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IN.SO.LEN.TE

Memória colonial: Marcelino da Mata e Mamadou Ba

A polémica em torno de Marcelino da Mata mostra bem as divisões que persistem em Portugal.

Por ter sido o militar mais condecorado do Exército o seu funeral teve direito à presença de ilustres, mas, por ter levado a cabo inúmeros assassínios durante a missão na Guiné, a sua memória não está livre de contorvérsia.

Durante a Guerra do Ultramar as pretensões colonialistas de Portugal foram honradas por este homem que, cumprindo ordens, levou a cabo a missão que lhe propunham. Essa missão envolvia a invasão de territórios, o bombardeamento de povoações e a aniquilação de quem se opusesse. Por isso mesmo as condecorações de que tanto se fala são prévias à Revolução dos Cravos, e foram entregues durante um regime ditatorial que tinha na censura um dos seus pilares. 

No entanto, à luz da nossa consciência atual, as suas ações são altamente censuráveis, precisamente porque condenamos o contexto que as motivou: o colonialismo.

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O piloto Miguel Pessoa ao ser resgatado pelos Vingadores, o grupo de operações especiais chefiado por Marcelino da Mata, (que na foto empunha uma catana).

Foto do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné

 

A própria vida de Marcelino da Mata reflete bem as diferenças de percepção adoptadas pelo país que ele escolheu defender: passou de militar condecorado a prisioneiro no PREC e acaba por morrer num contexto de aparente desvalorização. A notícia do seu falecimento passou virtualmente incólume e, note-se, só criou ruído quando os obituários geraram tantas críticas quanto elogios.


Neste momento, ainda não sabemos o que a Pátria, sempre ingrata, reservará à preservação da sua memória. Contudo, o seu nome e feitos há muito que fazem parte da História e da memória das nossas gentes.

José de Carvalho in Público

Veja-se a citação anterior, retirada de um artigo de opinião de José Carvalho no Público. Escolhi esta frase não por concordar com o mote do artigo (que exclama a glorificação do falecido militar) mas porque, talvez involuntariamente, reflete bem o que de facto de passa. Marcelino da Mata faz parte da nossa História, certo, mas a nossa concordância com essa mesma memória é o que influencia a corrente opinião sobre as suas ações. As diferentes interpretações do passado são, em última instância, o que dita as nossas posições no presente. Não consigo deixar de comparar esta polémica à da vandalização de estátuas, que aconteceu no ano passado. Também aí a razão da discórdia estava profundamente relacionada com a diferença de contextos e com a forma como esses contextos são encarados à luz da atualidade.

"É tempo de se falar sobre estas história de forma muito pragmática e analítica. O colonialismo foi algo hediondo e Marcelino da Mata é fruto disso e os comandos são fruto de um regime que massacrou pessoas durante mais de 500 anos".


"Não se pode olhar para a história de África dessa altura com os olhos de hoje. Para avaliar Marcelino da Mata é preciso olhar a história de Portugal na Guiné e inseri-lo nesse contexto."

Sofia Palma Rodrigues, doutoranda em Pós-Colonialismos, in DN

A condenação do colonialismo não é consensual. Isto é bastante claro. E fica ainda mais claro quando há partidos que reivindicam luto nacional após a morte de tão polémica figura - e não, não me refiro àquele que já sabemos que gosta muito de capitalizar ódios.

Também é claro que, mesmo passados tantos anos, a Guerra do Ultramar e os atos que se ali praticaram são alvo de um desconcerto tal que originam coisas tão absurdas como uma petição para deportar Mamadou Ba. O que está aqui a acontecer é que um enorme grupo de cidadãos quer que seja discutida no Parlamento a possibilidade de expulsar de Portugal alguém que disse uma coisa com a qual não concordam. Nas entrelinhas podemos ainda ler que consideram inadmissível criticar quem matou indiscriminadamente em defesa do colonialismo. 

É óbvio que esta polémica irá esfumar-se como aconteceu a tantas outras. O que está longe de desaparecer é a nostalgia ingénua que deturpa a realidade dos factos. O descontentamento crescente vai continuar a motivar indignações absurdas, especialmente porque o absurdo está cada vez mais normalizado.

Memória e cultura política - com Eduardo Gageiro

“Não saio muito à rua ultimamente, mas vejo que a nossa sociedade…quanto a mim começa a ficar muito polarizada não é?”

