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IN.SO.LEN.TE

Manifesto feminista

Estive relutante em escrever sobre isto, mas tornou-se demasiado sufocante para não o fazer.

Nos últimos tempos tenho sentido o machismo como setas pontiagudas e, sinceramente, estou farta de me sentir perfurada. Podia dar mil exemplos (notícias, estudos, estatísticas...) da desigualdade de género que se perpetua, mas hoje fico-me pelo desabafo. Como na maioria das vezes são poucos os que consideram os meus protestos, pode ser que estes se tornem relevantes quando escritos. Assim sempre ficam disponíveis para consulta futura.

clarice-falcao-survivor1.jpegImagem retirada do vídeo "Survivor" de Clarice Falcão



Antes de tudo, o contexto:

Continua a haver quem ache por bem questionar as minhas atitudes e hábitos e avaliá-los consoante violem ou não a recomendável servidão ao meu companheiro. Ontem chegou ao absurdo de o motivo ser a minha mera presença no café às 20h. “Porque não estás a fazer o jantar? Vou já dizer ao teu “marido”.” E o pior é que disse mesmo! Não será isto ridículo no século XXI? Mesmo sendo “brincadeira”, não será escusadíssima? Como raio posso defender as benesses da vida no interior no país, quando esta continua a ser povoada pela mentalidade da Idade Média?

Além de bocas energúmenas, vejo-me ainda confrontada com conselhos de submissão e silêncio em prol da felicidade conjugal. “Porque tens tão mau feitio Sofia? Podes só ignorar”. Poder posso, mas não quero, nem acho que tenha de o fazer, já que o meu país é democrático.

De seguida apresento os elementos essenciais deste meu manifesto, que sei desde já que será considerado parvo e, possivelmente, “radical”:

 

-Não gosto de cozinhar;

-Não gosto de limpar a casa;

-Não gosto de passar a ferro;

-Não gosto de tarefas domésticas, no geral e não sou nada de especial a executá-las (o escândalo!)

-Não gosto de me deitar cedo;

-Não gosto que insultem a minha inteligência;

-Não gosto de condescendências paternalistas;

-Não gosto de indiretas machistas;

 

...por outro lado,


-Gosto de beber álcool;

-Gosto de fumar;

-Gosto de trabalhar;

-Gosto de escrever;

-Gosto de sair à noite (assim mesmo até de madrugada);

-Gosto de pintar os lábios de vermelho;

-Gosto de discutir política e atualidade em geral;

-Gosto de ler;

-Gosto de dormir até tarde;

-Gosto de conversas demoradas:

...entre outras coisas que agora não me lembro. Grande parte dos homens (e mulheres, o que é ainda mais grave!) que conheço continua a achar que nascer com uma vagina não se coaduna com as afirmações supra, o que me impele a deixá-las registadas de forma explícita.

Não tenho vergonha de nada disto, antes pelo contrário. Não sou menos mulher por nenhum destes motivos, porque não considero que haja tarefas definidas por género, nem que a biologia deva determinar o meu papel. Há sim, responsabilidades inerentes à vida adulta, que devem ser divididas quando se coabita. Isto partindo do princípio que não se vive com uma criança ou um adolescente, mas sim com uma pessoa responsável, saudável e nas suas plenas capacidades. A não ser (e nesse caso não critico) que uma das pessoas tenha especial gosto nas tarefas domésticas, e não encare negativamente a sua execução de forma solitária.

Nada contra, só não é para mim.

O Afeganistão e a (crescente) crise migratória

Dizer que o que o está a acontecer no Afeganistão era muito provável é um eufemismo. Consigo avaliar como razoável a ideia de que a permanência das tropas americanas não poderia ser eterna, mas a retirada não podia, nem por sombras, ter acontecido desta forma.

O desespero dos afegãos e afegãs que tentam sair do país ficou bem patente na enchente no aeroporto de Cabul, no dia seguinte à tomada de poder pelos Taliban. Um autêntico salve-se quem puder, onde a única esperança era conseguir um lugar no avião que partiu lotado mas que, ainda assim, trazia poucos. Houve quem morresse ao tentar agarrar-se ao avião a descolar. Apesar disso a repressão tem-se mantido constante,  mesmo que o discurso dos Taliban seja hoje mais moderado do que foi na viragem do milénio.

A cosmética da tolerância e da inclusão das mulheres serve apenas para afastar definitivamente a já escassa ação ocidental no país. O que acontece nas ruas é bem diferente. Os direitos humanos, especialmente das mulheres, serão novamente ignorados e espezinhados. Depois de uma luta prolongada para integrar a sociedade, é pouco provável que as afegãs consigam manter os seus lugares na política, consigam prosseguir os estudos, ou simplesmente voltar a andar na rua desacompanhadas e sem burca.


