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IN.SO.LEN.TE

O jornalismo como o conhecemos tem de acabar(?)

Fico sempre na dúvida se quem não é desta área compreende mesmo o que é o jornalismo.

Muitas vezes me parece que as críticas exteriores ignoram o sentido cívico que é assumido por quem tem esta profissão, o que pode tornar-se desanimador. Para um jornalista, a procura pela verdade é a razão suprema da sua existência. O dever maior é de proteger a democracia, em nome do bem dos restantes cidadãos. A profissão é encarada por nós, jornalistas, como um chamamento, e tudo queremos fazer para a proteger de interesses malévolos (isto claro, segundo o que diz naqueles livros empoeirados que há anos estão confinados a uma qualquer prateleira inanimada).

A questão é até que ponto esta visão paternalista continua a fazer sentido, em especial para os nossos tão protegidos cidadãos. Existe um grande fosso entre o jornalismo e as vontades da sociedade atual, e isso nota-se cada vez mais por via da descredibilização a que estamos sujeitos. 

 

polaris06144711.jpgFoto: Virginia Irwin (1939), retirado de  Smithsonianmag.com

Falei informalmente sobre este tema com o jornalista Paulo Querido, que há dias escreveu um artigo que me perturbou bastante. O título era  "O destino do jornalismo tornou-se-me indiferente" e vinha contrariar a mítica ideia que "o jornalismo é sacerdócio" (na medida em que (supostamente) nunca se abandona totalmente). Paulo Querido afirma que a profissão como a conhecemos deixou de fazer sentido, pelo que há necessariamente mudanças que têm de acontecer:

[Os órgãos de comunicação social] estão a passar uma onda transformadora muito forte. Creio que a maioria pura e simplesmente desaparecerá no período de 5 a 10 anos. Os que ficarem provavelmente serão irreconhecíveis aos padrões de hoje. Serão mais plataformas, acoplarão outras profissões e distribuirão os seus conteúdos por mais canais.
 
Não sei se o termo "jornalista" subsistirá como dominante nos meios de comunicação dentro de 10 anos. Provavelmente não. As suas funções serão desempenhadas por pessoas diferentes, com vantagens. Um jornalista é um profissional pouco ou nada preparado para o mundo de comunicação que temos hoje e teremos amanhã.
 
Na melhor das hipóteses, a profissão será capaz de absorver novas técnicas e seus profissionais — como sucedeu no século XX, com a incorporação dos radialistas, dos fotógrafos, dos operadores de câmara e, já dentro da minha vida profissional, dos infografistas. 
 
Mas duvido. Enquanto ao longo do século XX os saltos foram espaçados no tempo e não colocaram em causa o essencial dos media — um grupo com o monopólio da distribuição de informação em massa —, o presente salto coloca em causa não apenas isso como muito mais coisas.
 Paulo Querido 

Poucos são os jornalistas que ousam admitir isto.

Sei-o não apenas com base na minha própria negação, mas também na dos jornalistas veteranos com quem contactei. Continuam presos ao passado e à teimosa importância dos jornais em papel. Desvalorizam as redes sociais e desconsideram os sites por serem passíveis de edição permanente. Usam mudanças feitas há duas décadas como metáforas de inovação sem perceber que há muito deixaram de o ser.

Pelo contrário, os estudantes notam frequentemente a falta de debate desta temática, em especial no que toca ao jornalismo de imprensa. 

O que temos todos noção é que o jornal impresso vai mesmo acabar e o futuro é no digital. É tudo muito mais rápido sabes? (...) É com base na tecnologia que temos de ver o futuro do jornalismo. Agora também acho que irá ser uma profissão de todos. Qualquer pessoa pode ter uma plataforma e informar. Com credibilidade é que já não sei...

Fátima Santos, estudante de mestrado em jornalismo
 

É difícil mudar, mas a verdade é que se não houver mudanças vamos ser engolidos pela nossa própria teimosia. O modelo de negócio actual dos OCS  não é sustentável a longo prazo, mas é um problema que vai sendo varrido para debaixo do tapete, muitas vezes a custo da ética profissional. As pessoas não consomem informação da mesma forma, nem tampouco ficam sujeitas ao que lhes queremos dar. Os jornalistas recusam-se a aceitar isso, negando ao seu público as mudanças que eles já próprios já incorporaram no quotidiano. 

