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IN.SO.LEN.TE

Verdades oficiais e neutralidades absolutas – com Irene Flunser Pimentel

Dizem que a História se repete. Que, de uma forma ou de outra, os acontecimentos sucedem-se de maneira mais ou menos semelhante, alternando entre progresso e declínio, prosperidade e recessão, guerra e paz. Dadas as particularidades do momento presente, como podemos então começar a pensar em classificar esta década?

Irá a pandemia dar lugar a um entusiasmo frenético, como aconteceu na década de 20 do século passado? Ou vamos antes afundar a motivação nos efeitos da crise que ainda está para vir? Irá esta falta de contacto físico vai afetar ainda mais a crescente polarização social? Irá a nossa sociedade fragmentar-se cada vez mais?

Não sendo possível prever o futuro, falei com a historiadora Irene Flunser Pimentel sobre estas e outras questões, numa conversa que podia alargar-se ao infinito. Afinal a compreensão do passado, pode sempre dar algumas pistas para o futuro, mais que não seja para nos fornecer uma antevisão das consequências de repetir os mesmo erros.

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Foto: Global Imagens

Uma das coisas que se torna inevitável questionar é como será o mundo pós-pandémico, e de que forma podemos compará-lo com o que aconteceu no século XX, em particular no que aos extremismos diz respeito.

“O ser humano tem determinadas componentes na sua essência que se repetem, como por exemplo o egoísmo. Há momentos mais altruístas e outros mais egoístas. Há momentos em que se luta pela liberdade de todos e há outros em que se quer a liberdade própria e eliminar a liberdade dos outros ou inclusive colocar os outros fora da nossa comunidade ou da nossa sociedade. E o que me parece haver neste momento, também devido a anos de individualismo - e o liberalismo económico acho que tem também alguma responsabilidade – é que os valores da solidariedade e aqueles da Revolução Francesa de 'Liberdade, Igualdade, Fraternidade'... os dois últimos estão um bocadinho fragilizados.”

Irene Flunser Pimentel

Será então que o facto de vivermos agora mais isolados uns dos outros vai agravar esse egoísmo? Vamos pensar mais em nós próprios?

 

“Repare, esta pandemia tem uma característica terrível, como as outras tiveram, como a pneumónica,  a peste na Idade Média [teve] etc. Que é o quê: o perigo é o outro. Ou seja o perigo é aquele que está já contaminado e que não pode contaminar ou contagiar. E esta coisa de nós ficarmos entre nós... a própria ideia de confinamento, da máscara, tudo isso é um bocadinho para nos isolarmos relativamente ao exterior porque do exterior pode vir o perigo, pode vir o contágio.”

“Mesmo os nossos estados mais democratas evidentemente que têm que limitar determinadas liberdades, como a liberdade de circulação. E isso tudo também provoca um perigo de autoritarismo.”

 

“Portanto nós estamos numa espécie de um período muito complicado porque o que se está a passar é uma tragédia (e devemos dizer o nome). Não vou comparar com guerra, porque a guerra é uma tragédia [mas] é uma coisa um bocado diferente. Isto é uma tragédia e é uma tragédia que tem repercussões sobre a vida e a morte sobretudo dos mais velhos, [tem repercussões] sanitárias e vai ter sociais e económicas gravíssimas, como o desemprego e tudo o resto.”


A historiadora referiu-me como o facto de estarmos ainda em modo suspenso não deixa antever as consequências. As nossas vidas estão como que paradas, a aguardar que a tempestade acalme. Apesar disso as lições da História são alarmantes o suficiente para nos deixar preocupados. No passado situações de crise originaram descontentamentos, estes conduziram a revoltas, e essas revoltas a extremismos que se consolidaram no poder sob a forma de ditaduras.

“E repare que nós estamos a seguir exatamente o modelo norte-americano do Trump das fake news e da desinformação, que é uma situação em que algumas pessoas já nem sabem o que é que é verdade e o que é que é mentira. Tudo se equivale. Isto por exemplo na minha geração [que viveu a ditadura do Estado Novo] esse aspeto, não existia e agora existe e é transportado pelas redes sociais e é transportado até pela própria comunicação social”

A verdade, passa assim a ser arbitrária, condizente com as crenças que cada um já possui. Por isso a historiadora afirma que passa a existir uma "dicotomia".

