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IN.SO.LEN.TE

Verdades oficiais e neutralidades absolutas – com Irene Flunser Pimentel

Dizem que a História se repete. Que, de uma forma ou de outra, os acontecimentos sucedem-se de maneira mais ou menos semelhante, alternando entre progresso e declínio, prosperidade e recessão, guerra e paz. Dadas as particularidades do momento presente, como podemos então começar a pensar em classificar esta década?

Irá a pandemia dar lugar a um entusiasmo frenético, como aconteceu na década de 20 do século passado? Ou vamos antes afundar a motivação nos efeitos da crise que ainda está para vir? Irá esta falta de contacto físico vai afetar ainda mais a crescente polarização social? Irá a nossa sociedade fragmentar-se cada vez mais?

Não sendo possível prever o futuro, falei com a historiadora Irene Flunser Pimentel sobre estas e outras questões, numa conversa que podia alargar-se ao infinito. Afinal a compreensão do passado, pode sempre dar algumas pistas para o futuro, mais que não seja para nos fornecer uma antevisão das consequências de repetir os mesmo erros.

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Foto: Global Imagens

Uma das coisas que se torna inevitável questionar é como será o mundo pós-pandémico, e de que forma podemos compará-lo com o que aconteceu no século XX, em particular no que aos extremismos diz respeito.

“O ser humano tem determinadas componentes na sua essência que se repetem, como por exemplo o egoísmo. Há momentos mais altruístas e outros mais egoístas. Há momentos em que se luta pela liberdade de todos e há outros em que se quer a liberdade própria e eliminar a liberdade dos outros ou inclusive colocar os outros fora da nossa comunidade ou da nossa sociedade. E o que me parece haver neste momento, também devido a anos de individualismo - e o liberalismo económico acho que tem também alguma responsabilidade – é que os valores da solidariedade e aqueles da Revolução Francesa de 'Liberdade, Igualdade, Fraternidade'... os dois últimos estão um bocadinho fragilizados.”

Irene Flunser Pimentel

Será então que o facto de vivermos agora mais isolados uns dos outros vai agravar esse egoísmo? Vamos pensar mais em nós próprios?

 

“Repare, esta pandemia tem uma característica terrível, como as outras tiveram, como a pneumónica,  a peste na Idade Média [teve] etc. Que é o quê: o perigo é o outro. Ou seja o perigo é aquele que está já contaminado e que não pode contaminar ou contagiar. E esta coisa de nós ficarmos entre nós... a própria ideia de confinamento, da máscara, tudo isso é um bocadinho para nos isolarmos relativamente ao exterior porque do exterior pode vir o perigo, pode vir o contágio.”

“Mesmo os nossos estados mais democratas evidentemente que têm que limitar determinadas liberdades, como a liberdade de circulação. E isso tudo também provoca um perigo de autoritarismo.”

 

“Portanto nós estamos numa espécie de um período muito complicado porque o que se está a passar é uma tragédia (e devemos dizer o nome). Não vou comparar com guerra, porque a guerra é uma tragédia [mas] é uma coisa um bocado diferente. Isto é uma tragédia e é uma tragédia que tem repercussões sobre a vida e a morte sobretudo dos mais velhos, [tem repercussões] sanitárias e vai ter sociais e económicas gravíssimas, como o desemprego e tudo o resto.”


A historiadora referiu-me como o facto de estarmos ainda em modo suspenso não deixa antever as consequências. As nossas vidas estão como que paradas, a aguardar que a tempestade acalme. Apesar disso as lições da História são alarmantes o suficiente para nos deixar preocupados. No passado situações de crise originaram descontentamentos, estes conduziram a revoltas, e essas revoltas a extremismos que se consolidaram no poder sob a forma de ditaduras.

“E repare que nós estamos a seguir exatamente o modelo norte-americano do Trump das fake news e da desinformação, que é uma situação em que algumas pessoas já nem sabem o que é que é verdade e o que é que é mentira. Tudo se equivale. Isto por exemplo na minha geração [que viveu a ditadura do Estado Novo] esse aspeto, não existia e agora existe e é transportado pelas redes sociais e é transportado até pela própria comunicação social”

A verdade, passa assim a ser arbitrária, condizente com as crenças que cada um já possui. Por isso a historiadora afirma que passa a existir uma "dicotomia".