Após duas décadas de intervenção militar, a precipitação dos EUA em retirar os soldados fez tudo voltar à estaca zero. Será tentador atribuir a culpa a Joe Biden - que, de facto, podia e devia (!) ter tido outra gestão deste problema - mas, e conforme escreve o New York Times, a culpa vai de Bush, a Obama, passando por Trump e culmina em Biden:

"The responsibility lies with both parties. President George W. Bush launched the war, only to shift focus to Iraq before any stability had been achieved. President Barack Obama was seeking to withdraw American troops but surged their levels instead. President Donald Trump signed a peace deal with the Taliban in 2020 for a complete withdrawal by last May."

(...)

"It has long been clear that an American withdrawal, however or whenever conducted, would leave the Taliban poised to seize control of Afghanistan once again. The war needed to end. But the Biden administration could and should have taken more care to protect those who risked everything in pursuit of a different future, however illusory those dreams proved to be."

Editorial, New York Times, disponível em https://www.nytimes.com/

Há, também, uma hipocrisia coletiva, assumida agora que o cenário se revelou muito negro com demasiada rapidez. A opinião pública americana - e ocidental, de uma forma geral - há muito que deixou de ligar a este problema, chegando a ser quase unânime a defesa da retirada das tropas. Quem melhor descreve esta ideia é Tom Nichols, num artigo de opinião na The Atlantic, cujo título é auto-explicativo: "Afghanistan Is Your Fault. The American public now has what it wanted."

Já ninguém ligava muito ao que se passava no Afeganistão, e seriam poucos os Americanos que encaravam a missão como relevante atualmente. Agora, que observamos o sangue e o desespero nas ruas de Cabul, procuram-se caras a quem apontar o dedo.

Biden foi quem o fez de forma mais displicente. Não só se relevou intransigente na manutenção do plano de retirada, como ainda culpou os afegãos, afirmando que foram dadas “todas as oportunidades para determinar o seu próprio futuro" e por isso "Não podíamos dar-lhes a vontade de lutar por esse futuro”.

 

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Foto: AFA

 

O maior problema desta crise ainda está, no entanto, a desenhar-se. Com tantas pessoas a querer abandonar o país, é mais do que previsível o eclodir de uma nova vaga de refugiados. A ONU já apelou à solidariedade dos países, ainda que esta seja manifestada de forma muito moderada.

Acautelando-se, a Turquia já está a construir um muro de 64km na fronteira com o Irão, de forma a travar a possível entrada de deslocados afegãos. Também a  Áustria recusou o pedido de ajuda, "sugerindo a criação de “centros de deportação” nos países vizinhos – como o Paquistão ou o Irão, onde estão já perto de três milhões de refugiados afegãos", diz a SIC Notícias.

Num discurso onde manifesta a aparente vontade de "cooperação", Macron deixou bem claro que a França irá "tomar uma iniciativa, com a Alemanha e outros países europeus, para construir sem demora uma resposta robusta, coordenada e unida, que envolverá a luta contra os fluxos irregulares". (Atente-se nesta última parte da "luta").

Mais uma vez a Europa escolhe "proteger-se" ao invés de efetivamente se mostrar solidária com a defesa dos direitos humanos que diz serem a sua base. A crise migratória é um dos grandes problemas da nossa era, mas continuamos a ter líderes que defendem as fronteiras em vez das pessoas. As polítcas da UE face às migrações são cada vez mais hipócritas. Veja-se o Novo Pacto Europeu para as Migrações e Asilo, que, ao invés de definir uma resposta coordenada entre os Estados, coloca a tónica nos repatriamentos "patrocinados". Isto além de manter e financiar novos campos de refugiados com condições desumanas (conforme denunciado pelos Médicos Sem Fronteiras).

Enquanto não existir uma política coordenada internacionalmente, que proteja os direitos dos refugiados, vamos continuar a assistir a este "passa testemunho", que instrumentaliza as pessoas desesperadas por uma vida melhor (como, aliás, aconteceu em Ceuta, em maio deste ano).

O Afeganistão será só mais um capítulo deste drama, que, no fim de contas, apenas serve para reforçar as narrativas populistas e de extrema-direita.

Tomem a porra da vacina!

Vamos a ver se nos entendemos: recusar a vacina é, em 99,99999% dos casos, ESTÚPIDO, ARROGANTE e EGOÍSTA. Importa estabelecer bem isto antes de avançar com explicações e dissecar cada vocábulo desta minha irritação.

Nas últimas semanas os estímulos propícios a uma revirada de olhos são de tal forma abundantes que já quase nem consigo endireitar a vista.

Arrisco dizer que não há dia em que não oiça alguém afirmar que não quer a vacina, ou então que vai tomar “mas só porque...”, caso contrário não se sujeitavam a esta tão grande provação das suas vidas.

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Foto: Getty Images

Tenho para mim que esta situação já está a passar o limite do ridículo, pelo que passo a enumerar os motivos que justificam a minha tão ríspida adjetivação.

