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IN.SO.LEN.TE

Discuti com um perfil falso

Já não é novidade o facto de que o único partido de extrema-direita com representação parlamentar em Portugal se serve de perfis falsos para espalhar desinformação. A técnica não é nova e é comum a outros populistas que, não conseguindo crescer honestamente de acordo com as suas ambições, falsificam popularidade, servindo-se das redes sociais para fingir números e fomentar discórdia. É uma técnica eficaz e barata de conseguir contaminar a opinião pública, usando os tentáculos do extremismo para injetar indignação.

Não o planeava mas tive, recentemente, um contacto direto com um destes perfis falsos.

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A história remonta há cerca de uma semana atrás, quando o jornal Público anunciou que iria alterar a sua política de comentários no site. O diário explicava que iria passar a implementar "um limite diário de dois comentários submetidos por leitores não-assinantes" e "um limite diário de três acções de moderação (rejeição e aprovação de comentários) aos moderadores não-assinantes". Isto porque o Público tinha já implementado um sistema de moderação de comentários baseado na comunidade, que se revelou insuficiente. Neste sistema os utilizadores eram classificados de acordo com o número e qualidade de interações efetuadas no site, sendo distribuídos em níveis que lhes concediam - nos patamares mais altos - a possibilidade de moderar comentários de outrem.

Apesar do contributo positivo da maioria dos nossos leitores, o modelo de automoderação da comunidade deixou de garantir por si só a qualidade dos comentários publicados e tornou-se fonte diária de conflito, degradando a experiência de leitura do PÚBLICO e obrigando à intervenção permanente da redacção.

Público

 

Pessoalmente compreendo e aceito a mudança, razão pela qual tive a (comprovadamente infeliz) ideia de expressar a minha opinião na caixa de comentários do Facebook desta notícia. Fi-lo pois verifiquei a estupidez generalizada de pessoas que compararam esta ação a um ato de censura, fazendo absurdas alusões à Coreia do Norte, ao "lápis azul", ao Estado Novo, etc. Não consegui conter-me e comentei apenas que:

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Sei que hoje é impossível concordar com o que quer que seja sem se ser apelidado de ingénuo ou burro, mas mesmo assim insisti. Estava pronta para lidar com os céticos de profissão que se acham donos das certezas.

Não tardou a que recebesse respostas a indicar a mesmíssima bazófia já descrita anteriormente, demonstrando que estes "comentadores" não fazem ideia do que é a Coreia do Norte nem a censura. 

Já me tinha decidido a ignorar a ignorância quando um tal de "Miguel Alves" decide também implicar com as minhas opiniões. Achei então que talvez valesse a pena perder tempo, e escrutinar porque motivo a limitação de comentários era para ele algo tão alarmante:

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Escusado será dizer que as respostas que obtive foram nada mais que vazias:

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Porque motivo perdi o meu tempo e esforço a relatar esta lamentável tentativa de elucidação? Pelo motivo que se segue:

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As minhas suspeitas confirmaram-se. "Miguel Alves" tinha uma imagem genérica retirada de um filme como foto de perfil e outra igualmente impessoal na capa. Não tinha qualquer tipo de registo de atividade ou partilha. Nos interesses existiam apenas gostos em páginas de jornais, na página da Direção-Geral de Saúde e, sim, no perfil do Chega. 

"Miguel" era um perfil falso e sei-o pois, se forem hoje mesmo ao seu perfil (aqui), vão verificar que o mesmo não existe, que foi apagado após a minha denúncia, e que agora, naquela caixa de comentários (que podem ver aqui) surjo apenas eu, a falar para alguém que não existe, pois tudo foi eliminado.

Independentemente da relevância da notícia em causa ou sequer do tema acredito na importância da partilha desta história. No meu caso bastou fazer a pesquisa da sua imagem de perfil no Google Images para confirmar imediatamente que se tratava de um excerto de um filme. Além disso a falta de atividade e as páginas de que gosta são um sinal claro: neste caso só interagia com orgãos de comunicação social, com a DGES, e com o partido Chega.Não foi, por isso, difícil perceber que era um perfil falso, mas há casos em que pode tornar-se mais complexa essa identificação.

Não podemos deixar que façam de nós parvos.Estar atento e informado é melhor arma contra os extremismos. :)

 

Cegueira de um país

«Pior cego é aquele que não quer ver»

...ou alguma coisa parecida com isto, é o provérbio que melhor se adequa a Portugal neste momento. Acho hilariante que, no país onde impera a perplexidade perante as constantes mudanças de posição de Donald Trump, ou o escandaloso negacionismo de Bolsonaro, se observe um crescimento drástico do partido que procura agir como eles.

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Foto: José Sena Goulão/LUSA

Segundo uma sondagem feita pelo Centro de Estudos e Sondagens de Opinião (Cesop) da Universidade Católica para o PÚBLICO/RTP (entre os dias 13 e 18 de Julho, com 1482 inquéritos válidos): 

A subida do Chega destaca-se das demais oscilações. Trata-se de um partido que elegeu um deputado em Lisboa (...) e que nesta sondagem aparece com a dimensão eleitoral de partidos como o BE ou a CDU”. Os peritos lembram que “sondagens são sondagens” mas que os dados deste inquérito mostram inequivocamente que este é o partido que mais está a crescer nesta legislatura”. 

Ou seja, mesmo perante as notícias sobre a ligação a pastores e líderes evangélicos, notícias que relatam que o partido defendeu, no programa eleitoral, o fim dos serviços públicos na educação e saúde, que integra grupos de extrema-direita (mas que negou ser de extrema-direita), que André Ventura falta a debates na Assembleia da República para fazer propaganda pelo país, que possui ligações a empresários poderosos (alguns dos quais ligados ao fornecimento de armas ao Estado), que o partido faz crescer a audiência com base em perfis falsos nas redes sociais, ainda há pessoas que acham que é uma opção a considerar para o país!? Já esperava que o partido crescesse assim que pusesse o pé na AR - a exposição mediática não podia senão favorecê-lo - mas confesso que não esperava um crescimento tão expressivo num tão curto espaço de tempo. Especialmente tendo em conta que caímos numa crise pandémica para a qual Ventura nunca deu contributo algum.

Não compreendo como, perante estas evidências, muitos ainda consideram que "ele diz o que ninguém quer dizer". Se o discuro político do Chega é tão "fácil de compreender" então é porque é construído sem complexidade e profundidade. 

A "simplicidade" das afirmações é feita com base na omissão de pormenores relevantes. É fácil dizer o que a população quer ouvir, quando se omite as condicionantes a que a concretização dessas propostas obrigaria.

Política não é simples. Democracia muito menos. Fazer e apresentar as propostas de modo descomplexo e redutor é, pura e simplesmente, desconsiderar universos que não podem ser desconsiderados quando se vive numa sociedade justa e plural. Simplificar é reduzir. Reduzir é limitar. Ponto final. 

 

 

 

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Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

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