“Isto radicaliza-se e às tantas assume um aspeto em que já nem há a possibilidade de discutir o que quer que seja. É terrível.”

Um dos exemplos desta impossível conciliação de visões foi o caso recente de Marcelino da Mata, que voltou a pôr o dedo na ferida aberta que ainda é a Guerra Colonial. Irene Flunser Pimentel considera importante falar sobre esta questão, sobre aquilo que diz ser "o nosso grande tabu". O problema está em como discutir o que quer seja se as visões do mundo estão a polarizar-se de forma tão aguerrida...

“Nós estamos a ficar uma sociedade um bocadinho parecida com o Brasil e os Estados Unidos. Uma sociedade muito intolerante relativamente aos outros e às opiniões dos outros.”

É talvez por isso que continuam a surgir discussões tão opostas que tornam impossível qualquer tipo de conciliação. Veja-se a polémica em torno dos monumentos nacionais, que continua manter na agenda a alegada necessidade de remover ou derrubar elementos que há tanto tempo ocupam o nosso espaço público. O exemplo mais recente (embora haja muitos outros) é o Padrão dos Descobrimentos. Ascenso Simões, deputado do PS, chamou-lhe “mamarracho” e disse que “num país respeitável, deveria ter sido destruído”.

“De repente há duas grandes forças: uma que quer a destruição e outra que admite que “estão aqui a quererem eliminar a nossa arte e o nosso património”. E depois há pessoas como eu por exemplo [risos] que acho que não deve ser nada derrubado e destruído. Agora deve ser é contextualizado na época em que foi construído, [ver] como movimento o que é que representou.”

 

“[Veja-se] a Ponte 25 de Abril. É a coisa mais típica: era Ponte Salazar, e não se foi destruir a ponte porque era "Salazar". Fez-se muito melhor que é utilizar a ponte e chamar-lhe outro nome.”

“Nesses períodos revolucionários há muito isso, até porque se quer eliminar [o passado] e faz todo o sentido remover os símbolos do antigo regime. Mas nós não estamos num período desses. E depois, quem é que decide? Quem é que tem o direito de decidir se se destroi, vandaliza-se, ergue-se...?

Irene Flunser Pimentel explicou-me que há vários exemplos de monumentos que, não sendo derrubados foram adaptados, recolocados ou contextualizados, de forma que, mesmo não sendo representativos dos valores atuais, nos relembram do longo caminho que foi feito para os conquistar e implementar.

É que a verdade pura e dura é não conseguiremos nunca mudar a História, mas esta deve ser estudada e retratada da forma mais fiel possível, de forma a evitar a sua instrumentalização política. A chave está em ter a consciência que, apesar de tudo, nunca ninguém está livre de uma certa parcialidade.

“Nós vivemos em democracia e não queremos uma "verdade oficial.”

“Até podemos estar de acordo com essa verdade, tipo “o colonialismo é horrível”, a "Guerra Colonial foi terrível", mas não queremos que seja o Estado ou o Governo a impor isso, porque isso não é democrático.

“Eu digo sempre não que há neutralidade absoluta. É evidente que nós somos marcados por tudo o que vivemos agora. O que nós temos que fazer é saber isso.

"E eu por exemplo, quando comecei a estudar a PIDE, eu tinha uma ideia da PIDE que atacava toda a gente, que prendia toda a gente. E depois fui verificar que essa hipótese estava completamente errada. Portanto nós temos é que deixar um espaço intelectual aberto. Estarmos atentos aos nossos preconceitos e às nossas ideias feitas e tendermos para um máximo de neutralidade possível, porque não há neuturalidade absoluta.”

Irene Flunser Pimentel

Memória colonial: Marcelino da Mata e Mamadou Ba

A polémica em torno de Marcelino da Mata mostra bem as divisões que persistem em Portugal.