Foi assim que começou a última conversa que tive com Eduardo Gageiro, nome maior do fotojornalismo, que documentou o Portugal da ditadura, a Revolução de Abril e o mundo que se lhe seguiu.

Estando na primeira fila de tantos e tão grandes momentos pensei que seria com certeza interessante perceber qual a sua visão da actualidade. A poética das suas imagens sempre me inspirou, por serem capturas perfeitas de emoções momentâneas repletas de significado. Vêem-se vidas inteiras em cada retrato que concretizou.

Nesta altura em que a pandemia veio alterar todos os aspectos da nossa vida confessou-me estar profundamente triste por estar a viver algo tão marcante sem o poder fotografar.

“Não tenho saído de casa ultimamente. O médico disse-me que, com a minha idade - já tenho 85 anos - podia ir desta para melhor.”

“Gostava de ter fotografado as consequências da pandemia e a pandemia em si. Gostava de ter feito fotografia a doentes, a pessoas da rua… mas eu não saio. Sabe que eu quando saio levo sempre a maquina fotográfica. Eu não andar com a máquina fotografia, para mim é um sacrifício, é terrível. De forma que, olhe, estou em casa, a fazer projectos…”

Entre esses projectos a predilecção é fazer livros. É um trabalho moroso e solitário, mas que afirma ser absolutamente necessário para conseguir a qualidade que pretende.

“Sabe que eu levo muito tempo a fazer os livros. Eu levo anos a fazer um livro, porque é pensado, é um livro feito com amor. [Quando o faço] não estou a pensar só na parte financeira, nem pensar. Eu tenho que sentir o livro, compreende? De forma que levo anos.”

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Foto: Feira da Ladra, 1964. Eduardo Gageiro (publicação autorizada) 

 

Falando de livros tornou-se inevitável referir a desmaterialização dos bens culturais fomentada pela tecnologia, e de como isso afeta a nossa percepção. A verdade é que, queiramos ou não, a componente sensorial de um objecto físico não pode nunca ser substituída pelos meios digitais. Os livros em papel continuam a ter um encanto, uma “aura” que não é passível de reproduzir online, mas a conjuntura não lhes tem sido favorável. Em tempo de restrições à circulação, os livros sofrem as dores do confinamento. Os livros e, claro, os jornais em papel, que apesar de todas as contrariedades teimam em estar presentes nas galerias ondulantes que são os quiosques. Na opinião do fotógrafo continuam a ser absolutamente essenciais.

“É pena o grande público não comprar tanta imprensa escrita percebe? Porque têm acesso à televisão, têm acesso a outros meios tecnológicos. Para mim o papel, o jornal é tudo."

 

"Ver aquilo impresso, sei lá…sinto-me mais ligado aos assuntos. Eu, se vejo uma coisa impressa, eu repito, leio várias vezes. Porque na verdade há coisas que merecem ser lidas mais do que uma vez. [Já] a imagem rápida, digital é uma coisa fugaz não é?"

 

"Eu acho que [o meio digital] é necessário, mas o jornal também é necessário. Os livros também, que cada vez se fazem menos… tudo isso, além de afetar todo o mundo afeta-nos também… digamos… a nossa mente não é?"

Eduardo Gageiro fazia uma observação que eu subscrevo: a nossa capacidade de percepção, de avaliação dos conteúdos, de julgamento é alterada. A palavra impressa perdura na matéria e na memória de uma forma muito característica.

“É diferente. Por isso é que eu levo tanto tempo a fazer um livro. É preciso perder tempo, mas para quem gosta dá um prazer que não queira saber. É uma coisa que me dá prazer, nos livros, é contar uma história, conseguir que as fotografias se encaixem umas nas outras, como seja um filme.”

A ideia é, portanto, transmitir a narrativa das imagens para o próprio objeto onde se inserem. As fotografias de Eduardo Gageiro são importantes elementos de memória histórica que trazem até ao presente pequenos pedaços do passado que por vezes caiem no esquecimento.

É este, diz o fotógrafo, o nosso grande problema. Não aprendemos com os erros já cometidos, correndo o risco que aconteçam de novo. Não somos capazes de nos abstrair de nós mesmos para ter uma visão mais abstracta das possibilidades, sejam elas boas ou más. É talvez por isso que precisamos tanto de “cultura política”.

