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IN.SO.LEN.TE

Memória e cultura política - com Eduardo Gageiro

“Não saio muito à rua ultimamente, mas vejo que a nossa sociedade…quanto a mim começa a ficar muito polarizada não é?”

Foi assim que começou a última conversa que tive com Eduardo Gageiro, nome maior do fotojornalismo, que documentou o Portugal da ditadura, a Revolução de Abril e o mundo que se lhe seguiu.

Estando na primeira fila de tantos e tão grandes momentos pensei que seria com certeza interessante perceber qual a sua visão da actualidade. A poética das suas imagens sempre me inspirou, por serem capturas perfeitas de emoções momentâneas repletas de significado. Vêem-se vidas inteiras em cada retrato que concretizou.

Nesta altura em que a pandemia veio alterar todos os aspectos da nossa vida confessou-me estar profundamente triste por estar a viver algo tão marcante sem o poder fotografar.

“Não tenho saído de casa ultimamente. O médico disse-me que, com a minha idade - já tenho 85 anos - podia ir desta para melhor.”

“Gostava de ter fotografado as consequências da pandemia e a pandemia em si. Gostava de ter feito fotografia a doentes, a pessoas da rua… mas eu não saio. Sabe que eu quando saio levo sempre a maquina fotográfica. Eu não andar com a máquina fotografia, para mim é um sacrifício, é terrível. De forma que, olhe, estou em casa, a fazer projectos…”

Entre esses projectos a predilecção é fazer livros. É um trabalho moroso e solitário, mas que afirma ser absolutamente necessário para conseguir a qualidade que pretende.

“Sabe que eu levo muito tempo a fazer os livros. Eu levo anos a fazer um livro, porque é pensado, é um livro feito com amor. [Quando o faço] não estou a pensar só na parte financeira, nem pensar. Eu tenho que sentir o livro, compreende? De forma que levo anos.”

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Foto: Feira da Ladra, 1964. Eduardo Gageiro (publicação autorizada) 

 

Falando de livros tornou-se inevitável referir a desmaterialização dos bens culturais fomentada pela tecnologia, e de como isso afeta a nossa percepção. A verdade é que, queiramos ou não, a componente sensorial de um objecto físico não pode nunca ser substituída pelos meios digitais. Os livros em papel continuam a ter um encanto, uma “aura” que não é passível de reproduzir online, mas a conjuntura não lhes tem sido favorável. Em tempo de restrições à circulação, os livros sofrem as dores do confinamento. Os livros e, claro, os jornais em papel, que apesar de todas as contrariedades teimam em estar presentes nas galerias ondulantes que são os quiosques. Na opinião do fotógrafo continuam a ser absolutamente essenciais.

“É pena o grande público não comprar tanta imprensa escrita percebe? Porque têm acesso à televisão, têm acesso a outros meios tecnológicos. Para mim o papel, o jornal é tudo."

 

"Ver aquilo impresso, sei lá…sinto-me mais ligado aos assuntos. Eu, se vejo uma coisa impressa, eu repito, leio várias vezes. Porque na verdade há coisas que merecem ser lidas mais do que uma vez. [Já] a imagem rápida, digital é uma coisa fugaz não é?"

 

"Eu acho que [o meio digital] é necessário, mas o jornal também é necessário. Os livros também, que cada vez se fazem menos… tudo isso, além de afetar todo o mundo afeta-nos também… digamos… a nossa mente não é?"

Eduardo Gageiro fazia uma observação que eu subscrevo: a nossa capacidade de percepção, de avaliação dos conteúdos, de julgamento é alterada. A palavra impressa perdura na matéria e na memória de uma forma muito característica.

“É diferente. Por isso é que eu levo tanto tempo a fazer um livro. É preciso perder tempo, mas para quem gosta dá um prazer que não queira saber. É uma coisa que me dá prazer, nos livros, é contar uma história, conseguir que as fotografias se encaixem umas nas outras, como seja um filme.”

A ideia é, portanto, transmitir a narrativa das imagens para o próprio objeto onde se inserem. As fotografias de Eduardo Gageiro são importantes elementos de memória histórica que trazem até ao presente pequenos pedaços do passado que por vezes caiem no esquecimento.

