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IN.SO.LEN.TE

Ditadura dos convictos

Há algumas semanas atrás, quando no âmbito das manifestações que despoletaram após a morte de George Floyd começámos a assistir ao derrube de estátuas fiquei - como aliás fico muitas vezes - na dúvida. Se por um lado acredito na importância de olhar a história à luz dos padrões éticos predominantemente vigentes na época em questão, por outro consigo compreender a razão pela qual muitos se insurgem contra a persistência de homenagens públicas a figuras com percursos de alguma forma manchados pela discriminação.

É uma faca de dois gumes, pois se é importante preservar a memoria coletiva - e nao negar a história e a verdade do que aconteceu -  tambem é primordial questionar se ainda faz sentido perpetuar o culto de valores que as personalidades representam. 

É portanto uma questão difícil de resolver, porque não acredito que seja possível de solucionar através de uma resposta definitiva. Se cada estátua deve ou não ser retirada depende sempre de que estátua estamos a falar e do destino que seria dado.

Por tentar decidir entre estes dois lados, nao escrevi sobre o assunto. Nao me senti suficientemente à vontade para tomar uma posição e evitei opinar sobre isso. Não manifestei a minha opinião, porque me senti incapaz de escolher apenas uma das frentes de batalha. 

Mas porque será que tinha de o fazer? Haverá apenas uma resposta certa para este problema?

estatua-decapitada-de-cristovao-colombo-em-boston-Estátua de Cristóvão Colombo em Boston. Imagem: AFP

Na atual conjuntura se não se assume uma posição rígida perante determinado assunto isso é visto como sinal de falta de opinião.

A sensação que tenho é que as pessoas cada vez mais moldam os factos às convicções, em vez do contrário. Parece ser inadmissível que se pondere todas as vertentes antes de emitir um juízo, pois isso seria o equivalente a considerar a possibilidade de estarmos errados, coisa que ninguém ousa admitir.

Num artigo intitulado "O Ocidente ainda Existe?" Teresa de Sousa explica de forma particularmente elucidativa e abrangente esta questão. De acordo com a jornalista o movimento Black Lives Matter 

Foi uma gigantesca lufada de ar fresco que atravessou o Atlântico, mas que, como demasiadas vezes acontece, acabou por se deixar aprisionar pela “ideologia do politicamente correcto”, que infecta hoje as sociedades livres em que estamos acostumados a viver de forma aparentemente inocente e imperceptível.

De acordo com Teresa de Sousa, as manifestações acabaram por ser tomadas como o extremo oposto da ideologia supremacista que pretendiam combater, acabando por politizar aquilo que é uma legítima luta social.

Na génese das duas “ideologias” está a noção de identidade. De cor da pele ou de classe ou até de género. O indivíduo não conta ou, se conta, é para aceitar que a sua identidade determina a sua individualidade. É, portanto, a negação do liberalismo que nasceu das Luzes e que faz de cada indivíduo, desde que nasce, um ser simultaneamente autónomo e igual a todos os outros.

Acredito que este tipo de extremismo está profundamente ligado à desinformação. Não falo apenas de fake news, mas da própria falta de conhecimento para interpretar os conteúdos informativos. Há uma necessidade premente (bem visível nas caixas de comentários das redes sociais) de afirmar a personalidade e as convicções através da crítica gratuita não fundamentada.

Perante isto a política responde às exigências e diz o que o povo quer ouvir, abocanhando lutas sociais e reconfigurando as narrativas para as apresentar como suas. 

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Foto: CHIP SOMODEVILLA / GETTY IMAGES NORTH AMERICA

De nada nos serve este oportunismo. De nada nos serve hastear a bandeira da inclusão se não estamos dispostos a praticar a tolerância e a compreensão.

Só conseguiremos alcançar algo de semelhante a uma sociedade igualitária quando pararmos de encarar os problemas sociais como uma luta clubística. A polarização não leva a mais nada senão a extremismo. Não há uma sociedade justa se apenas se considerar uma das vertentes da situação. Precisamos mais de considerar a dúvida do que de defender a convicção.