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“Eu fico impressionado porque dá-me a sensação - não tenho a certeza - que a gente jovem, que deveria fazer um Portugal muito melhor, está a desviar-se um pouco e está a cair na linguagem dos charlatães. Porque quem lê, quem estudar como é que o fascismo começa é precisamente assim, com este tipo de linguagem e com este tipo de estratégia. É fácil conquistar a gente jovem só com, digamos, falsas promessas e com o “susto” de ditaduras, neste caso, de esquerda (o que não acontece não é?).

[Parece] que as pessoas não pensam, nem têm cultura. Não têm cultura política nem cultura geral para saberem realmente onde se podem meter (que é num poço). Porque se vir o estilo de linguagem, por exemplo, deste “fascistóide” chamado André Ventura verá que aquelas frases feitas vêm do Hitler, do Mussolini…

(...)

“O nosso mal é que as pessoas se deixam embarcar pelo canto do cisne, quando aquilo é tudo falso. Se reparar bem todos os discursos que ele fez não apresentou uma [única] ideia coerente.”

Infelizmente tal não impediu o povo português de validar, de certa forma, esse discurso. Como bem sabemos o populismo teve uma forte adesão nas últimas eleições presidenciais, deixando no ar a convicção de que continuará a crescer. Estamos a perder a cultura e a memória? Será que o nosso esquecimento coletivo vai continuar a empurrar-nos para o autoritarismo?

"Nós não vamos deixar, eu, se for vivo não vou deixar.”

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Foto: Sacavém, 1951. Eduardo Gageiro (publicação autorizada)

Não deixemos.

 

Ainda sabemos o que é a liberdade? As respostas que me deu Vasco Lourenço (parte I)

Às vezes é preciso dar um passo atrás para ver o quadro completo. Não é possível contemplar a imagem na sua totalidade se estivermos demasiado perto e olharmos apenas os pormenores. Quase sempre o afastamento confere uma visão mais abrangente e diferenciada.

Há uns dias achei que precisava disso.

No meio do circo mediático pré-eleitoral tem-se tornado difícil avaliar o que quer que seja. Entre uma pandemia a agravar-se de forma exponencial, um confinamento confuso e uma crise económica e social incontrolável não sobra lucidez suficiente para avaliar as eleições. Talvez não estejamos a encará-las com a seriedade que merecem.

Num mundo repleto de restrições é talvez fácil esquecermo-nos do quanto somos livres e do quanto isso foi difícil de conquistar.Por este e outros motivos pensei em fazer perguntas a quem pudesse ter uma perspetiva mais abrangente sobre o estado da democracia atual.

O que se segue são alguns excertos de uma longa conversa com Vasco Lourenço sobre liberdade e outros valores esquecidos.

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Foto: Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

 

Comecei por perguntar sobre o que mais me incomoda: a ascensão da extrema-direita em Portugal. O que pensa um Capitão de Abril sobre este regresso do fascismo?

“Tentando responder à questão que me coloca, eu diria que a ascensão da extrema-direita, do neofascismo, é uma realidade em todo o mundo ocidental. Não só na Europa mas nomeadamente nos Estados Unidos, e como nós temos verificado, no Brasil e noutros sítios. Em Portugal talvez porque – e é uma presunção que pode parecer…elevada – mas talvez porque aconteceu o 25 de abril e houve uma transformação, uma ruptura sem grande violência, essa ascensão tem tido dificuldade em se impor.”


“Mas isso [a extrema direita] é uma onda com que nós temos de contar e [à qual] tem que se fazer frente de duas maneiras, de uma forma global. A primeira é que os democratas cometam o menos erros possíveis, que deem os menos tiros nos pés que conseguirem. Infelizmente os governos democráticos, [têm sido manchados] pelo fenómeno da corrupção. Não temos dúvida nenhuma que nos regimes autoritários ou fascistas, como não há mecanismos de controle, de denúncia, essa corrupção é efetivamente muito maior, mas não está nos media (porque eles não deixam estar).”

