Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

IN.SO.LEN.TE

Memória colonial: Marcelino da Mata e Mamadou Ba

A polémica em torno de Marcelino da Mata mostra bem as divisões que persistem em Portugal.

Por ter sido o militar mais condecorado do Exército o seu funeral teve direito à presença de ilustres, mas, por ter levado a cabo inúmeros assassínios durante a missão na Guiné, a sua memória não está livre de contorvérsia.

Durante a Guerra do Ultramar as pretensões colonialistas de Portugal foram honradas por este homem que, cumprindo ordens, levou a cabo a missão que lhe propunham. Essa missão envolvia a invasão de territórios, o bombardeamento de povoações e a aniquilação de quem se opusesse. Por isso mesmo as condecorações de que tanto se fala são prévias à Revolução dos Cravos, e foram entregues durante um regime ditatorial que tinha na censura um dos seus pilares. 

No entanto, à luz da nossa consciência atual, as suas ações são altamente censuráveis, precisamente porque condenamos o contexto que as motivou: o colonialismo.

guine_miguel_pessoa_26mar1970_19730326_guileje_9.j

O piloto Miguel Pessoa ao ser resgatado pelos Vingadores, o grupo de operações especiais chefiado por Marcelino da Mata, (que na foto empunha uma catana).

Foto do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné

 

A própria vida de Marcelino da Mata reflete bem as diferenças de percepção adoptadas pelo país que ele escolheu defender: passou de militar condecorado a prisioneiro no PREC e acaba por morrer num contexto de aparente desvalorização. A notícia do seu falecimento passou virtualmente incólume e, note-se, só criou ruído quando os obituários geraram tantas críticas quanto elogios.


Neste momento, ainda não sabemos o que a Pátria, sempre ingrata, reservará à preservação da sua memória. Contudo, o seu nome e feitos há muito que fazem parte da História e da memória das nossas gentes.

José de Carvalho in Público

Veja-se a citação anterior, retirada de um artigo de opinião de José Carvalho no Público. Escolhi esta frase não por concordar com o mote do artigo (que exclama a glorificação do falecido militar) mas porque, talvez involuntariamente, reflete bem o que de facto de passa. Marcelino da Mata faz parte da nossa História, certo, mas a nossa concordância com essa mesma memória é o que influencia a corrente opinião sobre as suas ações. As diferentes interpretações do passado são, em última instância, o que dita as nossas posições no presente. Não consigo deixar de comparar esta polémica à da vandalização de estátuas, que aconteceu no ano passado. Também aí a razão da discórdia estava profundamente relacionada com a diferença de contextos e com a forma como esses contextos são encarados à luz da atualidade.

"É tempo de se falar sobre estas história de forma muito pragmática e analítica. O colonialismo foi algo hediondo e Marcelino da Mata é fruto disso e os comandos são fruto de um regime que massacrou pessoas durante mais de 500 anos".


"Não se pode olhar para a história de África dessa altura com os olhos de hoje. Para avaliar Marcelino da Mata é preciso olhar a história de Portugal na Guiné e inseri-lo nesse contexto."

Sofia Palma Rodrigues, doutoranda em Pós-Colonialismos, in DN

A condenação do colonialismo não é consensual. Isto é bastante claro. E fica ainda mais claro quando há partidos que reivindicam luto nacional após a morte de tão polémica figura - e não, não me refiro àquele que já sabemos que gosta muito de capitalizar ódios.

Também é claro que, mesmo passados tantos anos, a Guerra do Ultramar e os atos que se ali praticaram são alvo de um desconcerto tal que originam coisas tão absurdas como uma petição para deportar Mamadou Ba. O que está aqui a acontecer é que um enorme grupo de cidadãos quer que seja discutida no Parlamento a possibilidade de expulsar de Portugal alguém que disse uma coisa com a qual não concordam. Nas entrelinhas podemos ainda ler que consideram inadmissível criticar quem matou indiscriminadamente em defesa do colonialismo. 

É óbvio que esta polémica irá esfumar-se como aconteceu a tantas outras. O que está longe de desaparecer é a nostalgia ingénua que deturpa a realidade dos factos. O descontentamento crescente vai continuar a motivar indignações absurdas, especialmente porque o absurdo está cada vez mais normalizado.

Memória e cultura política - com Eduardo Gageiro

“Não saio muito à rua ultimamente, mas vejo que a nossa sociedade…quanto a mim começa a ficar muito polarizada não é?”

Foi assim que começou a última conversa que tive com Eduardo Gageiro, nome maior do fotojornalismo, que documentou o Portugal da ditadura, a Revolução de Abril e o mundo que se lhe seguiu.

Estando na primeira fila de tantos e tão grandes momentos pensei que seria com certeza interessante perceber qual a sua visão da actualidade. A poética das suas imagens sempre me inspirou, por serem capturas perfeitas de emoções momentâneas repletas de significado. Vêem-se vidas inteiras em cada retrato que concretizou.

Nesta altura em que a pandemia veio alterar todos os aspectos da nossa vida confessou-me estar profundamente triste por estar a viver algo tão marcante sem o poder fotografar.

