a extrema direita] é uma onda com que nós temos de contar e [à qual] tem que se fazer frente de duas maneiras, de uma forma global. A primeira é que os democratas cometam o menos erros possíveis, que deem os menos tiros nos pés que conseguirem. Infelizmente os governos democráticos, [têm sido manchados] pelo fenómeno da corrupção. Não temos dúvida nenhuma que nos regimes autoritários ou fascistas, como não há mecanismos de controle, de denúncia, essa corrupção é efetivamente muito maior, mas não está nos media (porque eles não deixam estar).”

 

“[Depois] há que ser intransigente dentro das regras da democracia. Porque se, por exemplo, a nossa Constituição é clara quando proíbe a existência de forças políticas que defendam ideias fascistas e não democráticas, quando há um partido que se tenta legalizar e é obrigado a apresentar o seu programa, e no seu programa estão claramente medidas de natureza fascista, é evidente que o Tribunal Constitucional não podia legalizar esse partido. Não quero ser muito contudente, mas por outro lado assistimos logo no início ele [Ventura] a dizer que já tinha alterado o programa e não sei o quê… Quer dizer, quando confrontado com medidas concretas que estão no programa [do partido], ele próprio não tem coragem para as assumir. E, portanto, é esta pusilanimidade, é esta fraqueza de ação por parte dos responsáveis, que também abre portas à progressão e ao absorver do descontentamento. E as pessoas que estão descontentes vão votar sem perceberem que estão a apoiar soluções piores do que aquelas que provocam esse descontentamento.”

 

Perante isto questionei se estaríamos a ficar desiludidos com a democracia. Depois de tanto sofrer para a conseguir implantar estará a falhar as suas promessas?

“Vamo’ lá ver, a democracia foi um sistema político que apareceu e que tem vindo a ser implementado em alguns locais, mas que é um sistema político [que], como tudo aquilo que é feito pelo ser humano tem os seus defeitos, e a democracia também tem defeitos.”


“Infelizmente, na minha opinião, o que tem acontecido é que a  democracia dá origem a dois fenómenos e que distorcem a própria democracia: por um lado as maiorias que chegam ao poder assumem-se como donas do poder e não têm presente que só são donas de parte do poder. Isto é, as minorias têm que fazer parte do poder. Mesmo que não estejam a exercê-lo têm que influenciar as decisões que o poder assume. Mas a maioria, normalmente, tende a esquecer a posição das minorias. Escuta-as mas não as ouve, isto é, [o que] entra por um lado sai pelo outro, não retira nada daquilo que a minoria está a afirmar. “

 

“[Por outro lado] a minoria exige como se fosse ela a maioria, sem perceber que o poder que lhe cabe é menor do que o da maioria. É evidente que é extraordinariamente difícil."

 

“A democracia tem defeitos, os detentores do poder cometem erros, mas nós temos alguma capacidade de lutar contra esses erros que foram cometidos. Nas ditaduras não. Nas ditaduras há poder absoluto e há a repressão daqueles que discordam, e por isso mesmo continuo a ser adepto da democracia.”

 

Nesta campanha temos um candidato a Presidente da República que diz abertamente ser contra a Constituição e o "sistema". Uma das coisas que defende é que em Portugal devia haver um reforço do regime presidencialista. Perguntei então ao Coronel Vasco Lourenço o que aconteceria se essa mudança alguma vez se concretizasse.

“Iria acontecer que, se ao lugar do Presidente chegasse lá um ditador, tínhamos a ditadura imediata. No sistema semi-presidencialista isso é muito mais difícil. Em Portugal, antes do 25 de Abril, existia um sistema parlamentarista. Depois do susto que o regime apanhou nas eleições em que roubaram a eleição ao Humberto Delgado, depois disso, eles acabaram com a eleição direta do Presidente da República e o Presidente da República passou existir tipo corta-fitas só e era eleito, escolhido, pela Assembleia Nacional. O 25 de Abril, um dos objetivos que definiu de imediato, é que tinha que acabar com esse sistema parlamentarista, que é um sistema muito complicado, principalmente quando o parlamento se divide em muitos e pequenos grupos [torna-se] muito mais difícil alguém governar o país. Isso foi muito discutido.”

 

“Nós no pacto MFA/partidos, que fez parte da Constituição, defendíamos precisamente o semi-presidencialismo porque é um sistema que evita muito mais a possibilidade de ditadura. Dá, por um lado, força aos partidos políticos na Assembleia da República e tem um poder - um poder moderador, digamos assim - que é o Presidente da República. É evidente que o sistema pode ser mais ou menos presidencialista. “

 

“Mas apesar de eu ser um defensor de um reforço quanto baste dos poderes do Presidente é evidente que continuo adepto do sistema semi-presidencialista e não do sistema presidencialista porque o sistema presidencialista poderia dar origem - e lagarto lagarto como se costuma dizer - a que um qualquer ditador de meia tigela atingisse o lugar e depois tivesse mais facilidade em impor uma ditadura.”