 

“[Depois] há que ser intransigente dentro das regras da democracia. Porque se, por exemplo, a nossa Constituição é clara quando proíbe a existência de forças políticas que defendam ideias fascistas e não democráticas, quando há um partido que se tenta legalizar e é obrigado a apresentar o seu programa, e no seu programa estão claramente medidas de natureza fascista, é evidente que o Tribunal Constitucional não podia legalizar esse partido. Não quero ser muito contudente, mas por outro lado assistimos logo no início ele [Ventura] a dizer que já tinha alterado o programa e não sei o quê… Quer dizer, quando confrontado com medidas concretas que estão no programa [do partido], ele próprio não tem coragem para as assumir. E, portanto, é esta pusilanimidade, é esta fraqueza de ação por parte dos responsáveis, que também abre portas à progressão e ao absorver do descontentamento. E as pessoas que estão descontentes vão votar sem perceberem que estão a apoiar soluções piores do que aquelas que provocam esse descontentamento.”

 

Perante isto questionei se estaríamos a ficar desiludidos com a democracia. Depois de tanto sofrer para a conseguir implantar estará a falhar as suas promessas?

“Vamo’ lá ver, a democracia foi um sistema político que apareceu e que tem vindo a ser implementado em alguns locais, mas que é um sistema político [que], como tudo aquilo que é feito pelo ser humano tem os seus defeitos, e a democracia também tem defeitos.”


“Infelizmente, na minha opinião, o que tem acontecido é que a  democracia dá origem a dois fenómenos e que distorcem a própria democracia: por um lado as maiorias que chegam ao poder assumem-se como donas do poder e não têm presente que só são donas de parte do poder. Isto é, as minorias têm que fazer parte do poder. Mesmo que não estejam a exercê-lo têm que influenciar as decisões que o poder assume. Mas a maioria, normalmente, tende a esquecer a posição das minorias. Escuta-as mas não as ouve, isto é, [o que] entra por um lado sai pelo outro, não retira nada daquilo que a minoria está a afirmar. “

 

“[Por outro lado] a minoria exige como se fosse ela a maioria, sem perceber que o poder que lhe cabe é menor do que o da maioria. É evidente que é extraordinariamente difícil."

 

“A democracia tem defeitos, os detentores do poder cometem erros, mas nós temos alguma capacidade de lutar contra esses erros que foram cometidos. Nas ditaduras não. Nas ditaduras há poder absoluto e há a repressão daqueles que discordam, e por isso mesmo continuo a ser adepto da democracia.”

 

Nesta campanha temos um candidato a Presidente da República que diz abertamente ser contra a Constituição e o "sistema". Uma das coisas que defende é que em Portugal devia haver um reforço do regime presidencialista. Perguntei então ao Coronel Vasco Lourenço o que aconteceria se essa mudança alguma vez se concretizasse.

“Iria acontecer que, se ao lugar do Presidente chegasse lá um ditador, tínhamos a ditadura imediata. No sistema semi-presidencialista isso é muito mais difícil. Em Portugal, antes do 25 de Abril, existia um sistema parlamentarista. Depois do susto que o regime apanhou nas eleições em que roubaram a eleição ao Humberto Delgado, depois disso, eles acabaram com a eleição direta do Presidente da República e o Presidente da República passou existir tipo corta-fitas só e era eleito, escolhido, pela Assembleia Nacional. O 25 de Abril, um dos objetivos que definiu de imediato, é que tinha que acabar com esse sistema parlamentarista, que é um sistema muito complicado, principalmente quando o parlamento se divide em muitos e pequenos grupos [torna-se] muito mais difícil alguém governar o país. Isso foi muito discutido.”

 

“Nós no pacto MFA/partidos, que fez parte da Constituição, defendíamos precisamente o semi-presidencialismo porque é um sistema que evita muito mais a possibilidade de ditadura. Dá, por um lado, força aos partidos políticos na Assembleia da República e tem um poder - um poder moderador, digamos assim - que é o Presidente da República. É evidente que o sistema pode ser mais ou menos presidencialista. “

 

“Mas apesar de eu ser um defensor de um reforço quanto baste dos poderes do Presidente é evidente que continuo adepto do sistema semi-presidencialista e não do sistema presidencialista porque o sistema presidencialista poderia dar origem - e lagarto lagarto como se costuma dizer - a que um qualquer ditador de meia tigela atingisse o lugar e depois tivesse mais facilidade em impor uma ditadura.”

 

Depois disto fiquei curiosa para saber o que pensa um militar sobre o apelo de A.V. às forças de defesa e segurança. É algo que tem fundamento ou será antes perverso?

