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IN.SO.LEN.TE

O radicalismo já está a afetar-nos

João Miguel Tavares dizia ontem no Público que, agora que Joe Biden foi eleito, parece que mais ninguém teria sido capaz de o fazer. Se inicialmente era desvalorizado, agora Biden é "erguido a candidato visionário em função dos resultados eleitorais". 

Concordo plenamente, mas sera que Biden foi incialmente desvalorizado apenas pela sua falta de carisma e retórica nos debates? Ou queríamos antes combater o extremismo com extremistas? A nossa falta de crença no democrata não estaria antes no facto de também nós termos perdido a fé na moderação?

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Agora tornou-se óbvio que Biden ganhou por pretender unificar e não dividir. Não se trata de defender a ideologia, "os blue estates", mas antes pensar como "United states" como ele tem vindo - e bem - a defender.

(...) a tarefa árdua começa agora. E ela tem de começar por dar voz e dignidade aos muitos milhões que votaram em Donald Trump. Não, eles não são deploráveis. São na sua esmagadora maioria pessoas decentes, trabalhadoras, dignas, patriotas, que só querem cuidar da sua família, e viram as suas vidas destruídas pelos efeitos da globalização, dos acordos de comércio livre, da transferência de empresas e empregos para o exterior, do colapso financeiro de 2007 e subsequente “grande recessão”, de cerca de 30 anos de estagnação de rendimentos, de crescentes desigualdades e, em muitos casos, desemprego de longa duração com a humilhação (para os americanos) de terem de viver de subsídios do estado. Em rigor, são hoje uma grande parte das classes médias americanas, do Ohio, da Pensilvânia, do Wisconsin, do Michigan, das cinturas industriais, dos campos, de muitos outros estados, condados, cidades e localidades. 

Tiago Moreira de Sá, Público

Durante o período pré-eleitoral todos dizíamos (eu incluída) que seria necessário alguém mais carismático e destemido para fazer face ao radicalismo de Trump. Vejo agora que não podíamos estar mais errados.

O radicalismo de Trump foi combatido com pacifismo e foi por isso que resultou. A moderação de Biden foi de facto o antídoto para a "raiva" que engoliu os Estados Unidos. Candidatos da ala mais à esquerda possivelmente não teriam tão bons resultados, pois seriam encarados como alternativas completamente opostas quando muitos americanos na verdade pretendiam um meio termo.

A grande lição a tirar disto é talvez que a polarização da sociedade não se resolve com soluções completamente opostas, mas antes com tolerância e conciliação. A grande força de Biden foi essa capacidade de apaziguar, de compreender, ao invés de atacar e odiar, como Trump tanto gosta de fazer. 

Esperávamos que a moderação e o centrismo de Biden levasse ao fracasso. Achámos que apenas um candidato com energia frenética para se opor a Trump seria capaz de lhe roubar a sala oval, mas enganámo-nos. De certa forma aguardávamos um certo radicalismo, embora de forma oposta. Estaremos todos a desvalorizar o poder do consenso? 

Novilíngua, fake news e outras ilusões

A simplificação do discurso tem como consequência o desprezo do pormenor. Reduzir realidades complexas a comparações diretas e descontextualizadas tem como resultado inevitável a incompreensão de um grande universo de realidades e situações. É assim que nasce o populismo, apoiado na propagação crescente de desinformação.

Na icónica obra de George Orwell, “1984”, esta realidade é assustadoramente bem retratada. No romance, o Partido apoiava a sua hegemonia na manipulação da verdade. A propaganda do Grande Irmão apoiava-se, não apenas em notícias manipuladas e repetidas até à exaustão, como napermanente alteração de arquivos e registos, por forma a que estes espelhassem a confirmação de cada movimentação do Partido.

Além do sufocante controlo de toda a “informação” e conteúdo cultural, estava a ser aperfeiçoada a Novilíngua, um novo idioma simplificado que resultava da supressão de palavras, que eram substituídas através da justaposição de outras. Esta ferramenta tinha como último propósito eliminar completamente conceitos ligados ao pensamento crítico individual, e simplificava cada vocábulo de forma a ser impossível exprimir ideias contrárias ao Partido. Funcionava como uma gradual e profunda alteração do raciocínio crítico, que tinha como último objetivo eliminá-lo por completo. O exemplo de “1984” como alegoria da realidade não é novo, mas revela-se sempre pertinente.

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Também hoje presenciamos os efeitos da simplificação intencional do discurso, mas em vez da supressão de vocábulos, assistimos ao desrespeito flagrante pela verdade e à desconsideração de argumentos e informação relevante. Esvaziam-se explicações complexas, dando primazia à noção simplista e radical do mundo. A desinformação que prolifera nas redes sociais está apoiada em mensagens sensacionalistas apelativas, criadas e formuladas para serem facilmente perceptíveis.

A complexidade da ciência, da história e da política democrática é desvalorizada de forma a perder toda a sua credibilidade. O verdadeiro raciocínio crítico dos cidadãos está, por isso, a perder-se aos poucos. A procura da verdade tornou-se subjetiva. Há uma realidade alternativa no “feed” de cada um, potenciada por algoritmos desenhados para agradar a todos.