“Isto radicaliza-se e às tantas assume um aspeto em que já nem há a possibilidade de discutir o que quer que seja. É terrível.”

Um dos exemplos desta impossível conciliação de visões foi o caso recente de Marcelino da Mata, que voltou a pôr o dedo na ferida aberta que ainda é a Guerra Colonial. Irene Flunser Pimentel considera importante falar sobre esta questão, sobre aquilo que diz ser "o nosso grande tabu". O problema está em como discutir o que quer seja se as visões do mundo estão a polarizar-se de forma tão aguerrida...

“Nós estamos a ficar uma sociedade um bocadinho parecida com o Brasil e os Estados Unidos. Uma sociedade muito intolerante relativamente aos outros e às opiniões dos outros.”

É talvez por isso que continuam a surgir discussões tão opostas que tornam impossível qualquer tipo de conciliação. Veja-se a polémica em torno dos monumentos nacionais, que continua manter na agenda a alegada necessidade de remover ou derrubar elementos que há tanto tempo ocupam o nosso espaço público. O exemplo mais recente (embora haja muitos outros) é o Padrão dos Descobrimentos. Ascenso Simões, deputado do PS, chamou-lhe “mamarracho” e disse que “num país respeitável, deveria ter sido destruído”.

“De repente há duas grandes forças: uma que quer a destruição e outra que admite que “estão aqui a quererem eliminar a nossa arte e o nosso património”. E depois há pessoas como eu por exemplo [risos] que acho que não deve ser nada derrubado e destruído. Agora deve ser é contextualizado na época em que foi construído, [ver] como movimento o que é que representou.”

 

“[Veja-se] a Ponte 25 de Abril. É a coisa mais típica: era Ponte Salazar, e não se foi destruir a ponte porque era "Salazar". Fez-se muito melhor que é utilizar a ponte e chamar-lhe outro nome.”

“Nesses períodos revolucionários há muito isso, até porque se quer eliminar [o passado] e faz todo o sentido remover os símbolos do antigo regime. Mas nós não estamos num período desses. E depois, quem é que decide? Quem é que tem o direito de decidir se se destroi, vandaliza-se, ergue-se...?

Irene Flunser Pimentel explicou-me que há vários exemplos de monumentos que, não sendo derrubados foram adaptados, recolocados ou contextualizados, de forma que, mesmo não sendo representativos dos valores atuais, nos relembram do longo caminho que foi feito para os conquistar e implementar.

É que a verdade pura e dura é não conseguiremos nunca mudar a História, mas esta deve ser estudada e retratada da forma mais fiel possível, de forma a evitar a sua instrumentalização política. A chave está em ter a consciência que, apesar de tudo, nunca ninguém está livre de uma certa parcialidade.

“Nós vivemos em democracia e não queremos uma "verdade oficial.”

“Até podemos estar de acordo com essa verdade, tipo “o colonialismo é horrível”, a "Guerra Colonial foi terrível", mas não queremos que seja o Estado ou o Governo a impor isso, porque isso não é democrático.

“Eu digo sempre não que há neutralidade absoluta. É evidente que nós somos marcados por tudo o que vivemos agora. O que nós temos que fazer é saber isso.

"E eu por exemplo, quando comecei a estudar a PIDE, eu tinha uma ideia da PIDE que atacava toda a gente, que prendia toda a gente. E depois fui verificar que essa hipótese estava completamente errada. Portanto nós temos é que deixar um espaço intelectual aberto. Estarmos atentos aos nossos preconceitos e às nossas ideias feitas e tendermos para um máximo de neutralidade possível, porque não há neuturalidade absoluta.”

Irene Flunser Pimentel

Memória e cultura política - com Eduardo Gageiro

“Não saio muito à rua ultimamente, mas vejo que a nossa sociedade…quanto a mim começa a ficar muito polarizada não é?”

Foi assim que começou a última conversa que tive com Eduardo Gageiro, nome maior do fotojornalismo, que documentou o Portugal da ditadura, a Revolução de Abril e o mundo que se lhe seguiu.