É perverso porque desde logo eles infiltraram as forças de segurança de fascistas, em que criaram...qualquer coisa "zero" não me lembro bem.. o Movimento Zero! Que são indivíduos que defendem claramente teorias neofascistas, [e que] portanto são perigosas. É evidente que as forças de segurança, mais do que as Forças Armadas - e por isso mesmo eu defendo que num país como Portugal as Forças Armadas devem ser reforçadas em relação às forças de segurança - são mais facilmente instrumentalizadas por quem está no poder administrativo. E portanto o “Aventura” como eu gosto de dizer - porque seria uma aventura se isso fosse por aí fora - ele, demagogicamente, aparece como defensor dos interesses dos profissionais das forças de segurança mas não é isso que ele está a pensar. Porque, se chegar ao poder, os primeiros a controlar seriam as forças de segurança, para que não se pudessem rebelar contra a sua instrumentalização para impor a ditadura. Enfim...ele pensa que será a força que poderia ter ali para impôr as suas ideias.

Mesmo assim não há como negar que há uma carência de recursos. Há por isso uma base de fundamento... ou não?

“Eu pergunto o que é que em Portugal não tem carência de recursos? Eu… eu farto-me de rir – rir é uma maneira de dizer - quando às vezes vejo aí uns papalvos na televisão e noutros sítios contra as deficiências que o serviço nacional de saúde tem, contra isto contra aquilo... epá o que é que em Portugal, o que é que um país como o nosso tem que esteja perfeito, sem falta de meios para as necessidades que aparecem?”

 

 “Portanto essa defesa [da ideia] de dar mais meios… sabe isso faz-me lembrar também quando nós, antes do 25 de Abril, discutíamos o problema da Guerra Colonial e dizíamos que tinha de ser encontrada uma solução política. Porque as guerras… é sempre o poder político que declara a guerra, nunca são as Forças Armadas. O poder político declara guerra para que depois as Forças Armadas criem condições para o poder político poder declarar a paz. E a solução tem que ser sempre política, porque não há guerras que tenham soluções militares pura e simplesmente. Se a solução for só militar há sempre um dos corredores que acaba por ser totalmente aniquilado. E quando nós dizíamos que a solução tinha que ser política, os fascistas na altura, a extrema-direita, defendia que a solução passava por um reforço do armamento e do equipamento das Forças Armadas portuguesas, que já estavam a perder na comparação com algum equipamento e algum armamento que os movimentos de libertação estavam a adquirir. Bem e nós, na altura, dentro da contestação que fazíamos, costumávamos dizer para esses que defendiam que a solução era o reforço do equipamento e do armamento: "pois é, dar mais armas para matar melhor é o que vocês querem!"

 

"Portanto, em termos comparativos, eu diria que o que o Chega e o “Aventura” pretendem é reforçar o poder das forças de segurança para reprimirem melhor. Isto é, eles olham para as forças de segurança como forças de repressão e não como forças de segurança, porque as polícias não servem para reprimir, servem para fazer segurança. E há uma diferença muito grande que tem que ser entendida entre o que é segurança e o que é repressão.”

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Foto: Rui Ochôa

Não consegui resistir a perguntar sobre o 25 de novembro. Vasco Lourenço já tinha afirmado publicamente que não concorda com a sua comemoração, mas - e conforme pude constatar pela conversa - isso não significa que relativize a importância do acontecimento. As suas palavras explicaram claramente as divisões que marcavam o país em 75, mas também me elucidaram sobre o facto de que as diferentes motivações da altura não serem hoje retratadas de forma fiel.

"Eu sobre isso tenho assumido muitas posições ao longo dos tempos e pensado muito para poder, digamos assim, fortalecer a minha opinião. Eu terei que lembrar o meu papel no 25 de novembro: eu, no 25 de novembro, estive do lado daqueles considerados os vencedores e dirigia o "Grupo dos Nove". Fui, na hierarquia de comando que foi estabelecida na altura do nosso lado, o número dois. O primeiro era o Presidente da República, o General Costa Gomes, o segundo era eu e o terceiro era o Ramalho Eanes, que era o meu adjunto. E portanto, assumo e continuo a assumir, as posições que tive no 25 de novembro. Porque se não se tivesse dado um acontecimento como foi o 25 de novembro, muito dificilmente o 25 de Abril se poderia cumprir como acabou por cumprir. E a sua maior conquista, na minha opinião, foi a aprovação da Constituição da República"