 

Depois disto fiquei curiosa para saber o que pensa um militar sobre o apelo de A.V. às forças de defesa e segurança. É algo que tem fundamento ou será antes perverso?

É perverso porque desde logo eles infiltraram as forças de segurança de fascistas, em que criaram...qualquer coisa "zero" não me lembro bem.. o Movimento Zero! Que são indivíduos que defendem claramente teorias neofascistas, [e que] portanto são perigosas. É evidente que as forças de segurança, mais do que as Forças Armadas - e por isso mesmo eu defendo que num país como Portugal as Forças Armadas devem ser reforçadas em relação às forças de segurança - são mais facilmente instrumentalizadas por quem está no poder administrativo. E portanto o “Aventura” como eu gosto de dizer - porque seria uma aventura se isso fosse por aí fora - ele, demagogicamente, aparece como defensor dos interesses dos profissionais das forças de segurança mas não é isso que ele está a pensar. Porque, se chegar ao poder, os primeiros a controlar seriam as forças de segurança, para que não se pudessem rebelar contra a sua instrumentalização para impor a ditadura. Enfim...ele pensa que será a força que poderia ter ali para impôr as suas ideias.

Mesmo assim não há como negar que há uma carência de recursos. Há por isso uma base de fundamento... ou não?

“Eu pergunto o que é que em Portugal não tem carência de recursos? Eu… eu farto-me de rir – rir é uma maneira de dizer - quando às vezes vejo aí uns papalvos na televisão e noutros sítios contra as deficiências que o serviço nacional de saúde tem, contra isto contra aquilo... epá o que é que em Portugal, o que é que um país como o nosso tem que esteja perfeito, sem falta de meios para as necessidades que aparecem?”

 

 “Portanto essa defesa [da ideia] de dar mais meios… sabe isso faz-me lembrar também quando nós, antes do 25 de Abril, discutíamos o problema da Guerra Colonial e dizíamos que tinha de ser encontrada uma solução política. Porque as guerras… é sempre o poder político que declara a guerra, nunca são as Forças Armadas. O poder político declara guerra para que depois as Forças Armadas criem condições para o poder político poder declarar a paz. E a solução tem que ser sempre política, porque não há guerras que tenham soluções militares pura e simplesmente. Se a solução for só militar há sempre um dos corredores que acaba por ser totalmente aniquilado. E quando nós dizíamos que a solução tinha que ser política, os fascistas na altura, a extrema-direita, defendia que a solução passava por um reforço do armamento e do equipamento das Forças Armadas portuguesas, que já estavam a perder na comparação com algum equipamento e algum armamento que os movimentos de libertação estavam a adquirir. Bem e nós, na altura, dentro da contestação que fazíamos, costumávamos dizer para esses que defendiam que a solução era o reforço do equipamento e do armamento: "pois é, dar mais armas para matar melhor é o que vocês querem!"

 

"Portanto, em termos comparativos, eu diria que o que o Chega e o “Aventura” pretendem é reforçar o poder das forças de segurança para reprimirem melhor. Isto é, eles olham para as forças de segurança como forças de repressão e não como forças de segurança, porque as polícias não servem para reprimir, servem para fazer segurança. E há uma diferença muito grande que tem que ser entendida entre o que é segurança e o que é repressão.”

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Foto: Rui Ochôa

Não consegui resistir a perguntar sobre o 25 de novembro. Vasco Lourenço já tinha afirmado publicamente que não concorda com a sua comemoração, mas - e conforme pude constatar pela conversa - isso não significa que relativize a importância do acontecimento. As suas palavras explicaram claramente as divisões que marcavam o país em 75, mas também me elucidaram sobre o facto de que as diferentes motivações da altura não serem hoje retratadas de forma fiel.

