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IN.SO.LEN.TE

A "pós-verdade" de quem sabe tudo com base em nada

Parece de repente que há, de repente, muito mais gente iluminada no mundo. 

Pelo menos a julgar pela grande sapiência das caixas de comentários do Facebook, todos temos uma noção da realidade muito própria, assente na grande superioridade intelectual de quem é convicto nas suas próprias opiniões. Hoje ser moderado ou ponderar factos contraditórios sobre um tema é ser ingénuo e crédulo. Por isso, parece que o melhor é optar por colocar em causa - e evitar ler - tudo aquilo que possa desacreditar as teorias individuais de cada Nostradamus registado na rede.

Sarcasmo fora parte, começa a parecer que a verdade perdeu o significado para a maioria das pessoas. Acham que é subjetiva. Confundem-na com liberdade de expressão e de opinião. O que falta perceber a esta gente desinformada é que toda a liberdade envolve responsabilidade. Os factos não podem ser moldados a nosso bel-prazer para se acomodarem nas percepções que já temos, porque simplesmente não funciona assim. Embora já haja quem pense que pode funcionar...

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Imagem: screenshot da Reportagem TVI "O grupopolémico que contesta os perigos da covid-19" 

Em 2016 (há quatro anos, era pré-covid) , o The Guardian publicava um artigo intitulado "How technology disrupted the truth". Já na altura era referido que a forma como as pessoas consumiam informação dependia cada vez mais dos algoritmos das redes sociais, criados para nos sugerir conteúdos que "eles" sabem de antemão que nos vão agradar, por serem similares a outros com que já interagimos. Isto cria uma "bolha" de informação, na qual apenas encontramos conteúdo com o qual, à partida, já concordamos (vejam o documentário The Social Dilemma, na Netflix e ficam com uma ideia do que estou a dizer).

O alarme acrescido vem do facto de as redes sociais serem, simultaneamente, os grandes agregadores de conteúdos informativos e, ao mesmo tempo, o local onde estão reunidas fotos e vídeos sobre pessoas com quem temos uma ligação emocional. É muita coisa contraditória e incompaível para ter num único lugar, e leva a que emoção e razão sejam confundidas mutuamente.

Este é um dos principais ingredientes, senhoras e senhores, para a proliferação da "pós-verdade": termo "relacionado ou denotando circunstâncias nas quais os factos objetivos são menos influentes na formação de opinião pública do que apelos à emoção e à crença pessoal", segundo o Dicionário Oxford. Em 2016 esta foi palavra do ano, escolhida por se tornar popular aquando do referendo do Brexit (na qual ganhou o "Leave" graças a uma campanha enganadora e, claro, com forte apelo à emoção).

[Brexit campaign] was hardly the first time that politicians had failed to deliver what they promised, but it might have been the first time they admitted on the morning after victory that the promises had been false all along. 

in "How technology disrupted the truth", The Guardian, 2016

Se a emoção for aliada a conteúdos visuais - mais atrativos do que o texto - então estão reunidos os ingredientes para a sopa do desastre, que fica bem quentinha e fumegante na panela de pressão que são as redes sociais. 

Mas há muito mais além disto.

No livro "Pos-thruth"  (MIT Press, 2018), o investigador Lee McIntyre explica que a pós-verdade não é uma simples desvalorização dos factos, mas também se relaciona com a "convicção de que os factos podem sempre ser obscurecidos, selecionados e apresentados dentro de um contexto político que favorece uma interpretação da verdade em detrimento de outra". Um exemplo que o autor refere, é o de Kellyanne Conway, conselheira de Trump na Casa Branca, que em 2017, se referiu a "factos alternativos", quando foi confrontada com a falsidade flagrante de que Trump não teve mais pessoas na tomada de posse do que Obama (conforme tinha sido divulgado pelo secretário de imprensa). Foi assim legitimada a ideia de que cada pessoa pode interpretar a realidade conforme entender (logo num dos primeiros atos oficiais do Presidente dos EUA).

Mas nem só de mentiras óbvias vive o engano coletivo.

A desinformação e a "pós-verdade" surgem, não apenas da propagação de informação falsa, mas também de informação duvidosa, ambígua, descontextualizada e incompleta que induz em erro. Além disso, muitos outros conteúdos partilhados sem enquadramento têm potencial para criar caos, mesmo sem que seja essa a nossa intenção (ou da nossa avô, que criou agora um perfil no Facebook).