Como promover um comprimido

Podem chamar-lhe teoria da conspiração, podem chamar-lhe cepticismo, mas pessoalmente tenho muitas dúvidas que Bolsonaro tenha de facto testado positivo para a Covid-19. Eu e muitos, aliás (como é possível verificar nesta peça do DN).

 Se o presidente brasileiro proclamou aos sete ventos que está contaminado, é porque tem um forte interesse que o leva a fazê-lo e nada leva a crer que seja o bem-estar do seu povo. Rui Tavares descreve explica isto na perfeição, na sua crónica no Jornal Público:

Uma das coisas mais impressionantes na reação pública ao anúncio de que Jair Bolsonaro testou positivo ao vírus da covid-19 foi tanta gente não acreditar ser verdade, e por uma excelente razão: é que foi o próprio Presidente do Brasil a fazer o anúncio público de que estava infetado — o mesmo Presidente do Brasil que ainda há três meses se recusou a mostrar o teste ao mesmo coronavírus cujo resultado teria então dado negativo. 

A postura negacionista que Bolsonaro manteve desde o início da pandemia -  apelidando de "gripezinha" a doença contagiosa que já matou milhares no seu país - torna (no minímo) suspeita esta aparente predisposição para assumir o contágio. É impossível aceitar as suas palavras como factos, e tudo leva a crer que o anúncio de contaminação terá outros interesses que o justifiquem. A promoção da hidroxicloroquina será apenas uma das hipóteses.

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Screenshot do vídeo publicado por Jair Bolsonaro nas redes sociais, onde surge a tomar hidroxicloroquina

 

Ao assumir publicamente que foi infetado com covid-19, Bolsonaro consegue, não apenas patrocinar a sua tão adorada hidroxicloroquina (através de um vídeo obscenamente promocional, publicado pelo próprio nas suas redes sociais), como irá depois utilizar o seu testemunho para descredibilizar os efeitos da doença. Irá sempre tentar sair vitorioso e impune desta luta populista para mostrar que estamos todos a exagerar. Bolsonaro irá utilizar o facto de que foi contagiado para minimizar os efeitos da doença, sacudindo dos ombros a culpa pela irresponsabilidade governativa que (literalmente) enterrou grande parte do país.

É desesperador. Hoje o maior aliado do Jair Bolsonaro contra o impeachment é a pandemia que ele nega. 

Felipe Santa Cruz, Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil

 

Mas não fica por aqui.

Na hipótese de o presidente estar de facto infetado, o quadro é ainda mais preocupante, em especial porque será impossível rastrear todos os contactos que já efetuou (basta pensar nas várias manifestações em que participou, nos diversos políticos com quem contactou, e na sua calorosa abordagem aos apoiantes, sempre sem máscara). Neste cenário o próprio Presidente assume um papel de grande impacto na disseminação do vírus, contribuindo para o agravar da situação pandémica num país cada vez mais ameaçado pela fome

Apesar disso nada atrapalha Bolsonaro, que não se coibe de afirmar que “nenhum país do mundo fez como o Brasil", pois ali foi possível preservar "vidas e empregos sem espalhar pânico, o que também leva à depressão e à morte”.

Haverá comprimidos que curem esta falta de noção?

Acham mesmo que não somos racistas?

Tenho-me questionado muito sobre o tema do racismo. Pensei durante semanas se deveria de facto debruçar-me sobre este assunto por escrito, pois não quero nem admito ser rotulada de racista. Nunca me achei no direito de tratar alguém de forma diferente só com base na aparência ou proveniência. Tenho amigos de várias etnias e nacionalidades, pelo que sempre me considerei uma pessoa justa e tolerante.

Apesar disso o que tenho notado, à medida que me informo cada vez mais sobre a temática do racismo, é que eu própria tinha noções discriminatórias. Isto é para mim doloroso e vergonhoso de admitir, mas é verdade. Sei que, ao escrever isto, não estou a ser politicamente correta – e estou a dar o corpo às balas – mas tenho esperança de que sirva para que mais pessoas tenham noção desta inconsciência discriminatória que todos temos.

