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IN.SO.LEN.TE

Problemática do "like" e controlo digital dos cidadãos

Temos a vida nas redes sociais, quer queiramos ou não. Sem nos apercebermos damos sinais aos outros da nossa personalidade que podem – mais vezes do que o aceitável –  ser utilizados para nos manipular. Isto é reprovável se falarmos de uma multinacional que usa as nossas publicações de bolos caseiros para perceber que nos pode vender um novo forno, mas não é dramático. Quando pensamos, no entanto, que a mesma lógica pode ser aplicada a atos eleitorais, ou movimentos políticos já é um pouco mais complexo e decididamente perverso.

Vi no passado sábado uma pequena notícia no Jornal de Notícias a que a príncipio (confesso) nem liguei muito. A notícia referia-se ao autarca social-democrata de Trofa, Sérgio Humberto, que, de acordo com o jornal, colocou um “like” numa publicação que sugeria que o Parlamento devia ser convertido em “câmara de gás”. Esta original ideia surgiu no âmbito das polémicas relativas à celebração do 25 de abril na Assembleia da República e mereceu a aprovação simbólica por parte do responsável no Facebook.

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A questão que aqui me interessa não é sequer se é ou não errado colocar “likes” em posts desta natureza (porque isso é obviamente reprovável), mas sim o significado intrínseco desse gesto.

O Expresso escrutinou a questão e foi perguntar aos colegas partidários do autarca qual a opinião sobre assunto. Alberto Machado, líder da distrital do PSD, desvalorizou e disse que aquela “não é a página institucional” do responsável Trofense.

Quais as ilações que devemos tirar disto?

Nos comentários à notícia original (do JN) há quem duvide da relevância de um "like", afirmando que isso nem devia ser assunto noticioso. Outros ainda colocam em causa a veracidade do perfil do autarca, alegando que existem mais perfis com o mesmo nome, e aquele até pode ser falso.

Não tendo certezas quanto à autenticidade do perfil há algo que não consigo evitar pensar: Não será um "like" uma demonstração simples de traços de personalidade e carácter? Se António Costa, o nosso primeiro-ministro, colocasse um "like" num post racista, isso não nos causaria repulsa? Não é algo que nos iria revoltar?

A notícia do Jornal de Notícias parece fútil, mas não é. Daniel Oliveira partilhou a mesma no seu Twitter, condenando a atitude. Foi acusado por um internauta de concordar com uma “PIDE dos likes” e respondeu à altura:

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Isto é verdade, e ele tem razão. Mas também é verdade que um “like” é algo tão suficientemente vago que pode ser usado a favor ou contra nós. Vejamos: Se eu colocar um like num post sobre Gilles Lipovetsky, não inferem que serei alguém com interesses intelectuais? E se eu comentar uma notícia sobre o Big Brother não supôem que aprecio e acompanho programas de trash-tv no meu quotidiano? E qual o julgamento que fazem da minha pessoa nesse sentido? Isto levanta outro um tipo de questões, mais profundas, que vou aproveitar a deixa para aqui colocar...

 

Análise de likes, dados e controlo dos cidadãos

Todas estas análises são feitas por nós de forma tão imediata que se torna quase inconsciente. Por isso são tão importantes (e daí a razão da gravidade do "like" do autarca Trofense).Aquilo a que reagimos on-line transmite uma posição sobre algo, que gostamos, aprovamos, concordamos, admiramos, ou o contrário. 

A Cambridge Analytica, por exemplo, percebeu isto como ninguém, e conseguiu levar à vitória o Brexit e Trump. A empresa de “comunicação” analisou milhares de perfis no Facebook,  usando publicações, comentários e até mensagens privadas de utilizadores, para depois definir perfis de comportamento e os utilizar para disseminar conteúdos que possam influenciar decisões na hora do voto. Isto é muito mais do que campanha, é manipulação, que continua a acontecer com o nosso consentimento. E piora bastante com a crise de saúde pública em que vivemos (há um artigo no The Intercept muito interessante sobre esta questão). A cada dia surgem novas sugestões de aplicações que podem ajudar a combater a propagação de Covid-19, através da geolocalização, da análise da proximidade e contactos entre pessoas e dados biométricos. Mas até que ponto se justifica esta monitorização? Se a Cambridge Analytica conseguiu influenciar as mentes de cidadãos, com base em informação que eles próprios publicaram, imaginemos o que pode ser feito com informação sobre reacções corporais que não controlamos.