"Classifica-se como fake news uma ampla variedade de conteúdos que, em muitos casos, nem sequer se assemelham na forma ou fazem passar por notícias: desde memes com mensagens políticas até artigos de opinião, montagens satíricas ou humorísticas, cartoons, vídeos difundidos nas redes sociais sem edição ou enquadramento jornalísticos, etc. Tal como acontece a muitos outros conceitos, especialmente neologismos, a sobreutilização dos mesmos acaba por resultar na deturpação do significado original".

in Livro "Viral - A epidemia de fake news e a guerra da desinformação", Fernando Esteves e Gustavo Cardoso, (2019). Desassossego

Há por isso muito de inconsciente na propagação digital de tretas. Por isso é tão importante a crítica (construtiva), o debate (sério) e o bom senso, até mesmo no planeta dos macacos que parece estar a tornar-se o Facebook. O mundo não é feito de certezas absolutas, mas isso não significa que a verdade possa ser definida arbitrariamente. As convições pessoais não podem ignorar o contraditório. 

 

"What was he talking about...?"

A 26 de setembro de 1960 aconteceu o primeiro debate presidencial em direto na TV nos EUA. Kennedy defrontava Nixon, e o momento foi simultaneamente transmitido em dois meios distintos, dando origem a diferentes avaliações da prestação dos candidatos. Quem escutou o debate na rádio atribuiu a "vitória" a Nixon, cujo discurso assertivo foi convincente. Já quem viu na TV decidiu a favor de Kennedy, que saiu beneficiado pela imagem e comportamento pensados e cuidados.

O que aconteceria, se, naquela altura, os candidatos presidenciais fossem Trump e Biden?

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Getty Images

Vamos por partes...

Na última madrugada decorreu mais um debate presidencial nos Estados Unidos da América. Após o desastre que resultou do último confronto, ficou decidido que cada candidato teria direito a dois minutos para responder às questões da moderadora, tempo após o qual seriam desligados os microfones. Não foi isso que aconteceu em nenhum momento.

Inicialmente era notório um esforço de ambos para respeitar esta regra, mas à medida que o tempo avançou as interrupções recíprocas começaram a surgir (ainda que de forma menos vincada que da última vez).

O debate ficou marcado por acusações mútuas, que muitas vezes se sobrepunham às respostas necessárias. Apesar disso acho que foi mais ou menos possível para os espetadores perceber as posições (opostas) de cada um em relação a determinados assuntos: coronavírus, Coreia do Norte, Obamacare - que Biden chegou a afirmar que vai transformar em "Bidencare" - controlo de fronteiras, consumo de droga no país, racismo, subsidiação das indústrias petrolíferas, para nomear alguns. Talvez por isso não seja possível apontar um vencedor inequívoco do debate, pois ambos foram capazes de gerir as expetativas do eleitorado que lhes corresponde.

Grading on a curve, political experts said President Trump did not hurt himself. But they said neither did Joe Biden, and that may be all that matters so late in the game.

The New York Times

É verdade que o conteúdo do discurso foi mais elevado que o do primeiro debate, mas que dizer quanto à forma? Se ouvíssemos Trump e Biden na rádio, a nossa opinião seria diferente, tal como aconteceu no debate de 1960 entre Nixon e Kennedy? O meu palpite era que Trump saíria vencedor, mais que não seja pela confiança e assertividade que transmite.

Trump fala muito depressa, bastante alto, interrompe. O que por uns é visto como uma agressividade exagerada, outros vêem como poder, domínio, até sinal de dinamismo.

Público

Trump tem um "modo de falar que implica uma grande confiança no seu conhecimento em tantas áreas que é obviamente impossível", dizia há dias o jornal Público. O atual presidente transmite segurança nas suas afirmações, mesmo que estas sejam falsas, e é inegável o impacto que isso tem na percepção das suas palavras.

Esta é, por outro lado, a grande fraqueza de Biden. O candidato democrata tem notórias dificuldades em manter a coerência e o raciocínio, o que lhe faz perder credibilidade. A dado momento do debate, Biden, quanto tentava contrapor um argumento de Trump, disse mesmo: "In terms of this thing about... what was he talking about...? China!".

É um pormenor, mas tem grande importância na avaliação subjetiva e insconsciente que acabamos por fazer dele. Claramente ele perde o fio à meada durante alguns momentos, o que não pode acontecer quando se defronta um ego irredutível como o de Trump. Não é sensato desvalorizar este facto, pois estas questões - ainda que possam aparecer acessórias - acabam por ter um impacto significativo na percepção que a população tem dos candidatos. 

