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IN.SO.LEN.TE

Hiroshima e as novas disputas

Faz hoje 75 anos que Hiroshima foi bombardeada pelos Estados Unidos da América, durante a Segunda Guerra Mundial, ficando na História como palco de um dos maiores massacres de sempre. A data passou algo incólume, quase como uma nota de rodapé, perante a igualmente lamentável explosão em Beirute, no Líbano, mas não deve ser ignorada.

Vale a pena destacar o discurso de Kazumi Matsui, presidente da câmara de Hiroshima que, durante as cerimónias que assinalaram a data sublinhou que 

“um subsequente aumento do nacionalismo levou à Segunda Guerra Mundial e aos bombardeios atômicos. Jamais devemos permitir que esse passado doloroso se repita. A sociedade civil deve rejeitar o nacionalismo autocentrado e unir-se contra todas as ameaças. ”

O autarca destacou a importância para o Japão de ratificar o Tratado de Proibição de Armas Nucleares, mas foi basicamente ignorado pelo governo.

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Cerimónia dos 75 anos de Hiroshima. Foto: Dai Kurokawa/EPA

 

A bomba atómica - em Hiroshima e também em Nagasáqui - foi de facto um acontecimento de proporções monstruosas, que matou centenas de milhares de pessoas, e deixou sequelas em outras tantas. Sob o nome de código "Projeto Manhattan" foi elaborada uma gigantesca construção da física que envolveu o trabalho de centenas de cientistas e investigadores. Tudo em prol da guerra e do nacionalismo exarcebado.

Setenta e cinco anos depois, as ambições territoriais e as disputas geopolíticas continuam na agenda. De facto, um dos maiores perigos que enfrentamos e que, passados tantos anos, continua a ser uma ameaça é o nacionalismo.

António Guterres fez referência a isto mesmo, há uma semana atrás. Num discurso tão claro quanto abrangente  - a que tive o privilégio de assistir presencialmente - o secretário-geral da ONU exprimiu preocupação com o "vacinonacionalismo", que está a materializar-se aquando da procura por uma vacina para a covid-19. Guterres destacou a necessidade de este ser um bem público mas, infelizmente, não parece que isso vá acontecer.

A corrida pela vacina está a agudizar a competição internacional e a afetar a qualidade da investigação científica. A informação sobre o coronavírus é a nova arma, e ganha uma importância cada vez mais decisiva para a diplomacia internacional (já há hackers a trabalhar para a obter). Basta pensar que estamos a atravessar uma fase de profunda instabilidade, em que a quarentena obrigatória (ou a falta dela) passou a ser símbolo de fortalecimento de relações entre países.

O mundo começou por enfrentar a pandemia colocando a saúde no topo das preocupações, mas o choque de realidade - em que todos percebemos que a crise pandémica vai perdurar mais do que se pensava - institucionalizou a doença, tornando-a parte integrante de todas as vertentes da sociedade (política incluída). Não é, por isso, surpreendente que a covid-19 (e respetivos número de casos de infeção) se torne o barómetro através do qual acontecem as relações internacionais.

Não sabemos como pôr fim a esta pandemia, mas sabemos que, tal como a bomba atómica, já mudou o mundo de forma catastrófica. Cabe agora a todos nós cooperar ao invés de disputar, isto se quisermos mesmo controlar os estragos.

Problemática do "like" e controlo digital dos cidadãos

Temos a vida nas redes sociais, quer queiramos ou não. Sem nos apercebermos damos sinais aos outros da nossa personalidade que podem – mais vezes do que o aceitável –  ser utilizados para nos manipular. Isto é reprovável se falarmos de uma multinacional que usa as nossas publicações de bolos caseiros para perceber que nos pode vender um novo forno, mas não é dramático. Quando pensamos, no entanto, que a mesma lógica pode ser aplicada a atos eleitorais, ou movimentos políticos já é um pouco mais complexo e decididamente perverso.