Estando na primeira fila de tantos e tão grandes momentos pensei que seria com certeza interessante perceber qual a sua visão da actualidade. A poética das suas imagens sempre me inspirou, por serem capturas perfeitas de emoções momentâneas repletas de significado. Vêem-se vidas inteiras em cada retrato que concretizou.

Nesta altura em que a pandemia veio alterar todos os aspectos da nossa vida confessou-me estar profundamente triste por estar a viver algo tão marcante sem o poder fotografar.

“Não tenho saído de casa ultimamente. O médico disse-me que, com a minha idade - já tenho 85 anos - podia ir desta para melhor.”

“Gostava de ter fotografado as consequências da pandemia e a pandemia em si. Gostava de ter feito fotografia a doentes, a pessoas da rua… mas eu não saio. Sabe que eu quando saio levo sempre a maquina fotográfica. Eu não andar com a máquina fotografia, para mim é um sacrifício, é terrível. De forma que, olhe, estou em casa, a fazer projectos…”

Entre esses projectos a predilecção é fazer livros. É um trabalho moroso e solitário, mas que afirma ser absolutamente necessário para conseguir a qualidade que pretende.

“Sabe que eu levo muito tempo a fazer os livros. Eu levo anos a fazer um livro, porque é pensado, é um livro feito com amor. [Quando o faço] não estou a pensar só na parte financeira, nem pensar. Eu tenho que sentir o livro, compreende? De forma que levo anos.”

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Foto: Feira da Ladra, 1964. Eduardo Gageiro (publicação autorizada) 

 

Falando de livros tornou-se inevitável referir a desmaterialização dos bens culturais fomentada pela tecnologia, e de como isso afeta a nossa percepção. A verdade é que, queiramos ou não, a componente sensorial de um objecto físico não pode nunca ser substituída pelos meios digitais. Os livros em papel continuam a ter um encanto, uma “aura” que não é passível de reproduzir online, mas a conjuntura não lhes tem sido favorável. Em tempo de restrições à circulação, os livros sofrem as dores do confinamento. Os livros e, claro, os jornais em papel, que apesar de todas as contrariedades teimam em estar presentes nas galerias ondulantes que são os quiosques. Na opinião do fotógrafo continuam a ser absolutamente essenciais.

“É pena o grande público não comprar tanta imprensa escrita percebe? Porque têm acesso à televisão, têm acesso a outros meios tecnológicos. Para mim o papel, o jornal é tudo."

 

"Ver aquilo impresso, sei lá…sinto-me mais ligado aos assuntos. Eu, se vejo uma coisa impressa, eu repito, leio várias vezes. Porque na verdade há coisas que merecem ser lidas mais do que uma vez. [Já] a imagem rápida, digital é uma coisa fugaz não é?"

 

"Eu acho que [o meio digital] é necessário, mas o jornal também é necessário. Os livros também, que cada vez se fazem menos… tudo isso, além de afetar todo o mundo afeta-nos também… digamos… a nossa mente não é?"

Eduardo Gageiro fazia uma observação que eu subscrevo: a nossa capacidade de percepção, de avaliação dos conteúdos, de julgamento é alterada. A palavra impressa perdura na matéria e na memória de uma forma muito característica.

“É diferente. Por isso é que eu levo tanto tempo a fazer um livro. É preciso perder tempo, mas para quem gosta dá um prazer que não queira saber. É uma coisa que me dá prazer, nos livros, é contar uma história, conseguir que as fotografias se encaixem umas nas outras, como seja um filme.”

A ideia é, portanto, transmitir a narrativa das imagens para o próprio objeto onde se inserem. As fotografias de Eduardo Gageiro são importantes elementos de memória histórica que trazem até ao presente pequenos pedaços do passado que por vezes caiem no esquecimento.

É este, diz o fotógrafo, o nosso grande problema. Não aprendemos com os erros já cometidos, correndo o risco que aconteçam de novo. Não somos capazes de nos abstrair de nós mesmos para ter uma visão mais abstracta das possibilidades, sejam elas boas ou más. É talvez por isso que precisamos tanto de “cultura política”.