É este, diz o fotógrafo, o nosso grande problema. Não aprendemos com os erros já cometidos, correndo o risco que aconteçam de novo. Não somos capazes de nos abstrair de nós mesmos para ter uma visão mais abstracta das possibilidades, sejam elas boas ou más. É talvez por isso que precisamos tanto de “cultura política”.

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“Eu fico impressionado porque dá-me a sensação - não tenho a certeza - que a gente jovem, que deveria fazer um Portugal muito melhor, está a desviar-se um pouco e está a cair na linguagem dos charlatães. Porque quem lê, quem estudar como é que o fascismo começa é precisamente assim, com este tipo de linguagem e com este tipo de estratégia. É fácil conquistar a gente jovem só com, digamos, falsas promessas e com o “susto” de ditaduras, neste caso, de esquerda (o que não acontece não é?).

[Parece] que as pessoas não pensam, nem têm cultura. Não têm cultura política nem cultura geral para saberem realmente onde se podem meter (que é num poço). Porque se vir o estilo de linguagem, por exemplo, deste “fascistóide” chamado André Ventura verá que aquelas frases feitas vêm do Hitler, do Mussolini…

(...)

“O nosso mal é que as pessoas se deixam embarcar pelo canto do cisne, quando aquilo é tudo falso. Se reparar bem todos os discursos que ele fez não apresentou uma [única] ideia coerente.”

Infelizmente tal não impediu o povo português de validar, de certa forma, esse discurso. Como bem sabemos o populismo teve uma forte adesão nas últimas eleições presidenciais, deixando no ar a convicção de que continuará a crescer. Estamos a perder a cultura e a memória? Será que o nosso esquecimento coletivo vai continuar a empurrar-nos para o autoritarismo?

"Nós não vamos deixar, eu, se for vivo não vou deixar.”

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Foto: Sacavém, 1951. Eduardo Gageiro (publicação autorizada)

Não deixemos.

 

O jornalismo como o conhecemos tem de acabar(?)

Fico sempre na dúvida se quem não é desta área compreende mesmo o que é o jornalismo.

Muitas vezes me parece que as críticas exteriores ignoram o sentido cívico que é assumido por quem tem esta profissão, o que pode tornar-se desanimador. Para um jornalista, a procura pela verdade é a razão suprema da sua existência. O dever maior é de proteger a democracia, em nome do bem dos restantes cidadãos. A profissão é encarada por nós, jornalistas, como um chamamento, e tudo queremos fazer para a proteger de interesses malévolos (isto claro, segundo o que diz naqueles livros empoeirados que há anos estão confinados a uma qualquer prateleira inanimada).

A questão é até que ponto esta visão paternalista continua a fazer sentido, em especial para os nossos tão protegidos cidadãos. Existe um grande fosso entre o jornalismo e as vontades da sociedade atual, e isso nota-se cada vez mais por via da descredibilização a que estamos sujeitos. 

 

polaris06144711.jpgFoto: Virginia Irwin (1939), retirado de  Smithsonianmag.com

Falei informalmente sobre este tema com o jornalista Paulo Querido, que há dias escreveu um artigo que me perturbou bastante. O título era  "O destino do jornalismo tornou-se-me indiferente" e vinha contrariar a mítica ideia que "o jornalismo é sacerdócio" (na medida em que (supostamente) nunca se abandona totalmente). Paulo Querido afirma que a profissão como a conhecemos deixou de fazer sentido, pelo que há necessariamente mudanças que têm de acontecer:

[Os órgãos de comunicação social] estão a passar uma onda transformadora muito forte. Creio que a maioria pura e simplesmente desaparecerá no período de 5 a 10 anos. Os que ficarem provavelmente serão irreconhecíveis aos padrões de hoje. Serão mais plataformas, acoplarão outras profissões e distribuirão os seus conteúdos por mais canais.
 
Não sei se o termo "jornalista" subsistirá como dominante nos meios de comunicação dentro de 10 anos. Provavelmente não. As suas funções serão desempenhadas por pessoas diferentes, com vantagens. Um jornalista é um profissional pouco ou nada preparado para o mundo de comunicação que temos hoje e teremos amanhã.
 
