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IN.SO.LEN.TE

O Afeganistão e a (crescente) crise migratória

Dizer que o que o está a acontecer no Afeganistão era muito provável é um eufemismo. Consigo avaliar como razoável a ideia de que a permanência das tropas americanas não poderia ser eterna, mas a retirada não podia, nem por sombras, ter acontecido desta forma.

O desespero dos afegãos e afegãs que tentam sair do país ficou bem patente na enchente no aeroporto de Cabul, no dia seguinte à tomada de poder pelos Taliban. Um autêntico salve-se quem puder, onde a única esperança era conseguir um lugar no avião que partiu lotado mas que, ainda assim, trazia poucos. Houve quem morresse ao tentar agarrar-se ao avião a descolar. Apesar disso a repressão tem-se mantido constante,  mesmo que o discurso dos Taliban seja hoje mais moderado do que foi na viragem do milénio.

A cosmética da tolerância e da inclusão das mulheres serve apenas para afastar definitivamente a já escassa ação ocidental no país. O que acontece nas ruas é bem diferente. Os direitos humanos, especialmente das mulheres, serão novamente ignorados e espezinhados. Depois de uma luta prolongada para integrar a sociedade, é pouco provável que as afegãs consigam manter os seus lugares na política, consigam prosseguir os estudos, ou simplesmente voltar a andar na rua desacompanhadas e sem burca.


Após duas décadas de intervenção militar, a precipitação dos EUA em retirar os soldados fez tudo voltar à estaca zero. Será tentador atribuir a culpa a Joe Biden - que, de facto, podia e devia (!) ter tido outra gestão deste problema - mas, e conforme escreve o New York Times, a culpa vai de Bush, a Obama, passando por Trump e culmina em Biden:

"The responsibility lies with both parties. President George W. Bush launched the war, only to shift focus to Iraq before any stability had been achieved. President Barack Obama was seeking to withdraw American troops but surged their levels instead. President Donald Trump signed a peace deal with the Taliban in 2020 for a complete withdrawal by last May."

(...)

"It has long been clear that an American withdrawal, however or whenever conducted, would leave the Taliban poised to seize control of Afghanistan once again. The war needed to end. But the Biden administration could and should have taken more care to protect those who risked everything in pursuit of a different future, however illusory those dreams proved to be."

Editorial, New York Times, disponível em https://www.nytimes.com/

Há, também, uma hipocrisia coletiva, assumida agora que o cenário se revelou muito negro com demasiada rapidez. A opinião pública americana - e ocidental, de uma forma geral - há muito que deixou de ligar a este problema, chegando a ser quase unânime a defesa da retirada das tropas. Quem melhor descreve esta ideia é Tom Nichols, num artigo de opinião na The Atlantic, cujo título é auto-explicativo: "Afghanistan Is Your Fault. The American public now has what it wanted."

Já ninguém ligava muito ao que se passava no Afeganistão, e seriam poucos os Americanos que encaravam a missão como relevante atualmente. Agora, que observamos o sangue e o desespero nas ruas de Cabul, procuram-se caras a quem apontar o dedo.

Biden foi quem o fez de forma mais displicente. Não só se relevou intransigente na manutenção do plano de retirada, como ainda culpou os afegãos, afirmando que foram dadas “todas as oportunidades para determinar o seu próprio futuro" e por isso "Não podíamos dar-lhes a vontade de lutar por esse futuro”.

 

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Foto: AFA

 

O maior problema desta crise ainda está, no entanto, a desenhar-se. Com tantas pessoas a querer abandonar o país, é mais do que previsível o eclodir de uma nova vaga de refugiados. A ONU já apelou à solidariedade dos países, ainda que esta seja manifestada de forma muito moderada.

Acautelando-se, a Turquia já está a construir um muro de 64km na fronteira com o Irão, de forma a travar a possível entrada de deslocados afegãos. Também a  Áustria recusou o pedido de ajuda, "sugerindo a criação de “centros de deportação” nos países vizinhos – como o Paquistão ou o Irão, onde estão já perto de três milhões de refugiados afegãos", diz a SIC Notícias.

Num discurso onde manifesta a aparente vontade de "cooperação", Macron deixou bem claro que a França irá "tomar uma iniciativa, com a Alemanha e outros países europeus, para construir sem demora uma resposta robusta, coordenada e unida, que envolverá a luta contra os fluxos irregulares". (Atente-se nesta última parte da "luta").

Mais uma vez a Europa escolhe "proteger-se" ao invés de efetivamente se mostrar solidária com a defesa dos direitos humanos que diz serem a sua base. A crise migratória é um dos grandes problemas da nossa era, mas continuamos a ter líderes que defendem as fronteiras em vez das pessoas. As polítcas da UE face às migrações são cada vez mais hipócritas. Veja-se o Novo Pacto Europeu para as Migrações e Asilo, que, ao invés de definir uma resposta coordenada entre os Estados, coloca a tónica nos repatriamentos "patrocinados". Isto além de manter e financiar novos campos de refugiados com condições desumanas (conforme denunciado pelos Médicos Sem Fronteiras).

Enquanto não existir uma política coordenada internacionalmente, que proteja os direitos dos refugiados, vamos continuar a assistir a este "passa testemunho", que instrumentaliza as pessoas desesperadas por uma vida melhor (como, aliás, aconteceu em Ceuta, em maio deste ano).

O Afeganistão será só mais um capítulo deste drama, que, no fim de contas, apenas serve para reforçar as narrativas populistas e de extrema-direita.

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Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

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