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IN.SO.LEN.TE

“Porque não te levantas para cantar o hino?”

A noite de 24 para 25 de abril é de “Grândola, Vila Morena”. À meia noite eu e o meu grupo de amigos calamos a conversa para ouvir este hino da liberdade, e escutar os foguetes, que normalmente são em número idêntico aos anos que este país tem de democracia.

É um momento bonito, mas é apenas isso: um momento. Assim que se ouvem os últimos passos dos camponeses na canção de Zeca de Afonso – sim, os passos foram incluídos para representar camponeses e não militares – o silêncio evapora e dá lugar à discórdia.

O "tempo de Salazar", os falhanços do Portugal democrático e a pobreza que persiste são, muitas vezes, desculpa para um saudosismo contido, que todos os anos tento combater. De nada adianta relatar os factos, destacar a opressão, relembrar a gigante taxa de analfabetismo ou referir a normalidade da fome naquele tempo, há sempre argumentos para descredibilizar a revolução. De uma forma ou de outra, todos os anos passo pelo purgatório de desmontar os mitos que persistem em torno no Estado Novo - sem nunca ter sucesso, diga-se. É uma luta solitária e ingrata, que, na maior parte das vezes acaba comigo a falar alto ou a mandar alguém à merda. É triste mas é verdade.

Ontem, além do habitual “debate”, tivemos a agradável surpresa de um jovem músico que apareceu para tocar o hino nacional em trompete. Quase todos se levantaram para ouvir e cantar “A Portuguesa”, valorizando a dedicação do menino que soprava as notas com afinco. Não me levantei nesse momento. Não o fiz por nenhuma razão em especial - nem sequer pensei muito no assunto, confesso - porque essa atitude se devia apenas à forma contorcida com que entalava as pernas na traseira da cadeira. Além do mais, nunca senti necessidade de encarar cada fração do hino como partes de uma sessão solene.

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DR

Não significa que não respeite o meu país, ou que não ame Portugal, significa apenas que o valor “pátria” me traz à memória laivos de conservadorismo que acho desnecessários. É que, mesmo nunca tendo vivido em ditadura, ainda me recordo bem do tempo em que era obrigada a cantar o hino nacional de mão no peito, de cada vez que o professor entrava numa sala de aula que tinha na parede a cruz de Cristo.

“Deus, Pátria, Família” ainda eram valores presentes em escolas no início do milénio, mesmo que apenas de forma implícita.

Talvez por a chamada de atenção me lembrar da “Lição de Salazar”, senti maior obrigação de me levantar quando o jovem tocou depois a canção que eterniza a Revolução dos Cravos. A “Grândola, Vila Morena” mereceu da minha parte um esforço diferente, não acompanhado por muitos dos que comigo escutavam a melodia.

Ninguém percebeu a razão desta minha insolência, encarada como um certo desrespeito e parvoíce. Para mim não foi nada disso. Foi apenas uma tentativa modesta de mostrar aos presentes que valorizo mais a liberdade do que o nacionalismo. Que prefiro a fraternidade ao invés de fronteiras terrestres. Que honro mais os valores do que as bandeiras e que a revolução é o que me permite hoje gritá-lo a plenos pulmões, sozinha ou acompanhada.

Viva o 25 de abril! Viva a liberdade!

Socialismo associal

George Bernard Shaw publicou, em 1884, o livro "Um Socialista Associal", a obra onde este artigo foi roubar a introdução. De forma sumária, a narrativa decorre sobre a vida de um jovem que abandona os privilégios concedidos pela sua classe social (priveligiada) para se dedicar inteiramente à causa do socialismo. Isto em teoria, pois as suas ações vão denunciando os paradoxos que se perpetuam entre o defender uma ideologia e o agir em desconformidade.

Quando iniciei a leitura deste livro percebi que seria pertinente para a época que vivemos, mas estava longe de pensar que surgiria um exemplo tão paradigmático no tempo presente.

Todos sabemos que a política é muito mais retórica do que ação, mas há casos demasiado flagrantes, como aquele em que um Governo socialista se opõe ao aumento de apoios sociais. Parece saído de uma novela satírica, mas é mesmo a realidade da nossa política atual.

