Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

IN.SO.LEN.TE

Eduardo Lourenço e o transcendente

É de certa forma macabro mas o poder da morte dos grandes é muitas vezes o de relembrar o quanto somos pequenos.

Sinto sempre isso de cada vez que assisto a uma retrospetiva obituária de grandes feitos. É verdade que aprendo sempre imenso mas ao mesmo tempo fico com a sensação de que nunca lá chegarei. Não em anos - que isso não sei - mas em alcances.

Após ver a entrevista de Fátima Campos Ferreira a Eduardo Lourenço senti-me criança outra vez. Não há como não gostar. À parte das perguntas - que por vezes achei desnecessárias - a clareza das respostas era de facto esplêndida. A forma esclarecida e profundamente conhecedora como o ensaísta descrevia o mundo era qualquer coisa de transcendental. Desarma-nos completamente.

32976_40102_12138.jpg

 

Passado, presente e futuro reúnem-se no discurso, sem nunca se confundirem, mas apenas para se complementarem. A riqueza de pensamento contrasta profundamente com a clareza e despretensão das suas palavras. É fantástico porque é algo extremamente raro! Poucos conseguem fazer prova de saber sem complicar o discurso. Só quem domina o conhecimento consegue simplificá-lo de forma a parecer "descomplexo". É por isso que Eduardo Lourenço é fascinante. Tudo parece simples sem o ser em momento algum.

"Sempre tive uma grande inaptidão para a realidade, para o real. Sou um pouco cego."

Eduardo Lourenço

Isto levar-me a pensar se no futuro vamos ter intelectos deste nível. Temos conhecimento, sim. Tecnologia, sem dúvida. Mas haverá sabedoria no sentido clássico do termo? Num tempo que se vive cada vez mais acelerado poderá prevalecer esta capacidade de distanciamento? De análise profunda? De apreciação? Haverá tempo para contemplar quando a leitura linear é cada vez mais difícil?

A verdade é que a importância histórica dos pensadores parece ser inversamente proporcional ao avanço do tempo. 

Não me parece possível sequer alcançar aqueles que estão gravados na memória coletiva analógica. O misticismo já não se forma no efémero mundo digital...

Adeus Eduardo Lourenço

Discuti com um perfil falso

Já não é novidade o facto de que o único partido de extrema-direita com representação parlamentar em Portugal se serve de perfis falsos para espalhar desinformação. A técnica não é nova e é comum a outros populistas que, não conseguindo crescer honestamente de acordo com as suas ambições, falsificam popularidade, servindo-se das redes sociais para fingir números e fomentar discórdia. É uma técnica eficaz e barata de conseguir contaminar a opinião pública, usando os tentáculos do extremismo para injetar indignação.

Não o planeava mas tive, recentemente, um contacto direto com um destes perfis falsos.

1_NTo73SNEYIvZWf7qTg3keQ.jpeg

A história remonta há cerca de uma semana atrás, quando o jornal Público anunciou que iria alterar a sua política de comentários no site. O diário explicava que iria passar a implementar "um limite diário de dois comentários submetidos por leitores não-assinantes" e "um limite diário de três acções de moderação (rejeição e aprovação de comentários) aos moderadores não-assinantes". Isto porque o Público tinha já implementado um sistema de moderação de comentários baseado na comunidade, que se revelou insuficiente. Neste sistema os utilizadores eram classificados de acordo com o número e qualidade de interações efetuadas no site, sendo distribuídos em níveis que lhes concediam - nos patamares mais altos - a possibilidade de moderar comentários de outrem.

Apesar do contributo positivo da maioria dos nossos leitores, o modelo de automoderação da comunidade deixou de garantir por si só a qualidade dos comentários publicados e tornou-se fonte diária de conflito, degradando a experiência de leitura do PÚBLICO e obrigando à intervenção permanente da redacção.