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“Eu fico impressionado porque dá-me a sensação - não tenho a certeza - que a gente jovem, que deveria fazer um Portugal muito melhor, está a desviar-se um pouco e está a cair na linguagem dos charlatães. Porque quem lê, quem estudar como é que o fascismo começa é precisamente assim, com este tipo de linguagem e com este tipo de estratégia. É fácil conquistar a gente jovem só com, digamos, falsas promessas e com o “susto” de ditaduras, neste caso, de esquerda (o que não acontece não é?).

[Parece] que as pessoas não pensam, nem têm cultura. Não têm cultura política nem cultura geral para saberem realmente onde se podem meter (que é num poço). Porque se vir o estilo de linguagem, por exemplo, deste “fascistóide” chamado André Ventura verá que aquelas frases feitas vêm do Hitler, do Mussolini…

(...)

“O nosso mal é que as pessoas se deixam embarcar pelo canto do cisne, quando aquilo é tudo falso. Se reparar bem todos os discursos que ele fez não apresentou uma [única] ideia coerente.”

Infelizmente tal não impediu o povo português de validar, de certa forma, esse discurso. Como bem sabemos o populismo teve uma forte adesão nas últimas eleições presidenciais, deixando no ar a convicção de que continuará a crescer. Estamos a perder a cultura e a memória? Será que o nosso esquecimento coletivo vai continuar a empurrar-nos para o autoritarismo?

"Nós não vamos deixar, eu, se for vivo não vou deixar.”

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Foto: Sacavém, 1951. Eduardo Gageiro (publicação autorizada)

Não deixemos.

 

Ainda sabemos o que é a liberdade? - As respostas que me deu Vasco Lourenço (parte II)

Nos dias que correm é preciso sangue frio para não virar extremista. É quase impossível manter uma postura ponderada perante as barbaridades que se lêem e ouvem atualmente. Há "opiniões" tão absurdas que podiam ser só ridículas se não fossem absolutamente revoltantes.

Há menos de um mês os cânticos de natal ensurdeciam-nos para os riscos que escolhemos ignorar. Todos ficámos felizes por ter a consoada no sapatinho, alguns um pouco chateados com falta da passagem de ano. Semanas depois os números de infetados com Covid-19 aumentam, mas não nos revoltamos com as nossas próprias atitudes. Apontamos o dedo ao Governo, porque se nos tivesse proibido em condições nada disto teria acontecido!

Afinal que liberdade queremos nós? A de agir? Ou a de aliviar a consciência?

Com o agravamento incontrolável da pandemia vejo, por um lado exigências de fecho de escolas, e vejo, por outro cidadãos indignados com tamanhas restrições. Por vezes ambas as visões coexistem na mesma pessoa. Há até quem afirme que nunca se viveu "repressão" como a que vivemos agora (?!), coisa que acho absolutamente inacreditável...

Se a liberdade significa responsabilidade não estaremos a entrar em contradição? As restrições que enfrentamos são fruto de atitudes coletivas, não de iniciativas de repressão impostas de forma arbitrária.

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Foto: DR

Com esta ideia em mente, apresento de seguida a segunda parte (podem ler a primeira aqui) de uma conversa com alguém que lutou pela liberdade enquanto valor coletivo e enquanto condição para uma sociedade mais justa.

Parto diretamente de onde tinha ficado: a ideia de cooperação para conseguir justiça social.

Questionei o Coronel Vasco Lourenço sobre a suposta “subsidiodependência” que dizem vigorar em Portugal. Será esta uma afirmação que faz sentido?

“Para já, [esse] é mais um aspeto demagógico e populista, em que se pega em algumas situações existentes, se generalizam, e se deita fumo para os olhos das pessoas. É evidente que qualquer sociedade devia procurar a maior igualdade possível e a maior justiça social possível. Infelizmente em Portugal é esse o aspeto que me desilude mais ao longo destes 40 anos, o do campo da justiça social. Na altura [pós-25 abril] fez-se um esforço tremendo e conseguiram-se dar passos muito significativos no campo de um aumento da justiça social."

 

"Mas nós hoje assistimos a que o vencimento maior [de quem ganha mais] pode ser mais de mil vezes superior ao vencimento menor [ou seja, de quem ganha menos], o que é uma injustiça espantosa, que, aliás, não é só no nosso país, é em todo o mundo. Eu lembro-me que aqui há uns anos, quando houve aquela grande crise, um dos problemas - as grandes movimentações internacionais que houve – [deveu-se ao] facto de 1% da população ter 99% da riqueza em todo o mundo.”