"Eu sobre isso tenho assumido muitas posições ao longo dos tempos e pensado muito para poder, digamos assim, fortalecer a minha opinião. Eu terei que lembrar o meu papel no 25 de novembro: eu, no 25 de novembro, estive do lado daqueles considerados os vencedores e dirigia o "Grupo dos Nove". Fui, na hierarquia de comando que foi estabelecida na altura do nosso lado, o número dois. O primeiro era o Presidente da República, o General Costa Gomes, o segundo era eu e o terceiro era o Ramalho Eanes, que era o meu adjunto. E portanto, assumo e continuo a assumir, as posições que tive no 25 de novembro. Porque se não se tivesse dado um acontecimento como foi o 25 de novembro, muito dificilmente o 25 de Abril se poderia cumprir como acabou por cumprir. E a sua maior conquista, na minha opinião, foi a aprovação da Constituição da República"


“Existem dois lados que continuam a olhar para o 25 de novembro de uma forma errada: à esquerda olha-se para o 25 de novembro como aquilo que evitou a revolução do que tentaram fazer, uma revolução popular ou a implantação de um regime não democrático, comunista. E por outro lado, à direita, olham para o 25 de novembro - sem terem coragem de o dizer - como aquilo que evitou um novo 28 de maio. Porque na altura do 25 de novembro houve forças que  tentaram... que estavam sob, digamos, aquilo que eu digo o “guarda-chuva” do Grupo dos Nove, dos moderados, que era assim que nós éramos conhecidos. E tentaram claramente um novo 28 maio, tentaram novamente uma ditadura e foram impedidos por nós. E eu assumo grande parte da responsabilidade disso. Considero que esse trio que eu lhe referi - o General Costa Gomes, eu e o General Ramalho Eanes - fomos essenciais para evitar isso mas eles querem comemorar…

Por isso quando hoje o CDS - que agora, p'ra mal da democracia perdeu força - quando agora as forças mais à direita vêm clamar pela comemoração do 25 de novembro, eles vêm clamar não pela comemoração do 25 de novembro como ele foi efetivamente, mas pela comemoração do 25 de novembro que evitou que os adversários do outro extremo conseguissem os seus objetivos. Esquecem que eles foram os grandes derrotados do 25 de novembro, na minha opinião.

 “Isso ficou claro na altura, no dia 27  de novembro, numa reunião que nós fizemos na Amadora, no regimento de comandos. O Jaime Neves que foi o arauto, digamos assim, desse grupo, dizia dirigindo-se ao Presidente da República, ao General Costa Gomes: “Meu General, eu e os meus homens não estamos satisfeitos. Nós queremos mais”. E fui eu que, na altura, o mandei calar e disse “Jaime chega, não digas mais”.  E eu, perante a insistência, mandei-lhe um berro e disse “cala-te que já disseste asneiras a mais!” e ele calou-se.

E portanto, eu, por exemplo, intimamente, continuo a comemorar e a assumir o 25 de novembro como a reposição dos valores do 25 de Abril . [Para ser assinalado publicamente] eu teria que salientar esta derrota da extrema-direita. E portanto não posso concordar minimamente com a extrema-direita a querer comemorar o 25 de novembro. Está a querer comemorar o quê? A própria derrota? É que eles não assumem isso e tentam camuflar isso! Eles não têm nada para comemorar, eles querem é branquear a sua atitude e querem deturpar as coisas, porque a extrema-direita e os partidos de direita, não têm nada para comemorar no 25 de novembro. Deviam era ir ao cemitério carpir mágoas por terem sido derrotados nesse dia, transformado para eles num dia de finados e não comemorar aquilo que não têm que comemorar. Eu sou contra isso e a melhor maneira de dizer isso é: o 25 de novembro continua a dividir, porque divide de facto estas três ideias sobre o que aconteceu efectivamente naquela altura. E por isso acho que o 25 de Abril deve continuar a ser comemorado, o 25 de novembro deve ser evocado. Eu, pessoalmente, continuo a evocá-lo e intimamente continuo a comemorá-lo porque me sinto um vencedor naquele dia.

" - O que venceu no fundo foi a democracia, não foi nenhuma das fações" - disse eu.

É, é  democracia que vence!

Explicou-me depois que, após o 25 de novembro, dentro do MFA existiam diferenças e discordâncias que conseguiram ser ultrapassadas numa espécie de "pré-geringonça", que culminou na Associação 25 de Abril. Levou quase sete anos para que as divisões fossem ultrapassadas mas foram, porque era esse o cerne da democracia porque tanto lutaram.

“O que eu acho é que o 25 de Abril, um dos aspectos mais positivos que tem, é que nós, apesar de nos termos andado a prender uns aos outros, fizemo-lo para conseguir garantir o cumprimento das promessas que tinham duas bases essenciais: a paz e a democracia, com o pano de fundo da liberdade. Depois tinha a ambição de construir um país mais justo, mais desenvolvido, onde as injustiças sociais fossem menores dado que infelizmente é impossível acabar com elas de vez.”

A conversa regressou ao presente com a questão da justiça social e da alegada "subsídio-dependência".

(Não me querendo alongar demasiado, optei por marcar aqui a divisão deste post. Daqui a um par de dias publico a segunda parte daquilo que foi uma grande lição de cidadania e consciência cívica).

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Obrigada Coronel!


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Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

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