 
“Technological evolution moves faster than journalism can”
 
É por todas estas razões que já há quem procure respostas para o futuro, considerando que os jornalistas devem abrir os braços à mudança, ao invés de ter combatê-la. 
 
É o caso de Francesco Marconi, professor de jornalismo na Columbia University, que em abril deste ano publicou o livro Newsmakers, Artificial Intelligence and the Future of Journalism, uma obra que tem de tanto de perturbador como de plausível.
 
A tese do autor é que, embora a inteligência artificial não possa substituir os jornalistas, deve ser colocada ao seu serviço, nomeadamente nas tarefas mais morosas e monotónas. A lógica é, no fundo, a mesma do telefone no passado: tal como este permitiu que os jornalistas evitassem algumas deslocações, também os algoritmos podem permitir automatizar a transcrição de gravações áudio, detetar novas notícias nas redes sociais, analisar o surgimento de assuntos de interesse público, processar dados exaustivos ou até redigir textos de forma automática. Em suma: poupar tempo e dores de cabeça.
 

The internet disrupted the media industry only when the least likely users finally adopted it. With a critical mass of online consumers, news organizations were forced to introduce new digital production practices and update their business models. While some organizations succeeded in their digital transformation efforts and the reskilling of their staff, others continued to experience eroding revenues - due to an ability to quickly adjust to audience needs as well as to increased competition. 
Artificial intelligence is no different (...).

Francesco Marconi, Newsmakers, Artificial Intelligence and the Future of Journalism (2020), Columbia University Press

A ideia de Francesco Marconi não é a de que os algoritmos vão substituir os seres humanos, mas antes que estes podem servir para "enaltecer" as suas capacidades, que não são exploradas a fundo devido a sobrecargas de trabalho. Se os jornalistas fossem dispensados de escrever notícias de trânsito, por exemplo, teriam mais tempo para se dedicarem a investigações profundas.

Se isto é tão perfeito quando parece? Não creio...

Superficialmente a ideia não é má mas todos somos capazes de perceber a possibilidade de perversão do sistema. Já hoje os algoritmos das redes sociais têm perigosos efeitos secundários, devido à incapacidade de analisar fora dos padrões para que foram desenhados. Devemos a isto a desinformação crescente dos dias que correm, assente na aparentemente inocente personalização de conteúdos.

São dilemas difíceis de resolver mas que têm de ser realmente encarados como possibilidades a desenvolver. A inércia não está claramente a resultar.

O nosso negacionismo está a ameaçar a subsistência da profissão. Teimamos em proteger o cânone, quando o que precisamos é mesmo de evoluir. E de forma urgente...

Discuti com um perfil falso

Já não é novidade o facto de que o único partido de extrema-direita com representação parlamentar em Portugal se serve de perfis falsos para espalhar desinformação. A técnica não é nova e é comum a outros populistas que, não conseguindo crescer honestamente de acordo com as suas ambições, falsificam popularidade, servindo-se das redes sociais para fingir números e fomentar discórdia. É uma técnica eficaz e barata de conseguir contaminar a opinião pública, usando os tentáculos do extremismo para injetar indignação.

Não o planeava mas tive, recentemente, um contacto direto com um destes perfis falsos.

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A história remonta há cerca de uma semana atrás, quando o jornal Público anunciou que iria alterar a sua política de comentários no site. O diário explicava que iria passar a implementar "um limite diário de dois comentários submetidos por leitores não-assinantes" e "um limite diário de três acções de moderação (rejeição e aprovação de comentários) aos moderadores não-assinantes". Isto porque o Público tinha já implementado um sistema de moderação de comentários baseado na comunidade, que se revelou insuficiente. Neste sistema os utilizadores eram classificados de acordo com o número e qualidade de interações efetuadas no site, sendo distribuídos em níveis que lhes concediam - nos patamares mais altos - a possibilidade de moderar comentários de outrem.

