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IN.SO.LEN.TE

O extremismo institucional não será fácil de reverter

Já todos sabemos o que vai acontecer nos próximos dias: perante a incerteza e a necessária demora na contagem dos votos por correspondência, Donald Trump tudo fará para ver descredibilizado o resultado destas eleições.

Isto claro, se houver alguma hipótese de a vitória ser claramente de Biden. As sondagens indicam que sim, mas na América atual a previsibilidade é uma ilusão. Além disso, há quatro anos atrás Hilary Clinton também liderava as probabilidades e acabou por perder, mesmo com quase mais três milhões de votos populares do que Trump, fruto do colégio eleitoral e do tão americano "winner takes it all".

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Foto: Scott Olson/Getty Images

Devo dizer que não estou muito optimista.

Se Biden ganhar - ainda que isso seja uma luz ao fundo do túnel escuro onde está soterrado o multilateralismo americano - não será fácil. Joe Biden necessita de manter a maioria democrata na Câmara dos Representantes e de aumentar a cor azul nas cadeiras do Senado, caso contrário todas as suas iniciativas futuras serão travadas pela sombra "trumpiana" em que se tornou o Partido Republicano. Isto claro, se a vitória de Biden for inequívoca, pois não o sendo, o Supremo Tribunal poderá ter um papel decisivo. Também aqui o cenário não é animador, pois Trump conta com a maioria conservadora, que recentemente reforçou com a nomeação apressada de Amy Coney Barrett. Não será fácil de forma alguma e acredito que as próximas semanas serão muito perigosas.

Trump já se tem vindo a preparar, semeando a desinformação e a dúvida acerca do processo eleitoral. É isso que continuará a fazer nos próximos dias (quissá semanas). Neste momento não prevejo mais nada que não o agravamento da divisão extrema da sociedade americana, que pode trazer mais episódios de violência.

“As pessoas estão cada vez mais a ver as pessoas do lado oposto como menos do que humanas (…) Quando se vêem os adversários como o inimigo, torna-se muito difícil para a democracia persistir”

Katherine Cramer, professora de Ciências Políticas na Universidade de Wisconsin. In Público

Trump mudou a política, e não há como voltar atrás. A América virou-se para dentro e absteve-se de liderar o mundo, como tinha vindo a fazer. O egoísmo capitalista exacerbou-se e revoltou-se contra as mudanças socialistas que Obama quis implementar. A revolta, no entanto já vem de trás, pois há muito que o país tem vindo a observar (e contestar) as exigências de uma sociedade mais justa. Trump foi apenas o fósforo que acendeu a clamor já latente.

De uma forma racialmente codificada e distintamente nacionalista, Nixon trouxe os brancos sulistas dos antigos bastiões democratas definitivamente para o lado republicano. Em 1980, Ronald Reagan nem pensou duas vezes em lançar a sua campanha presidencial com um discurso sobre “o direito dos estados” (na altura ainda queria dizer segregação) em Filadélfia, no Mississippi, a poucos quilómetros de uma barragem de terra onde os corpos de três activistas dos direitos cívicos tinham sido encontrados enterrados em 1964. E desde então o Partido Republicano sulificou-se (para dizer de alguma maneira) à grande, numa forma de iliberalismo que, mesmo no tempo de Nixon, já era impressionante.

Claro que em 2016, essa estratégia sulista tinha-se transformado mais numa estratégia nacional nas mãos de Donald Trump.

"A América de Trump já existia no Verão de 1973" - Agence Global/Público

Mesmo que a vitória de Biden se confirme (façamos figas), o extremismo não desaparecerá. Trump legitimou e normalizou o discurso institucionalmente egoísta, nacionalista, extremista e ignorante, personificado na figura do empresário de sucesso que se fez líder político. Deixou de haver linhas vermelhas e isso é difícil de reverter. Será no minímo complicado para um líder pacifista afirmar-se num ambiente tão polarizado, ainda para mais para alguém com as graves lacunas de carisma e retórica de Biden.

O primeiro desafio do democrata, caso ganhe, será afirmar a vitória. Só depois disso pode começar a pensar em limpar os cacos.

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Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

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