Atravessamos uma era crucial nas questões da privacidade e controlo de dados dos cidadãos, que foi profundamente agravada pela pandemia. Em que mundo queremos viver? No mundo do controlo e da segurança pública? Ou da liberdade e privacidade individuais? 

Pode a estupidez ser censurada?

Mais um dia de quarentena, mais uma manhã de notícias frescas e absurdas.

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Cartoon: Vasco Gargalo

 

Hoje ao acordar e após dar uma olhada pelas últimas novidades no mundo, vejo mais uma grande demonstração de estupidez por parte do Presidente dos Estados Unidos da América. Após um estudo confirmar que substâncias desinfetantes como cloro e o álcool eliminam o novo coronavírus da saliva e gotículas, Donald Trump sugeriu que talvez fosse possível testar uma forma de injetar estes produtos em seres humanos. Referiu também a possibilidade de investigar se poderia ser colocada luz UV dentro do corpo para combater o vírus, pois - segundo os dados apresentados na conferência de imprensa estatal - as radições UV enfraquecem o vírus. Parece inventado mas não é (podem confirmar aqui).

As reacções a estas declarações multiplicaram-se como cogumelos, com inúmeros especialistas e entidades a alertar para o facto de que estas práticas podem ser fatais. Perante a indignação generalizada, Robert Reich, ex-secretário do Trabalho do presidente Bill Clinton, apelou no Twitter para um "bicote à propaganda".

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Percebo a intenção, mas isto levanta questões que não são fáceis de responder: devem os jornalistas abster-se de noticiar este tipo de declarações estatais, por saberem que colocam em causa as recomendações relativas à saúde? Podem eles negar-se a estar presentes nestas conferências de imprensa, e recusar-se a divulgar ao público tamanho absurdo? A resposta imediata pode parecer sim, mas de facto a liberdade de expressão é uma coisa complicada.

Falei então com um antigo professor sobre esta questão existencial, de forma a perceber bem qual a posição de alguém mais experiente. Este professor, chamado Walter Dean, além de ter sido jornalista na imprensa local e nacional americana durante largos anos, é hoje investigador de temáticas relacionadas com jornalismo, já formou inúmeros profissionais de renome e integra consórcios do ramo. Além de tudo isto é um cidadão americano informado e consciente.

Perguntei-lhe o que ele acha acerca de um eventual boicote às conferências de imprensa de Trump por parte dos jornalistas e ele respondeu-me que isso não é algo que se recomende, pois as pessoas devem ter informação acerca do que ele transmite, mesmo que não seja verdade. Apesar disso, e em alternativa, é possível evitar transmitir as declarações dele em direto, e apenas veicular a informação após ser tratada. Parece-me uma boa solução, pois este método já permite incluir informação de especialistas, e contrapô-la à especulação estapafúrdia do presidente. 

Readers don't need protection. They need verified information.

...disse Walter Dean, e é absolutamente verdade. Se um jornalista decide não noticiar algo que considera errado está já a tecer um juízo prévio, impedindo os seus leitores de o fazer por eles próprios. Por isso é tão importante que todos os cidadãos tenham espírito crítico.

...And the reason readers don't need protection is that they must make decisions about their government, community and, in this case, their own safety. One does not serve decision makers by withholding information that may be scary or unpleasant.

Essa é a base da liberdade de informação, de expressão e da democracia e não pode ser posta em causa. O que me inquieta é que a liberdade acarreta responsabilidade, e infelizmente acho que muita gente não pensa desta forma atualmente. Há muita desinformação e muitas pessoas a acreditar nas balelas destes líderes que nada sabem. É isto que enfraquece a democracia: a incapacidade dos cidadãos de analisarem a informação e de tomar decisões com base em evidências. 

Em última instância, a falta de responsabilidade cívica (que resulta de uma escolha individual) inviabiliza a política democrática. A liberdade só existe se todos a defendermos, caso contrário seremos vítimas da nossa própria falta de visão e limitação de pensamento (ou, numa palavra, da ignorância).

Como solucionar isto e respeitar o livre-arbítrio?... aceito sugestões nos comentários :)

 

 

Celebrar o 25 de abril é "desrespeitar o povo"???