 

“Quando essas situações se criam, provocam depois situações extremas que a sociedade, para obter uma situação de paz mínima e de concórdia nacional, tem que tentar resolver. E portanto, tem que encontrar os subsídios mínimos: os subsídios para isso, os abonos para isto e para aquilo… que são panaceias. Porque a solução não deve ser essa, a solução deve ser a de criar uma sociedade em que todas as pessoas têm acesso e direito a ter uma vida razoável."

 

"É evidente que um indivíduo que clama contra a acumulação de vencimento mas que depois prova que, nessa altura que estava a clamar contra acumulação de vencimento, ele próprio tinha três vencimentos… um indivíduo desses não tem nenhuma autoridade moral para vir falar a dizer que ele é que trabalha para os outros. Deve estar a brincar comigo, como se costuma dizer… portanto é mais uma falácia, mais uma demagogia, mais uma hipocrisia - que é o sentimento que eu mais detesto, é a hipocrisia.”

 

Nesta fase - e já que se fez referência a um dos candidatos - quis falar diretamente das presidenciais. Não estava interessada em comentários sobre eventuais vencedores ou vencidos, mas antes do próprio processo eleitoral. Tenho-me questionado se a diversidade dos candidatos será um sinal positivo ou negativo: estamos perante uma saudável diversidade democrática ou assistimos a uma lamentável instrumentalização da campanha para ganhos próprios?

“É mais essa segunda hipótese do que do que a primeira. É evidente que todo o cidadão com mais de 35 anos e com os seus direitos pode concorrer desde que consiga os apoios necessários, mas, na minha opinião, a campanha presidencial está absolutamente subvertida num aspeto essencial que não tem sido considerado. Se reparar, os candidatos praticamente todos – talvez  menos o atual Presidente da República, porque está como Presidente da República - a grande maioria dos candidatos, o que é que discutem? Os poderes do Presidente? Não, [antes] discutem os poderes do Governo. Dá a impressão, a certa altura, que nós estamos a disputar umas eleições para primeiro-ministro, porque todos os dias dizem “eu fazia assim, eu faria assado” mas o Presidente da República não tem poderes para fazer isso que eles dizem que fariam! Fariam como? É que eles todos diziam “eu faria, faria, faria”… mas faria o quê? Para fazer isso teria de começar por não fazer o juramento que é obrigado a fazer, que é cumprir e fazer cumprir a Constituição. Porque se a Constituição não dá ao Presidente da República poderes executivos para ele poder fazer determinadas coisas, como é que o candidato a Presidente pode vir dizer “eu se fosse Presidente faria isto, faria aquilo, faria aqueloutro…”? Só se não cumprisse o seu próprio juramento de cumprir a Constituição! Portanto isto está absolutamente subvertido."

 

"Agora, é evidente que as forças políticas estão a aproveitar as candidaturas na sua generalidade para manter ou reforçar os poderes que têm como forças políticas e não para concorrer a Presidente da República. Isso é evidente e… e pronto, lamento. Eu gostava de ver uma campanha com uma eleição com a respetiva campanha para Presidente da República e não para o Primeiro-Ministro.

 

Assim sendo, será este um fator que irá fazer aumentar a abstenção? Sabemos que a pandemia terá impacto, mas a própria postura dos candidatos pode agravá-la…

“É evidente que eu penso que há aqui dois ou três fenómenos que vão influenciar a abstenção. O maior vai ser, de facto, a pandemia. Não tenho dúvidas (ainda que provavelmente vá ser utilizada como bode-expiatório para justificar tudo o resto que levou a uma maior abstenção). Depois há dois fenómenos que podem ser um pouco opostos e que podem, por um lado aumentar a abstenção, mas que, por outro lado, podem lutar contra a abstenção. Por um lado, a sensação que existe de que o Presidente já está eleito. São sete candidatos e há um que tem garantida a eleição. Por outro lado, a necessidade que existe, que as forças democráticas têm, de demonstrar que a força radical de direita, neonazi, tem menos força do que efetivamente tem e portanto a necessidade de impedir que essa força fique em segundo lugar.