“Existem dois lados que continuam a olhar para o 25 de novembro de uma forma errada: à esquerda olha-se para o 25 de novembro como aquilo que evitou a revolução do que tentaram fazer, uma revolução popular ou a implantação de um regime não democrático, comunista. E por outro lado, à direita, olham para o 25 de novembro - sem terem coragem de o dizer - como aquilo que evitou um novo 28 de maio. Porque na altura do 25 de novembro houve forças que  tentaram... que estavam sob, digamos, aquilo que eu digo o “guarda-chuva” do Grupo dos Nove, dos moderados, que era assim que nós éramos conhecidos. E tentaram claramente um novo 28 maio, tentaram novamente uma ditadura e foram impedidos por nós. E eu assumo grande parte da responsabilidade disso. Considero que esse trio que eu lhe referi - o General Costa Gomes, eu e o General Ramalho Eanes - fomos essenciais para evitar isso mas eles querem comemorar…

Por isso quando hoje o CDS - que agora, p'ra mal da democracia perdeu força - quando agora as forças mais à direita vêm clamar pela comemoração do 25 de novembro, eles vêm clamar não pela comemoração do 25 de novembro como ele foi efetivamente, mas pela comemoração do 25 de novembro que evitou que os adversários do outro extremo conseguissem os seus objetivos. Esquecem que eles foram os grandes derrotados do 25 de novembro, na minha opinião.

 “Isso ficou claro na altura, no dia 27  de novembro, numa reunião que nós fizemos na Amadora, no regimento de comandos. O Jaime Neves que foi o arauto, digamos assim, desse grupo, dizia dirigindo-se ao Presidente da República, ao General Costa Gomes: “Meu General, eu e os meus homens não estamos satisfeitos. Nós queremos mais”. E fui eu que, na altura, o mandei calar e disse “Jaime chega, não digas mais”.  E eu, perante a insistência, mandei-lhe um berro e disse “cala-te que já disseste asneiras a mais!” e ele calou-se.

E portanto, eu, por exemplo, intimamente, continuo a comemorar e a assumir o 25 de novembro como a reposição dos valores do 25 de Abril . [Para ser assinalado publicamente] eu teria que salientar esta derrota da extrema-direita. E portanto não posso concordar minimamente com a extrema-direita a querer comemorar o 25 de novembro. Está a querer comemorar o quê? A própria derrota? É que eles não assumem isso e tentam camuflar isso! Eles não têm nada para comemorar, eles querem é branquear a sua atitude e querem deturpar as coisas, porque a extrema-direita e os partidos de direita, não têm nada para comemorar no 25 de novembro. Deviam era ir ao cemitério carpir mágoas por terem sido derrotados nesse dia, transformado para eles num dia de finados e não comemorar aquilo que não têm que comemorar. Eu sou contra isso e a melhor maneira de dizer isso é: o 25 de novembro continua a dividir, porque divide de facto estas três ideias sobre o que aconteceu efectivamente naquela altura. E por isso acho que o 25 de Abril deve continuar a ser comemorado, o 25 de novembro deve ser evocado. Eu, pessoalmente, continuo a evocá-lo e intimamente continuo a comemorá-lo porque me sinto um vencedor naquele dia.

" - O que venceu no fundo foi a democracia, não foi nenhuma das fações" - disse eu.

É, é  democracia que vence!

Explicou-me depois que, após o 25 de novembro, dentro do MFA existiam diferenças e discordâncias que conseguiram ser ultrapassadas numa espécie de "pré-geringonça", que culminou na Associação 25 de Abril. Levou quase sete anos para que as divisões fossem ultrapassadas mas foram, porque era esse o cerne da democracia porque tanto lutaram.

“O que eu acho é que o 25 de Abril, um dos aspectos mais positivos que tem, é que nós, apesar de nos termos andado a prender uns aos outros, fizemo-lo para conseguir garantir o cumprimento das promessas que tinham duas bases essenciais: a paz e a democracia, com o pano de fundo da liberdade. Depois tinha a ambição de construir um país mais justo, mais desenvolvido, onde as injustiças sociais fossem menores dado que infelizmente é impossível acabar com elas de vez.”

A conversa regressou ao presente com a questão da justiça social e da alegada "subsídio-dependência".

(Não me querendo alongar demasiado, optei por marcar aqui a divisão deste post. Daqui a um par de dias publico a segunda parte daquilo que foi uma grande lição de cidadania e consciência cívica).

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Obrigada Coronel!


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Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

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