O 25 de abril é uma das datas mais importantes na história deste cantinho à beira-mar plantado, que todos os anos celebramos como forma de honrar a restituição da democracia em Portugal. Fazêmo-lo para nos lembrarmos não só da importância da liberdade mas também do sofrimento que foi o regime repressivo de Salazar.

Depois de 48 anos de ditadura, foi neste dia que as Forças Armadas decidiram por fim levar a cabo a revolução que pôs ao fim ao Estado Novo. E o que era afinal o Estado Novo? Eu nunca saberei exatamente, pois nunca o vivi, mas de acordo com o livro "História de Portugal: O Estado Novo (1926-1974), de José Mattoso, foi "a mais longeva experiência autoritária moderna do Ocidente Europeu". Como é típico em regimes autoritários havia censura da imprensa, polícia política, culto do líder, um forte nacionalismo e pobreza a condizer (segundo me contam, claro).

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46 anos depois, a realidade é bem diferente. Vivemos num país com uma democracia sólida, que mesmo em Estado de Emergência (um estado de excepção, de duração limitada, previsto na Constituição da República Portuguesa) mantém os direitos fundamentais dos cidadãos. Este é um país onde, apesar da atual situação de pandemia, não houve nenhuma tentativa por parte do Governo de converter a saúde pública num pretexto para a repressão indiferenciada e permanente dos cidadãos, como aconteceu por exemplo na Hungria, onde o primeiro-ministro Viktor Orbán usou a Covid-19 como justificação para fazer aprovar um  estado de emergência sem limite temporal, que lhe permite governar por decreto e controlar o que é publicado nos meios de comunicação social. Note-se que este é um país (tecnicamente) democrático, que integra a União Europeia. Temos ainda os exemplos clássicos dos Estados Unidos, ou do Brasil, que embora tenham o rótulo de países democráticos, são liderados com base nos delírios dos seus Presidentes, que frequentemente pôem em causa aquilo que são as conclusões da ciência e as recomendações das entidades competentes. Depois há situações como a da China que (não sendo de todo democrática) aproveitou a crise de saúde pública para aumentar ainda mais a vigilância electrónica dos cidadãos.

Em Portugal, pelo contrário, a crise não aumentou o autoritarismo. Não vimos nenhum governante, presidente ou deputado a colocar em causa as conclusões da ciência, nem tampouco a negar a importância e gravidade da pandemia. Nenhuma medida restritiva foi adotada de forma permanente, e todo o procedimento relativo à implementação do Estado de Emergência foi transparente e democrático. Temos perfeita consciência dos erros que foram cometidos ao longo da evolução da pandemia porque nenhum deles nos foi ocultado. A incerteza sempre nos foi assumida e nunca negada. Apesar das restrições impostas acho seguro dizer que nenhum de nós se sente efetivamente em situação de prisão domiciliária, pois sabemos que - mesmo não estando aconselhados a fazê-lo - podemos sair à rua, ir às compras, auxiliar os nossos familiares, praticar exercício físico fora de casa e eventualmente ir trabalhar, se for caso disso.

Tudo isto acontece desta forma porque há 46 anos atrás os Capitães de Abril deram os primeiros passos para que assim fosse. Por estas e outras razões, é triste saber que há, neste momento mais de 40 mil portugueses a assinar uma petição para que não se celebre o 25 de abril em São Bento. Os peticionários indignados afirmam que "numa altura em que se pede que não exista concentração de pessoas, não se admite que a Assembleia, queira comemorar o 25 de abril, juntando centenas de pessoas no seu interior". Estas pessoas são, portanto unânimes quando consideram que é "uma vergonha o que aprovaram" em Assembleia de República, achando que os deputados que votaram a favor da realização da sessão solene comemorativa com 130 pessoas no parlamento "Não respeitam minimamente o POVO".

O meu apelo a estas pessoas é o seguinte: vejam bem o que significa a palavra "respeito", e "liberdade". Depois leiam jornais e informem-se sobre o aumento dos regimes autoritários no mundo. Depois comparem esses regimes com o nosso e congratulem-se com o facto de termos governantes que honram a democracia e insistem em celebrar a nossa tão bonita revolução, em vez de criticarem com hipocrisia os maus exemplos que possivelmente já todos vocês deram quando estão na fila para comprar pão! 

 

 



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Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

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