Público

 

Pessoalmente compreendo e aceito a mudança, razão pela qual tive a (comprovadamente infeliz) ideia de expressar a minha opinião na caixa de comentários do Facebook desta notícia. Fi-lo pois verifiquei a estupidez generalizada de pessoas que compararam esta ação a um ato de censura, fazendo absurdas alusões à Coreia do Norte, ao "lápis azul", ao Estado Novo, etc. Não consegui conter-me e comentei apenas que:

xxxxx.jpg

Sei que hoje é impossível concordar com o que quer que seja sem se ser apelidado de ingénuo ou burro, mas mesmo assim insisti. Estava pronta para lidar com os céticos de profissão que se acham donos das certezas.

Não tardou a que recebesse respostas a indicar a mesmíssima bazófia já descrita anteriormente, demonstrando que estes "comentadores" não fazem ideia do que é a Coreia do Norte nem a censura. 

Já me tinha decidido a ignorar a ignorância quando um tal de "Miguel Alves" decide também implicar com as minhas opiniões. Achei então que talvez valesse a pena perder tempo, e escrutinar porque motivo a limitação de comentários era para ele algo tão alarmante:

ffffff.jpg

Escusado será dizer que as respostas que obtive foram nada mais que vazias:

119815422_772376693331942_1988562591877493815_n.pn

Porque motivo perdi o meu tempo e esforço a relatar esta lamentável tentativa de elucidação? Pelo motivo que se segue:

119815422_772376693331942_1988562591877493815_n.jp

As minhas suspeitas confirmaram-se. "Miguel Alves" tinha uma imagem genérica retirada de um filme como foto de perfil e outra igualmente impessoal na capa. Não tinha qualquer tipo de registo de atividade ou partilha. Nos interesses existiam apenas gostos em páginas de jornais, na página da Direção-Geral de Saúde e, sim, no perfil do Chega. 

"Miguel" era um perfil falso e sei-o pois, se forem hoje mesmo ao seu perfil (aqui), vão verificar que o mesmo não existe, que foi apagado após a minha denúncia, e que agora, naquela caixa de comentários (que podem ver aqui) surjo apenas eu, a falar para alguém que não existe, pois tudo foi eliminado.

Independentemente da relevância da notícia em causa ou sequer do tema acredito na importância da partilha desta história. No meu caso bastou fazer a pesquisa da sua imagem de perfil no Google Images para confirmar imediatamente que se tratava de um excerto de um filme. Além disso a falta de atividade e as páginas de que gosta são um sinal claro: neste caso só interagia com orgãos de comunicação social, com a DGES, e com o partido Chega.Não foi, por isso, difícil perceber que era um perfil falso, mas há casos em que pode tornar-se mais complexa essa identificação.

Não podemos deixar que façam de nós parvos.Estar atento e informado é melhor arma contra os extremismos. :)

 

Meio ano de pandemia e uma vida de precariedade

Olhar para trás após seis meses de pandemia é ver tentar o passado recente com binóculos de longo alcance.

Como sempre acontece no âmbito do nostálgico, vemos os tempos A.C. (Antes do Covid) em tons de sépia reconfortante, relembrando uma era em que tudo era mais simples. Temos a sensação de que "éramos tão felizes" apenas porque tínhamos a liberdade de ir onde quiséssemos, quando quiséssemos, sem estar preocupados em apanhar uma doença contagiosa com um aperto de mão. Mas se calhar não era tudo assim tão bom...

Muitas das mudanças sociais, políticas, económicas (...) a que assistimos no último semestre não são fruto do vírus, mas do medo que temos dele. Na realidade há, pelo menos, mais de duzentos vírus capazes de desencadear doenças em humanos, mas seria o SARS-COV-2 que faria correr mais tinta em papel de jornal e ficaria na história como a doença que obrigou o mundo globalizado a barricar-se em casa.