 

"Eu, se tivesse que jogar no Totobola em relação à abstenção, confesso que não sei onde poria a cruzinha. Há aqui aspetos contraditórios…pronto… eu penso que a grande maioria das pessoas mais conscientes, mais informadas irá votar e irá fazer um esforço para votar apesar da pandemia.”

 

“Admito que grande maioria da massa que… enfim…não militante, da massa que não quer saber, que começa a ter aquela ideia [de que] os políticos são todos iguais, que é tudo a mesma coisa, que não vale a pena etc, etc… não têm a consciência de que têm um direito mas também têm um dever de exercer esse direito, que é participarem na escolha. [Dever de] não reforçarem o poder dos outros não participando, porque se eu me abstiver, estou a reforçar o poder de quem se não abstém. Estes são sentimentos contraditórios e eu confesso que neste momento não sei. Se fosse obrigado a dizer o que penso que vai acontecer… não sei qual seria a minha resposta.

 

Fiquei curiosa: O que diria um Capitão de Abril a um abstencionista confesso?

“Eu digo: o direito ao voto é um direito tão forte, custou tanto a ganhar em Portugal - durante quase 48 anos não tivemos quase direito ao voto - que é um crime as pessoas deixarem de o utilizar. E portanto, o direito deve transformar-se num dever. As pessoas devem intuir que aquele direito lhes provoca um dever. Porque eu acho extraordinariamente estúpido – e utilizo o termo com todas as letras - se eu tenho direito a participar numa escolha [mas] abstenho-me e deixo-a para os outros, que podem inclusivamente pensar o contrário do que eu penso! É uma estupidez de todo o tamanho, eu não consigo perceber! Não consigo perceber… eu admito que haja situações em que as pessoas não possam ir votar, agora desde que possam ir votar, eu não admito… não consigo conceber na minha mente como é que uma pessoa pode não ir votar!"

 

"Eu sei que as pessoas têm direito a tudo, inclusivamente a ser estúpidas, mas acho impressionante a pessoa decidir “eu não vou votar”. “Atão' não vais votar porquê, o país não é teu?”. É que a seguir são os primeiros a virem protestar contra as atitudes de quem foi eleito.”

 

“O que eu insisto é isto: se eu me abstenho de participar na decisão eu não posso depois criticar a decisão que foi assumida pelos outros, porque não tenho essa legitimidade para criticar. Se me abstenho de participar também me abstenho da capacidade de criticar. Essa é minha opinião.”

 

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Foto: Daniel Rocha/Público

 

Durante a pandemia muitas vozes se levantaram contra a declaração de Estado de Emergência. Há quem teça críticas ao facto de se recorrer demasiado a este estado de excepção. Questionei o Coronel Vasco Lourenço sobre isso. Estaremos a assistir a uma banalização do Estado de Emergência?

“Bem, eu não tenho todos os dados que me permitam colocar numa posição de decisor. A leitura que eu faço com os dados que tenho é que não se está a banalizar. Porque eu olho para o que se passa no resto dos países da Europa...e há uma [outra] coisa que eu de facto não compreendo… os comentadores, os políticos, os candidatos, por um lado gritam contra o exagero da tomada de medidas e depois dali a 5 minutos estão a dizer que essas medidas são poucas, [que] deviam ser tomadas mais e que chegam tarde demais e já se deviam ter tomado… “

 

“Eu lembro-me do clamor que foi feito contra o Governo e contra o Presidente da República para festejar o Natal, e eu lembro-me que, na altura, foi altamente criticado. E depois o clamor que se levantou e que levou o Governo a considerar que se devia fazer exceções para o Natal…O que é facto é que, como ainda há pouco um amigo meu me dizia: “se reparares a pandemia esta a demonstrar que os asiáticos têm uma consciência cívica muito superior à dos ocidentais”. Porque aqui dá impressão que só proibindo mesmo! Nós, por exemplo, entrámos hoje [15 de janeiro] em confinamento, basta ver a quantidade de pessoas que andam na rua. Basta ver o movimento automóvel que continua na rua. Porquê? Porque cada um está a aproveitar a possibilidade de passear o cão, ou de ir aqui ou além para sair à rua. Não perceberam que, quando não se teve condições políticas - e eu compreendo – [quando] o Governo não teve condições para decretar a proibição no Natal, de maiores restrições e menores concentrações, deixou à [mercê da] civilidade das pessoas."