Apesar do contributo positivo da maioria dos nossos leitores, o modelo de automoderação da comunidade deixou de garantir por si só a qualidade dos comentários publicados e tornou-se fonte diária de conflito, degradando a experiência de leitura do PÚBLICO e obrigando à intervenção permanente da redacção.

Público

 

Pessoalmente compreendo e aceito a mudança, razão pela qual tive a (comprovadamente infeliz) ideia de expressar a minha opinião na caixa de comentários do Facebook desta notícia. Fi-lo pois verifiquei a estupidez generalizada de pessoas que compararam esta ação a um ato de censura, fazendo absurdas alusões à Coreia do Norte, ao "lápis azul", ao Estado Novo, etc. Não consegui conter-me e comentei apenas que:

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Sei que hoje é impossível concordar com o que quer que seja sem se ser apelidado de ingénuo ou burro, mas mesmo assim insisti. Estava pronta para lidar com os céticos de profissão que se acham donos das certezas.

Não tardou a que recebesse respostas a indicar a mesmíssima bazófia já descrita anteriormente, demonstrando que estes "comentadores" não fazem ideia do que é a Coreia do Norte nem a censura. 

Já me tinha decidido a ignorar a ignorância quando um tal de "Miguel Alves" decide também implicar com as minhas opiniões. Achei então que talvez valesse a pena perder tempo, e escrutinar porque motivo a limitação de comentários era para ele algo tão alarmante:

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Escusado será dizer que as respostas que obtive foram nada mais que vazias:

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Porque motivo perdi o meu tempo e esforço a relatar esta lamentável tentativa de elucidação? Pelo motivo que se segue:

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As minhas suspeitas confirmaram-se. "Miguel Alves" tinha uma imagem genérica retirada de um filme como foto de perfil e outra igualmente impessoal na capa. Não tinha qualquer tipo de registo de atividade ou partilha. Nos interesses existiam apenas gostos em páginas de jornais, na página da Direção-Geral de Saúde e, sim, no perfil do Chega. 

"Miguel" era um perfil falso e sei-o pois, se forem hoje mesmo ao seu perfil (aqui), vão verificar que o mesmo não existe, que foi apagado após a minha denúncia, e que agora, naquela caixa de comentários (que podem ver aqui) surjo apenas eu, a falar para alguém que não existe, pois tudo foi eliminado.

Independentemente da relevância da notícia em causa ou sequer do tema acredito na importância da partilha desta história. No meu caso bastou fazer a pesquisa da sua imagem de perfil no Google Images para confirmar imediatamente que se tratava de um excerto de um filme. Além disso a falta de atividade e as páginas de que gosta são um sinal claro: neste caso só interagia com orgãos de comunicação social, com a DGES, e com o partido Chega.Não foi, por isso, difícil perceber que era um perfil falso, mas há casos em que pode tornar-se mais complexa essa identificação.

Não podemos deixar que façam de nós parvos.Estar atento e informado é melhor arma contra os extremismos. :)

 

Meio ano de pandemia e uma vida de precariedade

Olhar para trás após seis meses de pandemia é ver tentar o passado recente com binóculos de longo alcance.

Como sempre acontece no âmbito do nostálgico, vemos os tempos A.C. (Antes do Covid) em tons de sépia reconfortante, relembrando uma era em que tudo era mais simples. Temos a sensação de que "éramos tão felizes" apenas porque tínhamos a liberdade de ir onde quiséssemos, quando quiséssemos, sem estar preocupados em apanhar uma doença contagiosa com um aperto de mão. Mas se calhar não era tudo assim tão bom...

Muitas das mudanças sociais, políticas, económicas (...) a que assistimos no último semestre não são fruto do vírus, mas do medo que temos dele. Na realidade há, pelo menos, mais de duzentos vírus capazes de desencadear doenças em humanos, mas seria o SARS-COV-2 que faria correr mais tinta em papel de jornal e ficaria na história como a doença que obrigou o mundo globalizado a barricar-se em casa.