Na melhor das hipóteses, a profissão será capaz de absorver novas técnicas e seus profissionais — como sucedeu no século XX, com a incorporação dos radialistas, dos fotógrafos, dos operadores de câmara e, já dentro da minha vida profissional, dos infografistas. 
 
Mas duvido. Enquanto ao longo do século XX os saltos foram espaçados no tempo e não colocaram em causa o essencial dos media — um grupo com o monopólio da distribuição de informação em massa —, o presente salto coloca em causa não apenas isso como muito mais coisas.
 Paulo Querido 

Poucos são os jornalistas que ousam admitir isto.

Sei-o não apenas com base na minha própria negação, mas também na dos jornalistas veteranos com quem contactei. Continuam presos ao passado e à teimosa importância dos jornais em papel. Desvalorizam as redes sociais e desconsideram os sites por serem passíveis de edição permanente. Usam mudanças feitas há duas décadas como metáforas de inovação sem perceber que há muito deixaram de o ser.

Pelo contrário, os estudantes notam frequentemente a falta de debate desta temática, em especial no que toca ao jornalismo de imprensa. 

O que temos todos noção é que o jornal impresso vai mesmo acabar e o futuro é no digital. É tudo muito mais rápido sabes? (...) É com base na tecnologia que temos de ver o futuro do jornalismo. Agora também acho que irá ser uma profissão de todos. Qualquer pessoa pode ter uma plataforma e informar. Com credibilidade é que já não sei...

Fátima Santos, estudante de mestrado em jornalismo
 

É difícil mudar, mas a verdade é que se não houver mudanças vamos ser engolidos pela nossa própria teimosia. O modelo de negócio actual dos OCS  não é sustentável a longo prazo, mas é um problema que vai sendo varrido para debaixo do tapete, muitas vezes a custo da ética profissional. As pessoas não consomem informação da mesma forma, nem tampouco ficam sujeitas ao que lhes queremos dar. Os jornalistas recusam-se a aceitar isso, negando ao seu público as mudanças que eles já próprios já incorporaram no quotidiano. 

 
“Technological evolution moves faster than journalism can”
 
É por todas estas razões que já há quem procure respostas para o futuro, considerando que os jornalistas devem abrir os braços à mudança, ao invés de ter combatê-la. 
 
É o caso de Francesco Marconi, professor de jornalismo na Columbia University, que em abril deste ano publicou o livro Newsmakers, Artificial Intelligence and the Future of Journalism, uma obra que tem de tanto de perturbador como de plausível.
 
A tese do autor é que, embora a inteligência artificial não possa substituir os jornalistas, deve ser colocada ao seu serviço, nomeadamente nas tarefas mais morosas e monotónas. A lógica é, no fundo, a mesma do telefone no passado: tal como este permitiu que os jornalistas evitassem algumas deslocações, também os algoritmos podem permitir automatizar a transcrição de gravações áudio, detetar novas notícias nas redes sociais, analisar o surgimento de assuntos de interesse público, processar dados exaustivos ou até redigir textos de forma automática. Em suma: poupar tempo e dores de cabeça.
 

The internet disrupted the media industry only when the least likely users finally adopted it. With a critical mass of online consumers, news organizations were forced to introduce new digital production practices and update their business models. While some organizations succeeded in their digital transformation efforts and the reskilling of their staff, others continued to experience eroding revenues - due to an ability to quickly adjust to audience needs as well as to increased competition. 
Artificial intelligence is no different (...).

Francesco Marconi, Newsmakers, Artificial Intelligence and the Future of Journalism (2020), Columbia University Press

A ideia de Francesco Marconi não é a de que os algoritmos vão substituir os seres humanos, mas antes que estes podem servir para "enaltecer" as suas capacidades, que não são exploradas a fundo devido a sobrecargas de trabalho. Se os jornalistas fossem dispensados de escrever notícias de trânsito, por exemplo, teriam mais tempo para se dedicarem a investigações profundas.

Se isto é tão perfeito quando parece? Não creio...

Superficialmente a ideia não é má mas todos somos capazes de perceber a possibilidade de perversão do sistema. Já hoje os algoritmos das redes sociais têm perigosos efeitos secundários, devido à incapacidade de analisar fora dos padrões para que foram desenhados. Devemos a isto a desinformação crescente dos dias que correm, assente na aparentemente inocente personalização de conteúdos.