Na sociedade ocidental temos impregnado em nós um sentimento de superioridade de que não nos damos conta, e que só pode ser contrariado com a devida informação e educação. O meu apelo é, por isso, que se informem sobre o assunto (deixo aqui algumas sugestões) para que possam desfazer esses muros mentais com séculos de existência e, sim, deixar de ser racistas.

“Não há racismo em Portugal”

Esta é uma afirmação que me tem intrigado profundamente. Não é uma frase dita exclusivamente por Rui Rio e pelas direitas em geral, mas repetida por uma grande parte da população. Não me parece de todo verdade, mas ultimamente resisti em contestá-la e vou explicar porquê:

Nasci num meio rural, no interior, onde por natureza se aponta o dedo à diferença. Este hábito,  (que acredito que se repete um pouco por esse Portugal fora) não é necessariamente o reflexo de uma comunidade maldosa e conscientemente discriminatória, mas é o resultado de um ambiente onde todos estão habituados a reconhecer-se. Todas as caras são familiares, o que faz gerar desconfiança quando surgem "forasteiros". (Importante sublinhar que todos os ali vivem são portugueses brancos).

Numa comunidade deste tipo afirmar que existe de facto racismo em Portugal é ser alvo de chacota. “Vês alguém a discriminar alguém? Ou a tratar alguém mal?”. (De facto não vejo, porque aqui somos todos idênticos!). 

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Foto: Manuel de Almeida/Lusa

É por isso difícil confrontar as pessoas com a brutalidade dos seus dogmas porque, na maioria das vezes, não são capazes de admitir que se baseiam em algo errado. Na maior parte das vezes observo que as pessoas não têm sequer noção de que estão definir uma linha de separação entre "nós" e os "outros". Descredibilizar as certezas de uma vida - como "os brasileiros são preguiçosos" ou "os ciganos são todos manhosos" - é no minímo trabalhoso. Acredito que talvez esta falta de consciência do preconceito seja uma das razões pela quais é tão difícil ultrapassar o tema do racismo e da xenofobia, mesmo no século XXI.

Racismo não é só violência física, mas tudo o que envolva

a imposição da minha perspetiva de ser gente a outros que são diferentes de mim. Isso é pretensamente apresentado como uma missão cultural e civilizacional.

Não tenho por hábito citar o clero, mas neste caso José Ornelas Carvalho, novo presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, tem razão. É muito isto. E as raízes desta conceção, estão no facto de nós, ocidentais, acharmos que somos a civilização padrão, que serve de base para comparar todas as outras.

Não é verdade? Vamos testar.

Acha que:

Há grupos étnicos ou raciais por natureza mais inteligentes?

Há grupos étnicos ou raciais por natureza mais trabalhadores?

Há culturas, por natureza, mais civilizadas que outras?

Sim ou não? 

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Foto: Lucília Monteiro

Estas perguntas foram a base de um estudo elaborado pelo European Social Survey. Este estudo, relativo a 2018/2010 e divulgado hoje pelo jornal Público conclui que 62% dos portugueses manifestam racismo (!!!).

Porquê? Porque, e cito o artigo do Público:

Dos inquiridos, 62% concordou com pelo menos uma das crenças. A concordância com todas as crenças em racismo biológico [primeiras duas perguntas] e cultural [terceira pergunta] é de 32% — ou seja, um em cada três portugueses. Em contrapartida, os que discordam de todas crenças racistas representam apenas 11% da população. Isto significa que há três vezes mais pessoas a manifestar racismo do que a rejeitar as crenças racistas. 

Por tudo isto será que faz sentido continuarmos a afirmar que não somos um país racista? Ou será mais adequado pôr a mão na consciência e tentar educar-nos a nós próprios sobe o tema? “É preciso confrontar a realidade, e não negá-la, perceber que o problema está longe de ser resolvido e que poderá potencialmente ser agravado." Assim diz a demógrafa Maria João Valente Rosa.

Pessoalmente concordo, e estou a tentar contrariar essa realidade...

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Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

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