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IN.SO.LEN.TE

Mas que m**** é esta???

Profundo choque. Horror. Arrepios. Medo. Muito medo.

A cena que vimos acontecer ontem em Washington é de tal forma surreal que me falta vocabulário para descrevê-la adequadamente. Sempre soube que Trump não iria aceitar nunca uma derrota de ânimo leve, mas a invasão do Capitólio atinge um novo nível de loucura e fanatismo.

Como é isto possível? Como é que uma democracia consolidada como a dos EUA pode ver-se imersa neste caos??? Será isto o pior que pode acontecer? Ou vamos ver-nos forçados encarar a desordem como norma daqui para a frente?

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Foto: Jim Lo Scalzo/EPA

A invasão do Capitólio por apoiantes de Trump é uma tentativa perversa de fazer jus ao ego de um presidente derrotado que recusa assumir a sua condição. Os fanáticos sentiram-se de tal forma validados na sua "fé" que esbardalharam tudo quanto puderam dentro do edifício, numa manifestação obscena de desrespeito pelas instituções democráticas. 

Desde de quando isto passou a ser aceitável? Desde quando a verdade se resume ao que Trump quer que seja?

Trump anda há meses a recusar aquilo que é o resultado de um processo democrático, derruba quem quer que seja que o contrarie, queria anular votos, perdeu todos os processos em tribunal relativos à eleição, chegou a pedir por telefone que o número de votos a seu favor fosse adulterado na Geórgia e agora impulsiona um golpe de estado que consegue suspender a certificação do resultado.

Qual é, afinal, o limite? 

Mesmo após uma pessoa ser baleada dentro do congresso (!!!) Trump demora horas a reagir à violência, e quando o faz teima em não reconhecer a derrota. Não há palavras... simplesmente não há...

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Foto: Pete Marovich/The New York Times

Mas o quadro torna-se mais macabro, se pensarmos que o esboço foi delineado por grupos extremistas nas redes sociais:

Bolstered by Mr. Trump, who has courted fringe movements like QAnon and the Proud Boys, groups have openly organized on social media networks and recruited others to their cause.

The New York Times 

Tal como descrito no jornal acima citado parece que acabou o mito de que o mundo digital e o real se mantêm isolados. As fronteiras esfumaram-se e o discurso de ódio já não está preso aos teclados. As repercussões do extremismo online são preocupantes e devemos começar a encará-las com a seriedade que exigem.

E não se pense que este tipo de cenário está apenas lá longe, no outro lado do Atlântico.

Estamos em período de pré-campanha eleitoral e temos um "mini-Trump" como candidato a presidente que tem sido mestre na capitalização do mediatismo. Basta um olhar mais atento entre debates para notar um fervor crescente no seu ego. Cada vez mais insiste na sua importância política, tentando injetar a ideia de que será impossível ter um resultado fraco nas urnas.

Não me parece de todo impossível - tendo em conta o desenrolar de retóricas - que AV termine as eleições a instalar a dúvida sobre os resultados...

Cabe a nós, cidadãos, estar atentos. A democracia é nossa para proteger. Não podemos deixar que tomem o nosso "Capitólio".

 

Será um cordão sanitário a melhor forma de combater a extrema-direita?

PSD-Açores e Chega. Esta é uma questão difícil de analisar, no que às sequelas diz respeito.  

Rui Rui tem estado "debaixo de fogo", devido ao facto de ter violado o cordão sanitário em relação ao Chega, ao aceitar ceder para ter o seu apoio na governação do arquipélago.

[Antes de mais queria frisar o facto altamente irónico de um partido que se diz "anti-sistema" ter, assim de repente e como quem não quer a coisa, aceitado ser uma muleta do sistema. Acho hilariante e nem consigo escrevê-lo sem mostrar os dentes. Oram vejam a contradição destes dois excertos do mesmo discurso:

“Ontem, o dr. Rui Rio disse que admitia conversar com o Chega e ter entendimentos com o Chega a nível nacional. E hoje o Chega quer dizer que admite conversa com o PSD a nível nacional e admite entendimentos com o PSD a nível nacional”, vincou André Ventura. 