“Não tenho saído de casa ultimamente. O médico disse-me que, com a minha idade - já tenho 85 anos - podia ir desta para melhor.”

“Gostava de ter fotografado as consequências da pandemia e a pandemia em si. Gostava de ter feito fotografia a doentes, a pessoas da rua… mas eu não saio. Sabe que eu quando saio levo sempre a maquina fotográfica. Eu não andar com a máquina fotografia, para mim é um sacrifício, é terrível. De forma que, olhe, estou em casa, a fazer projectos…”

Entre esses projectos a predilecção é fazer livros. É um trabalho moroso e solitário, mas que afirma ser absolutamente necessário para conseguir a qualidade que pretende.

“Sabe que eu levo muito tempo a fazer os livros. Eu levo anos a fazer um livro, porque é pensado, é um livro feito com amor. [Quando o faço] não estou a pensar só na parte financeira, nem pensar. Eu tenho que sentir o livro, compreende? De forma que levo anos.”

unnamed.jpg

Foto: Feira da Ladra, 1964. Eduardo Gageiro (publicação autorizada) 

 

Falando de livros tornou-se inevitável referir a desmaterialização dos bens culturais fomentada pela tecnologia, e de como isso afeta a nossa percepção. A verdade é que, queiramos ou não, a componente sensorial de um objecto físico não pode nunca ser substituída pelos meios digitais. Os livros em papel continuam a ter um encanto, uma “aura” que não é passível de reproduzir online, mas a conjuntura não lhes tem sido favorável. Em tempo de restrições à circulação, os livros sofrem as dores do confinamento. Os livros e, claro, os jornais em papel, que apesar de todas as contrariedades teimam em estar presentes nas galerias ondulantes que são os quiosques. Na opinião do fotógrafo continuam a ser absolutamente essenciais.

“É pena o grande público não comprar tanta imprensa escrita percebe? Porque têm acesso à televisão, têm acesso a outros meios tecnológicos. Para mim o papel, o jornal é tudo."

 

"Ver aquilo impresso, sei lá…sinto-me mais ligado aos assuntos. Eu, se vejo uma coisa impressa, eu repito, leio várias vezes. Porque na verdade há coisas que merecem ser lidas mais do que uma vez. [Já] a imagem rápida, digital é uma coisa fugaz não é?"

 

"Eu acho que [o meio digital] é necessário, mas o jornal também é necessário. Os livros também, que cada vez se fazem menos… tudo isso, além de afetar todo o mundo afeta-nos também… digamos… a nossa mente não é?"

Eduardo Gageiro fazia uma observação que eu subscrevo: a nossa capacidade de percepção, de avaliação dos conteúdos, de julgamento é alterada. A palavra impressa perdura na matéria e na memória de uma forma muito característica.

“É diferente. Por isso é que eu levo tanto tempo a fazer um livro. É preciso perder tempo, mas para quem gosta dá um prazer que não queira saber. É uma coisa que me dá prazer, nos livros, é contar uma história, conseguir que as fotografias se encaixem umas nas outras, como seja um filme.”

A ideia é, portanto, transmitir a narrativa das imagens para o próprio objeto onde se inserem. As fotografias de Eduardo Gageiro são importantes elementos de memória histórica que trazem até ao presente pequenos pedaços do passado que por vezes caiem no esquecimento.

É este, diz o fotógrafo, o nosso grande problema. Não aprendemos com os erros já cometidos, correndo o risco que aconteçam de novo. Não somos capazes de nos abstrair de nós mesmos para ter uma visão mais abstracta das possibilidades, sejam elas boas ou más. É talvez por isso que precisamos tanto de “cultura política”.

Sem Títuloccc.png

 

“Eu fico impressionado porque dá-me a sensação - não tenho a certeza - que a gente jovem, que deveria fazer um Portugal muito melhor, está a desviar-se um pouco e está a cair na linguagem dos charlatães. Porque quem lê, quem estudar como é que o fascismo começa é precisamente assim, com este tipo de linguagem e com este tipo de estratégia. É fácil conquistar a gente jovem só com, digamos, falsas promessas e com o “susto” de ditaduras, neste caso, de esquerda (o que não acontece não é?).

[Parece] que as pessoas não pensam, nem têm cultura. Não têm cultura política nem cultura geral para saberem realmente onde se podem meter (que é num poço). Porque se vir o estilo de linguagem, por exemplo, deste “fascistóide” chamado André Ventura verá que aquelas frases feitas vêm do Hitler, do Mussolini…

(...)

“O nosso mal é que as pessoas se deixam embarcar pelo canto do cisne, quando aquilo é tudo falso. Se reparar bem todos os discursos que ele fez não apresentou uma [única] ideia coerente.”

Infelizmente tal não impediu o povo português de validar, de certa forma, esse discurso. Como bem sabemos o populismo teve uma forte adesão nas últimas eleições presidenciais, deixando no ar a convicção de que continuará a crescer. Estamos a perder a cultura e a memória? Será que o nosso esquecimento coletivo vai continuar a empurrar-nos para o autoritarismo?