 

Motivos pelos quais recusar a vacina é ESTÚPIDO:

Primeiro: não há neste mundo nenhum tipo de medicamento, droga, vacina ou terapêutica completamente isenta de riscos. Até o vulgar Paracetamol pode provocar complicações na formação de coágulos de sangue (embora esse efeito secundário seja “muito raro” e se calcule que possa afetar uma em cada dez mil pessoas).

Só por isto já é ESTÚPIDO justificar a resistência às vacinas com o facto de conter "componentes perigosos". Mais perigosos são os químicos nos SG Ventil que tantas destas pessoas fumam às pazadas.

 

Segundo: Não há vacinas 100% eficazes (como aliás não há nada, nem o preservativo pessoal... sorry). Há sempre a hipótese de, estando vacinado, contrair Covid-19, mas as possibilidades de isso resultar em doença grave diminuem significativamente (cerca de três vezes, no caso de pessoas com mais de 80 anos e vacinadas com as duas doses, segundo estatísticas apresentadas pela DGS na reunião do Infarmed). O uso do argumento de possível reinfeção como justificação para evitar a vacina é, por isso, ESTÚPIDO.

 

Terceiro: Basta comparar os números da evolução de mortes e casos graves para perceber que a coisa melhorou bastante desde que uma significativa porção da população está vacinada. De acordo com estimativas de investigadores da Universidade do Porto, a vacina terá evitado cerca de 700 mortes entre maio e julho. São dados reunidos por quem faz carreira a analisar e estudar este tipo de coisas, todos os dias, durante anos. Assumir que estão todos a mentir é ESTÚPIDO. Nenhuma opinião proferida pelo Sr. Zé da Tasca pode ser mais sólida que esta, já que é ESTÚPIDO, assumir que se tem razão no que quer que seja sem ter lido uma linha sobre isso.

 

Quarto: A Covid-19 e a pandemia existem mesmo. Dizer o contrário é MUITO ESTÚPIDO, por isso nem me dou ao trabalho de justificar isto com evidências. Só não as vê quem não quer.

 

Motivos pelos quais recusar a vacina é ARROGANTE:

 Tal como a riqueza e o desenvolvimento, o acesso às vacinas no mundo é profundamente desigual.

Já em maio – esse mês longínquo em que ainda não tínhamos a percentagem de vacinados que temos hoje – a Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos alertava que 80% das vacinas disponíveis tinham sido administradas nos ditos “países ricos”, enquanto apenas 1,3% tinham chegado aos países mais pobres.

Ainda ontem a Organização Mundial de Saúde alertou para estas desigualdades que continuam a agravar-se. Enquanto em Portugal se discute a possibilidade de administrar uma terceira dose, há países onde os médicos não tem sequer acesso a uma primeira. Vivendo num país onde a vacinação não só é abundante como é gratuita, recusá-la é, no mínimo, ARROGANTE.

 

Motivos pelos quais recusar a vacina é EGOÍSTA:

 A vacinação só funciona se for comunitária. A erradicação de uma doença depende de uma elevada percentagem de população vacinada, e mesmo aí é um processo que demora décadas. Não nos vacinamos apenas para nos protegermos a nós próprios, mas para travar a propagação da doença pela sociedade e, assim, vencer a pandemia.

Há tantos exemplos disto que é ridículo negá-lo. Graças às vacinas: 

-"A varíola foi erradicada no Mundo em 1978 (matava cerca de 5 milhões de pessoas por ano, hoje está quase esquecida);

-A Organização Mundial da Saúde declarou a região europeia livre de poliomielite em 2002. O objetivo é a erradicação desta doença no mundo;

-Em Portugal, a maioria das doenças alvo do Plano Nacional de Vacinação, estão em fase de pré- eliminação (difteria, sarampo, rubéola, rubéola congénita, tétano neonatal) ou estão controladas (tétano, doença grave por Neisseria meningitidis C, doença grave por Haemophilus influenzae b, tosse convulsa, hepatite B e papeira). 

-Na década anterior à introdução do Programa Nacional de Vacinação, quatro doenças – a tosse convulsa, a poliomielite, o tétano e a difteria provocaram um total de 40 175 casos de doença (declarados) e 5 271 mortes. Na década de 2000-2009, devido à vacinação, o número de casos por estas doenças diminuiu acentuadamente para 376 e o número de mortes para 27".

*dados publicados pela ARS Algarve

 

...E isto são apenas alguns exemplos. Há muitos mais casos em que as vacinas comprovadamente erradicaram doenças que outrora estiveram fora de controlo. Por tudo isto, não tomar a vacina é EGOÍSTA, pois impede que a sociedade possa dar a pandemia de Covid-19 como controlada.

 

Resumindo:

Não faz sentido continuar a tomar decisões que impactam a vida de todos de forma individualista, com base em palpites não fundamentados. Parem de ser ignorantes e teimosos! Duvidar de tudo e colocar em causa cada frase que dizem os especialistas não faz das pessoas mais respeitáveis. O cepticismo desenfreado não corresponde a um alto nível de inteligência. Eu sei que acham que sim, mas é mentira...

Tomem a porra da vacina!

Obrigado.

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Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

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