“O Chega não precisa de acordos com nenhum partido do sistema nem os pretende”, afirma Ventura que, no entanto, insiste logo a seguir nas sondagens que indicam que só o Chega e o PSD conseguem ser alternativa de peso suficiente à direita. 

enfim...voltemos ao que interessa...]

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Foto: António Cotrim/Lusa

Perante a abertura dos sociais-democratas ao partido Chega, mais de 50 personalidades de direita - como Adolfo Mesquita Nunes, Pedro Mexia, Samuel Úria, Miguel Esteves Cardoso entre outros - divulgaram no jornal Público um abaixo assinado onde se distanciam claramente da postura assumida pelo PSD:

uma coisa é os movimentos nacional-populistas, xenófobos e autocráticos assumirem aquilo que são; outra, mais grave, é o espaço não-socialista deixar-se confundir com políticos e políticas que menosprezam as regras democráticas, estigmatizam etnias ou credos, acicatam divisionismos, normalizam a linguagem insultuosa, agitam fantasmas históricos, degradam as instituições.

Rui Rio já tinha demonstrado há algum tempo que estava disponível para fazer acordos com o Chega se este "se for moderando", pelo que não fiquei espantada que acontecesse agora (primeiro é no arquipélago mas depois será obviamente no continente).

O grande problema de tudo isto é, para começar, a nossa histeria em volta do assunto. Sim, é verdade que todos ficamos incomodados com o facto de um partido democrático, o maior da oposição, ceder à extrema-direita xenófoba (eu também fico), mas não podemos esquecer-nos de forma alguma que se este partido tem representação parlamentar é porque a conquistou nas urnas. Se ele está lá, é porque foi eleito, ainda que diga desprezar o próprio sistema democrático que lhe deu alguma chance. O Chega representa uma parcela da população portuguesa, mesmo que isso custe muito - e custa mesmo - a engolir.

Dito isto, a nossa postura de repulsa estará a ter o efeito que queremos? Ou, pelo contrário, ao estigmatizar a extrema-direita populista estamos a fortalecê-la? É que o Chega continua com a postura de underdog mártir, reforçando a ideia (ridícula) do "eles criticam-nos porque têm medo do nosso crescimento". A força do partido está precisamente no facto de afirmar ser diferente de todos os outros. Se esvaziarmos esta diferença não poderemos tirar-lhe força? Será que a procura de consenso democrático pode ser a solução para moderar o Chega? É que se o Chega deixar cair o radicalismo não lhe sobra nada e concerteza torna-se-á irrelevante (pois não tem ideologia nem tampouco propostas relevantes para o país)...certo?

Pensamos sempre que será o PSD a radicalizar-se, mas tendo em conta o número de assentos dos sociais-democratas na AR, a sua história e influência no país, será que não poderá criar-se o efeito contrário? Não haverá hipótese de a direita-moderada esvaziar um pouco o extremismo?

Posso estar a ser ingénua, mas quero crer que haverá coisas com as quais o PSD nunca concordará e que chegará a um ponto em que Rui Rio traça uma linha vermelha. Nessa altura, não terá o Chega perdido força? Daí em diante será óbvio para qualquer Ser pensante que o Chega tentou fazer parte do sistema e não foi propriamente bem sucedido. A sua postura de rejeitado incompreendido perde força, deixando notar a falta de conteúdo das suas propostas. Não poderá esta ser uma forma de demonstrar a hipocrisia das alegações que tanto defende?  Pode a conciliação democrática ser a solução para enfraquecer o populismo?

A quebra do cordão sanitário em redor do Chega é uma aceitação ou antes uma desmistificação?

Admito não fazer ideia das respostas mas creio que estas estarão, daqui para a frente, nas mãos do PSD. O que fez o maior partido da oposição foi colocar-se num limbo em que não poderá dar qualquer passo em falso. É um caminho perigoso, na medida em que cada movimento será julgado de forma implacável, mas por outro lado é uma forma eficaz de roubar palco ao Chega.

De facto deixa-me curiosa qual o efeito desta "união" nos respetivos eleitorados: será mesmo o PSD que vai perder votos, ou pelo contrário será o Chega que vai acabar por cair na irrevelevância onde pertence?



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Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

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