Por ter sido o militar mais condecorado do Exército o seu funeral teve direito à presença de ilustres, mas, por ter levado a cabo inúmeros assassínios durante a missão na Guiné, a sua memória não está livre de contorvérsia.

Durante a Guerra do Ultramar as pretensões colonialistas de Portugal foram honradas por este homem que, cumprindo ordens, levou a cabo a missão que lhe propunham. Essa missão envolvia a invasão de territórios, o bombardeamento de povoações e a aniquilação de quem se opusesse. Por isso mesmo as condecorações de que tanto se fala são prévias à Revolução dos Cravos, e foram entregues durante um regime ditatorial que tinha na censura um dos seus pilares. 

No entanto, à luz da nossa consciência atual, as suas ações são altamente censuráveis, precisamente porque condenamos o contexto que as motivou: o colonialismo.

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O piloto Miguel Pessoa ao ser resgatado pelos Vingadores, o grupo de operações especiais chefiado por Marcelino da Mata, (que na foto empunha uma catana).

Foto do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné

 

A própria vida de Marcelino da Mata reflete bem as diferenças de percepção adoptadas pelo país que ele escolheu defender: passou de militar condecorado a prisioneiro no PREC e acaba por morrer num contexto de aparente desvalorização. A notícia do seu falecimento passou virtualmente incólume e, note-se, só criou ruído quando os obituários geraram tantas críticas quanto elogios.


Neste momento, ainda não sabemos o que a Pátria, sempre ingrata, reservará à preservação da sua memória. Contudo, o seu nome e feitos há muito que fazem parte da História e da memória das nossas gentes.

José de Carvalho in Público

Veja-se a citação anterior, retirada de um artigo de opinião de José Carvalho no Público. Escolhi esta frase não por concordar com o mote do artigo (que exclama a glorificação do falecido militar) mas porque, talvez involuntariamente, reflete bem o que de facto de passa. Marcelino da Mata faz parte da nossa História, certo, mas a nossa concordância com essa mesma memória é o que influencia a corrente opinião sobre as suas ações. As diferentes interpretações do passado são, em última instância, o que dita as nossas posições no presente. Não consigo deixar de comparar esta polémica à da vandalização de estátuas, que aconteceu no ano passado. Também aí a razão da discórdia estava profundamente relacionada com a diferença de contextos e com a forma como esses contextos são encarados à luz da atualidade.

"É tempo de se falar sobre estas história de forma muito pragmática e analítica. O colonialismo foi algo hediondo e Marcelino da Mata é fruto disso e os comandos são fruto de um regime que massacrou pessoas durante mais de 500 anos".


"Não se pode olhar para a história de África dessa altura com os olhos de hoje. Para avaliar Marcelino da Mata é preciso olhar a história de Portugal na Guiné e inseri-lo nesse contexto."

Sofia Palma Rodrigues, doutoranda em Pós-Colonialismos, in DN

A condenação do colonialismo não é consensual. Isto é bastante claro. E fica ainda mais claro quando há partidos que reivindicam luto nacional após a morte de tão polémica figura - e não, não me refiro àquele que já sabemos que gosta muito de capitalizar ódios.

Também é claro que, mesmo passados tantos anos, a Guerra do Ultramar e os atos que se ali praticaram são alvo de um desconcerto tal que originam coisas tão absurdas como uma petição para deportar Mamadou Ba. O que está aqui a acontecer é que um enorme grupo de cidadãos quer que seja discutida no Parlamento a possibilidade de expulsar de Portugal alguém que disse uma coisa com a qual não concordam. Nas entrelinhas podemos ainda ler que consideram inadmissível criticar quem matou indiscriminadamente em defesa do colonialismo. 

É óbvio que esta polémica irá esfumar-se como aconteceu a tantas outras. O que está longe de desaparecer é a nostalgia ingénua que deturpa a realidade dos factos. O descontentamento crescente vai continuar a motivar indignações absurdas, especialmente porque o absurdo está cada vez mais normalizado.

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Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

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