"I'm not a tipical politician, that's why I got elected"

 Donald Trump, durante o debate presidencial de 23 de outubro de 2020

Apesar de Biden liderar as sondagens a nível nacional, a aposta na assertividade discursiva sem respeito pelos factos continua a ser uma estratégia sólida de Trump, que assim consegue ter mais sucesso que Biden no meio irracional e emotivo que são as redes sociais. 

Nos dias que correm, qual  será afinal o barómetro mais adequado para medir a sociedade americana? 

Ditadura dos convictos II

Se há coisa que me incomoda são as certezas absolutas.

aqui tinha escrito sobre isso (num contexto mais específico), mas a pertinência do assunto leva-me a querer escrutinar mais ainda a questão. Isto porque acredito que a certeza leva à intransigência e ao extremismo. Quanto mais leio e me tento informar mais dúvidas me surgem, pelo que não consigo compreender que haja tanta gente a vestir camisolas ideológicas sem as colocar sob a lupa do espírito crítico. Falo não só de política (e de populismo ) mas de muitas outras coisas, algumas tão aparentemente simples como o desporto (que, se pensarmos bem, acaba por ser um pouco político, mas já nem vou entrar nesse caminho).

Parece-me que há cada vez mais uma tendência para o fundamentalismo, observável a olho nu na internet. Fecha-se a porta a opiniões contrárias porque se crê na verdade absoluta das próprias. Nem vale a pena escutar quem pensa diferente, pois isso poderia confirmar a hipótese remota de estarmos a ver as coisas de forma errada. A crítica (não construtiva) gratuita e a falta de contenção sobrepõem-se ao bom senso e o resultado é simplesmente alarmante.

É verdade que por vezes se torna difícil tomar uma posição, mas pessoalmente gosto de ler aquilo com que não concordo, porque mesmo não que não me reveja no texto isso não o torna menos enriquecedor. Antes pelo contrário. 

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Infelizmente os algoritmos digitais das redes sociais não favorecem esta postura divergente. Um artigo publicado hoje no jornal Público analisa a subjetividade do extremismo e a forma como esse facto está ligado à própria configuração das plataformas de partilha de conteúdo.

“As redes sociais estão a promover grupos homogéneos, convictos de que estão do lado da razão”, resume ao PÚBLICO Fabian Baumann, físico da Universidade Humboldt, na Alemanha. Baumann usa fórmulas matemáticas para analisar o discurso nas redes sociais. “Temos pessoas com as mesmas opiniões a interagir entre si, a repetir as mesmas ideias e a criticar as mesmas pessoas, o que as impede de questionarem as suas opiniões.”

Ainda no mesmo artigo é referido que:

“Tornou-se evidente que na Internet ninguém se encontra no centro. As pessoas estão a falar do que ouvem e a ouvir do que falam”, conclui o físico, que acredita que ver pessoas divididas em grupos ideológicos é muito mais fácil online. “As grandes plataformas como o Twitter, o Facebook e o YouTube aceleram um processo que já é humano”, admite. “No mundo real, quando andamos na rua ou vamos a eventos, somos confrontados com pessoas muito diferentes.”

Acredito que esta é a verdadeira pandemia do século XXI. Não é possível construir opiniões fundamentadas com base numa única visão dos factos. A forma mecânica e vincadamente emocional com que somos guiados nos conteúdos da internet é preocupante e tem um impacto enorme na proliferação da desinformação. E é cada vez mais difícil contrariar. (Este caso de desinformação climática relatado pelo Diário de Notícias é só um exemplo). Vou arriscar o dramatismo e dizer que estamos perto de viver na Matrix.

Pedro Mexia acaba por referir isto numa entrevista (extremamente interessante) que hoje saiu no jornal Público. Mexia referia-se ao universo da crítica literária, mas a tese é válida no contexto a que me refiro. 

a legitimação já não é uma evidência: o que as pessoas tendem a dizer é: “O que é que me interessa a opinião desta pessoa?” Percebo, não concordo, porque há razões para uma pessoa ser melhor do que outra. Porque os jornais e revistas generalistas já não fazem parte do quotidiano das pessoas. Mas se isso é problemático na critica literária, o que dizer da crítica de cinema; é totalmente deslegitimizada pela Internet. As pessoas hoje em dia não conseguem achar que há uma pessoa que viu mais filmes e que os viu melhor, e que sabe mais. Que há uma dimensão objectiva segundo a qual podemos dizer que um escritor ou um cineasta é melhor do que outro. Depois isso fica aberto a discussão e a revisitações periódicas.

Não poderemos evoluir sem confronto de opiniões, pelo que a intransigência não nos leva a lado nenhum. Está na altura de começar a sair da caverna da convicção (conselho dado por quem vive com dúvidas)...

 

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Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

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