"Nós não vamos deixar, eu, se for vivo não vou deixar.”

unnamed (3).jpg

Foto: Sacavém, 1951. Eduardo Gageiro (publicação autorizada)

Não deixemos.

 

Evangelização, preguiça moral e botas enlameadas - com Rui Zink

Há uns dias debrucei-me sobre a possibilidade de estarmos a tornarmo-nos neo-evangelizadores. Observando a postura fervorosa com que são defendidos alguns pontos de vista, deparo-me – física e digitalmente – com opiniões tão seguras e intransigentes que não revelam senão um completo sentido de autoridade auto-imposta.

É quase como se a discórdia fosse confundida com ingenuidade, no sentido em que se assume que quem não compreende/concorda com aquela perspectiva específica o fará por pura falta de entendimento - “é ingénuo, crédulo, não percebe nada do mundo”. Assim sendo, muitos dos iluminados tomam como missão a conversão dos outros à sua visão, fazendo de uma opinião um evangelho autêntico. Tudo o que seja dito em contrário não será mais do que blasfémia.

Parece-me que estes fenómenos de crítica gratuita são uma profunda manifestação de populismo, na vertente de cidadania. Não são, portanto, os políticos, são mesmo os cidadãos que padecem de falta de sentido crítico, especialmente no que respeita aos seus próprios julgamentos. Talvez por isso agora proliferem os evangelizadores "Pela Verdade", nas redes sociais...

Mas porque raio há pessoas que acreditam ter sempre razão? 

evangelização.jpg

Ilustração: Ryan Inzana, New York Post

Uma das respostas é porque todos temos um fascista dentro de nós, mais ou menos desenvolvido consoante a nossa vontade. E não sou eu a dizê-lo – que eu não lido bem com fascismos – mas sim Rui Zink.

O escritor lançou em setembro do ano passado o “Manual do Bom Fascista”, um livro que choca de frente com a flagrante falta de coerência dos evangelizadores de secretária (ou de balcão). A obra não só ironiza as contradições dos que se dizem saudosos de Salazar como é uma deliciosa lição  - aliás não uma, mas 99 – acerca da forma como o autoritarismo é frequentemente pregado aos sete ventos por todos nós, porque todos nós temos facilidade em desprezar a reflexão.

Falei com Rui Zink sobre esta questão, numa conversa descontraída que acabou por extrapolar para outras tantas questões fraturantes da humanidade, nomeadamente a facilitação, o narcisismo, e as botas enlameadas.

zink.jpg

 

 

“O culpar o outro é sempre uma facilitação. Eu diria mesmo que é uma infantilização.Nós estamos a infantilizar-nos quando caímos na culpa ao outro. Este ano, com a pandemia, a coisa piorou.”

Rui Zink

Concordei. É verdade que todos temos direito a opinar - e felizmente podemos fazê-lo livremente - mas o surgimento de grupos que se apoiam em teorias da conspiração para disseminar baboseiras sem base científica atingiu níveis históricos. Rui Zink diz que parte da explicação reside no medo e na reação que este nos provoca. A pergunta que coloquei foi algo do género: “como pode tanta gente acreditar em coisas tão desinformadas, apoiando grupos como os “Médicos pela Verdade?

“Eu penso que, acima de tudo, mais do que fascistas, ou estúpidos, ou tribalistas, são preguiçosos morais. Muitas vezes o lado secundário da preguiça é o narcisismo. O narcisismo parte de uma coisa  boa que é gostarmos de nós próprios, mas torna-se preguiçoso... quanto mais preguiçosa a pessoa, menos coloca dúvidas. Pensar cansa.” 

Rui Zink

De facto é muito mais fácil acreditar na mentira do que perder tempo a confirmar a verdade. O lamentável é que a canseira do pensar não está apenas ligada à falta de palato para identificar balelas, mas também acontece nas tentativas apressadas de citar ideias/nomes/autores/teses que não se conhece para validar um ponto de vista.

O hábito de utilizar pensadores de renome de forma descontextualizada é igualmente uma forma de “preguiça moral”. De facto não tem qualquer valor citar nomes sem compreender as ideias que lhes estão associadas. É parvo. Atirar citações ao acaso é tão útil como tapar o sol com a peneira: ao fim e ao cabo a pele acaba por se queimar e todos vão dar conta do escaldão.

"Podíamos todos tornar-nos melhores pessoas - e melhores evangelizadores se é isso que queremos ser - se batêssemos à porta, como fazem os mórmones ou as testemunhas de Jeová...o que acontece com as redes sociais agora é que, como não têm portas, entra-se pela casa adentro dos outros sem pedir autorização, muitas vezes só para agredir, para partir coisas. E entra-se com as botas enlameadas, à bruta..."

Rui Zink

Esquecemo-nos que quando algo é de todos carece do cuidado de cada um.  A entrada forçada no espaço alheio serve apenas para alastrar o rasto de sujidade. 

Mais visitados

Pensamento do dia

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

Redes Sociais

Mensagens

E livros?

Em destaque no SAPO Blogs
pub