 

“Aquilo que a mim me irrita como cidadão - e cidadão interessado na coisa pública -  é ver permanentemente toda a gente a dizer que isto não é o melhor que se devia fazer, deviam-se fazer outras [coisas], mas ninguém diz qual é a qualificação que determinadas pessoas têm para dizerem quais as medidas mais convenientes a tomar. Se nós temos um núcleo importante de técnicos a discutir e a analisar a situação, a aconselhar o decisor político…" 

 

"Agora, isto não impede que eu também seja crítico em relação a alguma descoordenação, e à falta de algum planeamento. Mas isso pronto, temos o sistema que temos, temos os governantes que temos, temos os dirigentes que temos. Não podemos ir ali mandar fabricar outro tipo de dirigentes porque também temos o povo que temos.”

 

“Nós somos o que somos. Temos demonstrado muito pouca consciência cívica, infelizmente estamos a demonstrar mesmo muito pouca consciência cívica. A responsabilidade é sempre dos outros. Nós não temos responsabilidade [nenhuma]! Você hoje vai à rua hoje [15 de janeiro], o primeiro dia de confinamento aqui em Lisboa, e encontra a cidade de Lisboa cheia. Eu não fui à rua mas pela janela vejo!

 

“É evidente que o Governo, o Presidente da República, não fazem sempre aquilo que nós achamos que era melhor fazer mas há um princípio, ao qual me habituei na vida militar: para decidir é preciso ter todas as componentes da informação, e o cidadão comum não tem as componentes todas da informação para saber qual é a melhor decisão a assumir. Portanto, eu procuro evitar colocar-me naquela posição de criticar por criticar e dizer “devia ser assim ou devia ser assado”…”

 

Infelizmente quer-me parecer que hoje em dia todos fazemos exatamente o contrário. 

Após quase duas horas de conversa coloquei a minha última questão: Como será então que fica a democracia no fim da pandemia? Reforçada por nos unirmos mesmo à distância, ou antes fragilizada por nos isolarmos cada vez mais?

“Não é fácil responder-lhe… não é fácil responder-lhe. Eu penso que há condições para que a democracia saia reforçada mas… sabe que muito do que se passou agora foi porque não conseguiram unir-se à volta do essencial e tomar medidas que evitassem que se chegasse à situação que se chegou. Estou a falar em tudo, inclusive das causas desta pandemia… as causas e as consequências. A parte ecológica, a parte do aquecimento global… de tudo isso que se passou no mundo.

 

“Só unindo esforços e, portanto, reforçando a solução democrática, só envolvendo a generalidade das pessoas, quer nas decisões (na não abstenção), quer depois na execução das decisões assumidas, só assim é que se consegue um mundo melhor. Agora, abre-se a porta (e ela está aberta, não podemos ignorá-la), abre-se a porta a ditaduras com o medo. Porque a ditadura normalmente tem como suporte maior o medo que incute nos cidadãos. Portanto, reforçando o medo de novas situações semelhantes, dando primazia às questões ditas de segurança – que às vezes não são de segurança, são de falta de liberdade, que não é a mesma coisa – portanto, isso… cá estamos em mais uma situação em que eu não me atreveria a pôr a cruzinha num sítio ou no outro [risos]. Não me atrevo a apostar. Penso é que é necessário muita coragem para lutar contra os ditadores. Penso que é necessário muita coragem para continuar a lutar pela liberdade, mas, a liberdade tem um principio que é indissociável dessa mesma liberdade: a minha liberdade termina quando começa a liberdade dos outros.


“Tem que se olhar para a liberdade em termos de coletivo e não em termos de interesses individuais. E há que não confundir segurança com repressão. Porque eu posso garantir a segurança mantendo a liberdade do coletivo... e pronto, é isso…”

Vasco Lourenço

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Depois disto, nada a acrescentar.

Apenas mais um obrigado pelo apelo à nossa consciência. 🌹

"Bjo de Abril"

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Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

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