Não procuro aqui desvalorizar os efeitos e sintomas do novo coronavírus - que são obviamente preocupantes - mas apenas destacar o facto de que o nosso contexto e, consequentemente, a percepção que temos do mundo contemporâneo, são decisivos na forma como somos afetados pela dificuldade imposta pelo coronavírus. João Miguel Tavares teve (e tem) razão quando afirmou  - em março longínquo - que "a quarentena é um privilégio burguês". Isto é a mais dura verdade não só porque o isolamento pressupõe claramente a existência de uma habitação condigna, como também o teletrabalho só é possível para quem tem a profissão à distância de computador com internet (uma minoria, portanto).

A covid-19 e as medidas de contingência a que obriga levam-nos a pensar que fomos encurralados de um dia para o outro, que todos os nossos planos foram interrompidos, que sofremos uma fatalidade inesperada, mas o facto é as dificuldades que cada um enfrenta hoje são o reflexo das fragilidades que já existiam. O mundo mudou, é verdade, mas não mudou assim tanto. O que aconteceu foi que os problemas são agora mais visíveis a olho nu. 

corda.jpg

Foto: Roman Tarasevych/shutterstock

Vem isto a propósito da precariedade e do aumento do desemprego jovem noticiado esta semana.

Este é um problema que existe há muito em Portugal, e, pessoalmente, é algo com que lido desde que me lembro. Se a pandemia fez aumentar o número de jovens desempregados é tão só porque estes não estavam numa situação laboral estável, o que está longe de ser uma novidade.

A precariedade e o desemprego jovem estão de tal forma enraizados no mercado de trabalho atual que muitos de nós - e quando digo "nós" falo de millennials - encaram um trabalho mal-pago sem vínculo permanente como uma vitória, se este se inserir minimanente na área para a qual estudámos. 

Tal como é referido nesta reportagem do Público (que veio a propósito do tema), nós, jovens licenciados, vivemos numa frustração constante que oscila entre a necessidade de experiência na área e o esgotamento do leque dos estágios com apoio estatal (quando o estágio profissional deixa de ser possível deixamos de ser uma escolha para os empregadores). Estamos constantemente no limbo entre o imperativo de especialização, e a necessidade de ser versátil. Além disso, quando o emprego qualificado não existe, passamos a aceitar o que quer que seja que dê sustento, nem que seja "até nos conseguirmos orientar". A partir daqui torna-se cada vez mais díficil. O trabalho supostamente temporário monipoliza o tempo e a esperança e só a teimosia nos leva a insistir no envio de CV's.

É triste que assim seja, mas infelizmente é a minha (nossa!) realidade. Nas salas da universidade somos todos a personificação do futuro promissor, mas cá fora somos só mais um igual a outros tantos.

Tendo isto em mente, só pode ser classificada de demagógica a forma como António Costa e Manuel Heitor exaltam o aumento histórico do número de candidatos ao ensino superior. Sou da opinião que o saber não ocupa lugar, e que o investimento na educação nunca é a fundo perdido, mas isso não é motivo para tentar iludir os cidadãos com números que omitem consequências, especialmente tendo em conta que:

-o aumento do número de candidatos foi pura e simplesmente fruto do facilitismo nos critérios de avaliação dos exames nacionais do secundário, que permitiram a muitos jovens aumentar as notas;

-não há vagas para todos (apesar de Manuel Heitor achar que resolve o problema com vagas dos alunos internacionais);

-mesmo que as vagas fossem suficientes, há alunos que nunca chegam a matricular-se por dificuldades económicas e outros que não terminam as suas formações pelo mesmo motivo (veja-se esta reportagem do Diário de Notícias, que revela o agravamento desta situação devido à pandemia) - ou seja, o aumento de candidatos, para se traduzir num aumento de diplomados, tem necessariamente de incluir um aumento dos apoios sociais.

É certo que não podemos apenas ver o lado negro, e precisamos de sinais de esperança que nos façam crer num futuro mais risonho, mas não desta forma. A precariedade é um problema crónico que vai agravar-se com a pandemia. Acenar aos cidadãos com números crescentes de ilusões a prazo é apenas hipocrisia.

Mais visitados

Pensamento do dia

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

Redes Sociais

Mensagens

E livros?

Em destaque no SAPO Blogs
pub