A capacidade de filtrar e julgar conteúdos e opiniões está a dissolver-se no meio do ensurdecedor fluxo de informação no meio digital, que dá prioridade à rápida captação de atenção do utilizador. A rapidez de acesso e partilha nos meios digitais não é compatível com a necessária demora da análise crítica e comparativa. O discurso simplificado e redutor – típico de populistas e demagogos – acaba por dominar. Na era da informação, aumenta a iliteracia mediática, apoiada na personalização de conteúdos.

A grande diferença entre a sociedade contemporânea ocidental e o mundo de “1984” é a crença atual no poder individual. O acesso aos conteúdos digitais, à informação, às notícias é virtualmente possível a todos, o que reforça a ideia de julgamento crítico e democrático. Mas, sendo que cada conteúdo é adaptado a comportamentos digitais individuais (muitas vezes irrefletidos), a avaliação da informação está sempre sob inevitável influência, potenciada pela ideia de pertença a uma comunidade like-minded (veja-se o exemplo dos “terraplanistas”).

A liberdade de informação fica, por isso, fortemente condicionada. O necessário debate tolerante, que possibilita a democracia, fica colocado em causa pela ausência total de cedências. Os indivíduos vêm nos factos versões distintas da realidade. A informação não é mais analisada, mas adaptada conforme as crenças já existentes.

O discurso moderado desaparece gradualmente, sendo substituído por posições extremistas, apoiadas na simplificação radical. A pluralidade, a complexidade e diversidade sociais são desvalorizadas e descredibilizadas. Gera-se medo da diferença. Nasce o radicalismo, o negacionismo, o cepticismo perante as instituições democráticas, que perdem força face ao facilitismo aparente do populismo.

Não é viável simplificar um mundo que se quer complexo e plural. A sociedade democrática carece de debate profundo e rigoroso. Simplificar a realidade minimiza a sua compreensão e conduz ao radicalismo. É tempo de alargar o pensamento, e não de reduzi-lo.

 

Artigo de opinião originalmente publicado em  https://forumdemosnet.wordpress.com/2020/10/29/novilingua-fake-news-e-outras-ilusoes-por-sofia-craveiro/

Demasiada concordância

Ter os olhos postos no que se passa lá fora não pode ser razão para encolher os ombros perante o que se passa cá dentro. 

No mesmo dia em que (finalmente) os líderes europeus chegam a acordo quanto aos valores da "bazuca" (que supostamente nos vai resgatar da crise Covid-19 e tornar a Europa mais verde e digital) foi aprovado (em votações indiciárias) o fim dos debates quinzenais em Portugal

A coincidência de calendário desviou as atenções do público para Bruxelas, levando a uma lamentável desvalorização mediática de uma mudança tão relevante para o funcionamento da democracia. Se a proposta (elaborada pelo PSD) for aprovada no parlamento António Costa só terá de ir à Assembleia da República responder a questões de dois em dois meses (os debates são mensais, mas o primeiro-ministro irá alternar a presença com outros governantes). Este assunto tem passado demasiado incólume no debate público e quase parece que é vontade dos intervenientes que assim seja. 

 

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Foto: Inácio Rosa/LUSA

Que António Costa não achava graça ao regime quinzenal já era sabido (em Novembro de 2013 já ele tinha criticado o modelo que descrevia como “uma das invenções mais estúpidas que a Assembleia da República teve nos últimos anos”.). Estranho é que o PSD, o maior partido da oposição, tenha sido quem avançou com a proposta que reduz as ocasiões para questionar o atual chefe de Governo.

Acho demasiado dúbias as motivações de Rui Rio para apresentar esta proposta. Onde está o interesse público no meio desta tentativa de "enobrecer os debates com o primeiro-ministro e o Governo”, nas palavras do próprio líder social-democrata? O que pode motivar esta iniciativa senão interesses próprios de governação futura? Tudo isto é estranho e soa demasiado a complô do Bloco Central...

 

Rio não está sozinho – o PS apoia o fim dos debates quinzenais. Que o líder do PSD não entenda que com esta vertigem antiparlamentar e populista alimenta o monstro que ameaça as democracias ocidentais é uma pena. Que o PS o “ajude” a deixar “o primeiro-ministro trabalhar” é igualmente lamentável. 

Ana Sá Lopes, diretora-adjunta do jornal Público

 

Se no início da pandemia aplaudi a postura de "colaboração" que Rui Rio assumiu na Assembleia da República, agora já me parece que a parceria foi um bocadinho longe demais. Até dentro do PSD há vozes a levantar-se contra esta proposta:

De entre as profundas mudanças no funcionamento do Parlamento introduzidas em 2007, uma há que, tanto no universo da política, quanto fora dele, tem sido vista como uma significativa melhoria, pela dimensão acrescida que trouxe ao escrutínio político do Governo, mas também à sempre necessária vivacidade do trabalho parlamentar – trata-se, precisamente, do modelo dos debates quinzenais. Para quê, então, mudar o que está bem? 

José Matos Correia, ex-deputado do PSD

Os partidos que fizeram campanha a referir a importância de "melhorar a qualidade da democracia" (ver programas eleitoriais do PS e do PSD) mostram que não valorizam a pluralidade e o confronto de ideias. Ou pelo menos não com tanta frequência.
A diminuição da periodicidade dos debates com o primeiro-ministro é uma redução desnecessária do escrutínio ao Governo. É verdade que muitas vezes a discussão parlamentar descarrila para clubismo partidário, mas isso não pode ser motivo para regredir desta forma. 

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Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

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