Vi no passado sábado uma pequena notícia no Jornal de Notícias a que a príncipio (confesso) nem liguei muito. A notícia referia-se ao autarca social-democrata de Trofa, Sérgio Humberto, que, de acordo com o jornal, colocou um “like” numa publicação que sugeria que o Parlamento devia ser convertido em “câmara de gás”. Esta original ideia surgiu no âmbito das polémicas relativas à celebração do 25 de abril na Assembleia da República e mereceu a aprovação simbólica por parte do responsável no Facebook.

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A questão que aqui me interessa não é sequer se é ou não errado colocar “likes” em posts desta natureza (porque isso é obviamente reprovável), mas sim o significado intrínseco desse gesto.

O Expresso escrutinou a questão e foi perguntar aos colegas partidários do autarca qual a opinião sobre assunto. Alberto Machado, líder da distrital do PSD, desvalorizou e disse que aquela “não é a página institucional” do responsável Trofense.

Quais as ilações que devemos tirar disto?

Nos comentários à notícia original (do JN) há quem duvide da relevância de um "like", afirmando que isso nem devia ser assunto noticioso. Outros ainda colocam em causa a veracidade do perfil do autarca, alegando que existem mais perfis com o mesmo nome, e aquele até pode ser falso.

Não tendo certezas quanto à autenticidade do perfil há algo que não consigo evitar pensar: Não será um "like" uma demonstração simples de traços de personalidade e carácter? Se António Costa, o nosso primeiro-ministro, colocasse um "like" num post racista, isso não nos causaria repulsa? Não é algo que nos iria revoltar?

A notícia do Jornal de Notícias parece fútil, mas não é. Daniel Oliveira partilhou a mesma no seu Twitter, condenando a atitude. Foi acusado por um internauta de concordar com uma “PIDE dos likes” e respondeu à altura:

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Isto é verdade, e ele tem razão. Mas também é verdade que um “like” é algo tão suficientemente vago que pode ser usado a favor ou contra nós. Vejamos: Se eu colocar um like num post sobre Gilles Lipovetsky, não inferem que serei alguém com interesses intelectuais? E se eu comentar uma notícia sobre o Big Brother não supôem que aprecio e acompanho programas de trash-tv no meu quotidiano? E qual o julgamento que fazem da minha pessoa nesse sentido? Isto levanta outro um tipo de questões, mais profundas, que vou aproveitar a deixa para aqui colocar...

 

Análise de likes, dados e controlo dos cidadãos

Todas estas análises são feitas por nós de forma tão imediata que se torna quase inconsciente. Por isso são tão importantes (e daí a razão da gravidade do "like" do autarca Trofense).Aquilo a que reagimos on-line transmite uma posição sobre algo, que gostamos, aprovamos, concordamos, admiramos, ou o contrário. 

A Cambridge Analytica, por exemplo, percebeu isto como ninguém, e conseguiu levar à vitória o Brexit e Trump. A empresa de “comunicação” analisou milhares de perfis no Facebook,  usando publicações, comentários e até mensagens privadas de utilizadores, para depois definir perfis de comportamento e os utilizar para disseminar conteúdos que possam influenciar decisões na hora do voto. Isto é muito mais do que campanha, é manipulação, que continua a acontecer com o nosso consentimento. E piora bastante com a crise de saúde pública em que vivemos (há um artigo no The Intercept muito interessante sobre esta questão). A cada dia surgem novas sugestões de aplicações que podem ajudar a combater a propagação de Covid-19, através da geolocalização, da análise da proximidade e contactos entre pessoas e dados biométricos. Mas até que ponto se justifica esta monitorização? Se a Cambridge Analytica conseguiu influenciar as mentes de cidadãos, com base em informação que eles próprios publicaram, imaginemos o que pode ser feito com informação sobre reacções corporais que não controlamos.

Atravessamos uma era crucial nas questões da privacidade e controlo de dados dos cidadãos, que foi profundamente agravada pela pandemia. Em que mundo queremos viver? No mundo do controlo e da segurança pública? Ou da liberdade e privacidade individuais? 