São dilemas difíceis de resolver mas que têm de ser realmente encarados como possibilidades a desenvolver. A inércia não está claramente a resultar.

O nosso negacionismo está a ameaçar a subsistência da profissão. Teimamos em proteger o cânone, quando o que precisamos é mesmo de evoluir. E de forma urgente...

Pode a estupidez ser censurada?

Mais um dia de quarentena, mais uma manhã de notícias frescas e absurdas.

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Cartoon: Vasco Gargalo

 

Hoje ao acordar e após dar uma olhada pelas últimas novidades no mundo, vejo mais uma grande demonstração de estupidez por parte do Presidente dos Estados Unidos da América. Após um estudo confirmar que substâncias desinfetantes como cloro e o álcool eliminam o novo coronavírus da saliva e gotículas, Donald Trump sugeriu que talvez fosse possível testar uma forma de injetar estes produtos em seres humanos. Referiu também a possibilidade de investigar se poderia ser colocada luz UV dentro do corpo para combater o vírus, pois - segundo os dados apresentados na conferência de imprensa estatal - as radições UV enfraquecem o vírus. Parece inventado mas não é (podem confirmar aqui).

As reacções a estas declarações multiplicaram-se como cogumelos, com inúmeros especialistas e entidades a alertar para o facto de que estas práticas podem ser fatais. Perante a indignação generalizada, Robert Reich, ex-secretário do Trabalho do presidente Bill Clinton, apelou no Twitter para um "bicote à propaganda".

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Percebo a intenção, mas isto levanta questões que não são fáceis de responder: devem os jornalistas abster-se de noticiar este tipo de declarações estatais, por saberem que colocam em causa as recomendações relativas à saúde? Podem eles negar-se a estar presentes nestas conferências de imprensa, e recusar-se a divulgar ao público tamanho absurdo? A resposta imediata pode parecer sim, mas de facto a liberdade de expressão é uma coisa complicada.

Falei então com um antigo professor sobre esta questão existencial, de forma a perceber bem qual a posição de alguém mais experiente. Este professor, chamado Walter Dean, além de ter sido jornalista na imprensa local e nacional americana durante largos anos, é hoje investigador de temáticas relacionadas com jornalismo, já formou inúmeros profissionais de renome e integra consórcios do ramo. Além de tudo isto é um cidadão americano informado e consciente.

Perguntei-lhe o que ele acha acerca de um eventual boicote às conferências de imprensa de Trump por parte dos jornalistas e ele respondeu-me que isso não é algo que se recomende, pois as pessoas devem ter informação acerca do que ele transmite, mesmo que não seja verdade. Apesar disso, e em alternativa, é possível evitar transmitir as declarações dele em direto, e apenas veicular a informação após ser tratada. Parece-me uma boa solução, pois este método já permite incluir informação de especialistas, e contrapô-la à especulação estapafúrdia do presidente. 

Readers don't need protection. They need verified information.

...disse Walter Dean, e é absolutamente verdade. Se um jornalista decide não noticiar algo que considera errado está já a tecer um juízo prévio, impedindo os seus leitores de o fazer por eles próprios. Por isso é tão importante que todos os cidadãos tenham espírito crítico.

...And the reason readers don't need protection is that they must make decisions about their government, community and, in this case, their own safety. One does not serve decision makers by withholding information that may be scary or unpleasant.

Essa é a base da liberdade de informação, de expressão e da democracia e não pode ser posta em causa. O que me inquieta é que a liberdade acarreta responsabilidade, e infelizmente acho que muita gente não pensa desta forma atualmente. Há muita desinformação e muitas pessoas a acreditar nas balelas destes líderes que nada sabem. É isto que enfraquece a democracia: a incapacidade dos cidadãos de analisarem a informação e de tomar decisões com base em evidências. 

Em última instância, a falta de responsabilidade cívica (que resulta de uma escolha individual) inviabiliza a política democrática. A liberdade só existe se todos a defendermos, caso contrário seremos vítimas da nossa própria falta de visão e limitação de pensamento (ou, numa palavra, da ignorância).

Como solucionar isto e respeitar o livre-arbítrio?... aceito sugestões nos comentários :)

 

 

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Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

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