Não procuro aqui desvalorizar os efeitos e sintomas do novo coronavírus - que são obviamente preocupantes - mas apenas destacar o facto de que o nosso contexto e, consequentemente, a percepção que temos do mundo contemporâneo, são decisivos na forma como somos afetados pela dificuldade imposta pelo coronavírus. João Miguel Tavares teve (e tem) razão quando afirmou  - em março longínquo - que "a quarentena é um privilégio burguês". Isto é a mais dura verdade não só porque o isolamento pressupõe claramente a existência de uma habitação condigna, como também o teletrabalho só é possível para quem tem a profissão à distância de computador com internet (uma minoria, portanto).

A covid-19 e as medidas de contingência a que obriga levam-nos a pensar que fomos encurralados de um dia para o outro, que todos os nossos planos foram interrompidos, que sofremos uma fatalidade inesperada, mas o facto é as dificuldades que cada um enfrenta hoje são o reflexo das fragilidades que já existiam. O mundo mudou, é verdade, mas não mudou assim tanto. O que aconteceu foi que os problemas são agora mais visíveis a olho nu. 

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Foto: Roman Tarasevych/shutterstock

Vem isto a propósito da precariedade e do aumento do desemprego jovem noticiado esta semana.

Este é um problema que existe há muito em Portugal, e, pessoalmente, é algo com que lido desde que me lembro. Se a pandemia fez aumentar o número de jovens desempregados é tão só porque estes não estavam numa situação laboral estável, o que está longe de ser uma novidade.

A precariedade e o desemprego jovem estão de tal forma enraizados no mercado de trabalho atual que muitos de nós - e quando digo "nós" falo de millennials - encaram um trabalho mal-pago sem vínculo permanente como uma vitória, se este se inserir minimanente na área para a qual estudámos. 

Tal como é referido nesta reportagem do Público (que veio a propósito do tema), nós, jovens licenciados, vivemos numa frustração constante que oscila entre a necessidade de experiência na área e o esgotamento do leque dos estágios com apoio estatal (quando o estágio profissional deixa de ser possível deixamos de ser uma escolha para os empregadores). Estamos constantemente no limbo entre o imperativo de especialização, e a necessidade de ser versátil. Além disso, quando o emprego qualificado não existe, passamos a aceitar o que quer que seja que dê sustento, nem que seja "até nos conseguirmos orientar". A partir daqui torna-se cada vez mais díficil. O trabalho supostamente temporário monipoliza o tempo e a esperança e só a teimosia nos leva a insistir no envio de CV's.

É triste que assim seja, mas infelizmente é a minha (nossa!) realidade. Nas salas da universidade somos todos a personificação do futuro promissor, mas cá fora somos só mais um igual a outros tantos.

Tendo isto em mente, só pode ser classificada de demagógica a forma como António Costa e Manuel Heitor exaltam o aumento histórico do número de candidatos ao ensino superior. Sou da opinião que o saber não ocupa lugar, e que o investimento na educação nunca é a fundo perdido, mas isso não é motivo para tentar iludir os cidadãos com números que omitem consequências, especialmente tendo em conta que:

-o aumento do número de candidatos foi pura e simplesmente fruto do facilitismo nos critérios de avaliação dos exames nacionais do secundário, que permitiram a muitos jovens aumentar as notas;

-não há vagas para todos (apesar de Manuel Heitor achar que resolve o problema com vagas dos alunos internacionais);

-mesmo que as vagas fossem suficientes, há alunos que nunca chegam a matricular-se por dificuldades económicas e outros que não terminam as suas formações pelo mesmo motivo (veja-se esta reportagem do Diário de Notícias, que revela o agravamento desta situação devido à pandemia) - ou seja, o aumento de candidatos, para se traduzir num aumento de diplomados, tem necessariamente de incluir um aumento dos apoios sociais.

É certo que não podemos apenas ver o lado negro, e precisamos de sinais de esperança que nos façam crer num futuro mais risonho, mas não desta forma. A precariedade é um problema crónico que vai agravar-se com a pandemia. Acenar aos cidadãos com números crescentes de ilusões a prazo é apenas hipocrisia.

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Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

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