Pode a estupidez ser censurada?

Mais um dia de quarentena, mais uma manhã de notícias frescas e absurdas.

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Cartoon: Vasco Gargalo

 

Hoje ao acordar e após dar uma olhada pelas últimas novidades no mundo, vejo mais uma grande demonstração de estupidez por parte do Presidente dos Estados Unidos da América. Após um estudo confirmar que substâncias desinfetantes como cloro e o álcool eliminam o novo coronavírus da saliva e gotículas, Donald Trump sugeriu que talvez fosse possível testar uma forma de injetar estes produtos em seres humanos. Referiu também a possibilidade de investigar se poderia ser colocada luz UV dentro do corpo para combater o vírus, pois - segundo os dados apresentados na conferência de imprensa estatal - as radições UV enfraquecem o vírus. Parece inventado mas não é (podem confirmar aqui).

As reacções a estas declarações multiplicaram-se como cogumelos, com inúmeros especialistas e entidades a alertar para o facto de que estas práticas podem ser fatais. Perante a indignação generalizada, Robert Reich, ex-secretário do Trabalho do presidente Bill Clinton, apelou no Twitter para um "bicote à propaganda".

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Percebo a intenção, mas isto levanta questões que não são fáceis de responder: devem os jornalistas abster-se de noticiar este tipo de declarações estatais, por saberem que colocam em causa as recomendações relativas à saúde? Podem eles negar-se a estar presentes nestas conferências de imprensa, e recusar-se a divulgar ao público tamanho absurdo? A resposta imediata pode parecer sim, mas de facto a liberdade de expressão é uma coisa complicada.

Falei então com um antigo professor sobre esta questão existencial, de forma a perceber bem qual a posição de alguém mais experiente. Este professor, chamado Walter Dean, além de ter sido jornalista na imprensa local e nacional americana durante largos anos, é hoje investigador de temáticas relacionadas com jornalismo, já formou inúmeros profissionais de renome e integra consórcios do ramo. Além de tudo isto é um cidadão americano informado e consciente.

Perguntei-lhe o que ele acha acerca de um eventual boicote às conferências de imprensa de Trump por parte dos jornalistas e ele respondeu-me que isso não é algo que se recomende, pois as pessoas devem ter informação acerca do que ele transmite, mesmo que não seja verdade. Apesar disso, e em alternativa, é possível evitar transmitir as declarações dele em direto, e apenas veicular a informação após ser tratada. Parece-me uma boa solução, pois este método já permite incluir informação de especialistas, e contrapô-la à especulação estapafúrdia do presidente. 

Readers don't need protection. They need verified information.

...disse Walter Dean, e é absolutamente verdade. Se um jornalista decide não noticiar algo que considera errado está já a tecer um juízo prévio, impedindo os seus leitores de o fazer por eles próprios. Por isso é tão importante que todos os cidadãos tenham espírito crítico.

...And the reason readers don't need protection is that they must make decisions about their government, community and, in this case, their own safety. One does not serve decision makers by withholding information that may be scary or unpleasant.

Essa é a base da liberdade de informação, de expressão e da democracia e não pode ser posta em causa. O que me inquieta é que a liberdade acarreta responsabilidade, e infelizmente acho que muita gente não pensa desta forma atualmente. Há muita desinformação e muitas pessoas a acreditar nas balelas destes líderes que nada sabem. É isto que enfraquece a democracia: a incapacidade dos cidadãos de analisarem a informação e de tomar decisões com base em evidências. 

Em última instância, a falta de responsabilidade cívica (que resulta de uma escolha individual) inviabiliza a política democrática. A liberdade só existe se todos a defendermos, caso contrário seremos vítimas da nossa própria falta de visão e limitação de pensamento (ou, numa palavra, da ignorância).

Como solucionar isto e respeitar o livre-arbítrio?... aceito sugestões nos comentários :)

 

 

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Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

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