Tendo em conta todas as dificuldades atravessadas por tantos trabalhadores neste país, a começar pelo ramo da cultura, passando pelos tantos precários, e chegando aos independentes esta postura do Governo dito "socialista" é, no minímo, revoltante.

Como se não bastasse o voto contra no Parlamento, o Governo ameaça recorrer ao Tribunal Constitucional para travar a aprovação dos decretos que retificam - "aumentar" é talvez uma palavra exagerada - apoios a trabalhadores.

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Foto: Tiago Petinga/Lusa


Mesmo sendo cenários distintos, é inevitável notar a contradição entre invocar a "lei-travão", para impedir o aumento de despesa pública, e permitir a concretização de um negócio de venda de barragens sem o devido pagamento de imposto de selo. Por um lado a lei é soberana, por outro, um mero asterisco facilmente controlável.

Se é tão grande o zelo pelo controlo da balança, porque é que os pesos são sempre retirados do mesmo lado? Faz sentido cortar em apoios quando não se assegura a cobrança de impostos que podem fornecer receita?

Além disso, nem sequer se compreende a razão do argumento, quando é sabido que o Orçamento de Estado foi elaborado de forma a salvaguardar a incerteza imposta pela pandemia, tendo prevista a possibilidade de o Ministro das Finanças alterar as contas:


O Governo fica autorizado, através do membro do Governo responsável pela área das finanças, a proceder a alterações orçamentais resultantes de operações não previstas no orçamento inicial destinadas ao financiamento de medidas excecionais adotadas pela República Portuguesa decorrentes da situação da pandemia da doença Covid-19 entre os diversos programas orçamentais, como ainda financiadas pela dotação centralizada no Ministério das Finanças para despesas relacionadas com as consequências da pandemia da doença COVID-19.

Art.8ª da Lei do Orçamento de Estado 2021

Neste caso parece seguro dizer que a democracia prevaleceu - pois os decretos foram aprovados por todos os outros partidos - mas é inevitável pensar nas consequências futuras que isto pode ter no panorama político. Se o desmembramento da "geringonça" já estava em curso, fica agora notório que o Governo pode vir a ter problemas sérios de continuidade.

 

Memória colonial: Marcelino da Mata e Mamadou Ba

A polémica em torno de Marcelino da Mata mostra bem as divisões que persistem em Portugal.

Por ter sido o militar mais condecorado do Exército o seu funeral teve direito à presença de ilustres, mas, por ter levado a cabo inúmeros assassínios durante a missão na Guiné, a sua memória não está livre de contorvérsia.

Durante a Guerra do Ultramar as pretensões colonialistas de Portugal foram honradas por este homem que, cumprindo ordens, levou a cabo a missão que lhe propunham. Essa missão envolvia a invasão de territórios, o bombardeamento de povoações e a aniquilação de quem se opusesse. Por isso mesmo as condecorações de que tanto se fala são prévias à Revolução dos Cravos, e foram entregues durante um regime ditatorial que tinha na censura um dos seus pilares. 

No entanto, à luz da nossa consciência atual, as suas ações são altamente censuráveis, precisamente porque condenamos o contexto que as motivou: o colonialismo.

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O piloto Miguel Pessoa ao ser resgatado pelos Vingadores, o grupo de operações especiais chefiado por Marcelino da Mata, (que na foto empunha uma catana).

Foto do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné

 

A própria vida de Marcelino da Mata reflete bem as diferenças de percepção adoptadas pelo país que ele escolheu defender: passou de militar condecorado a prisioneiro no PREC e acaba por morrer num contexto de aparente desvalorização. A notícia do seu falecimento passou virtualmente incólume e, note-se, só criou ruído quando os obituários geraram tantas críticas quanto elogios.


Neste momento, ainda não sabemos o que a Pátria, sempre ingrata, reservará à preservação da sua memória. Contudo, o seu nome e feitos há muito que fazem parte da História e da memória das nossas gentes.

José de Carvalho in Público

Veja-se a citação anterior, retirada de um artigo de opinião de José Carvalho no Público. Escolhi esta frase não por concordar com o mote do artigo (que exclama a glorificação do falecido militar) mas porque, talvez involuntariamente, reflete bem o que de facto de passa. Marcelino da Mata faz parte da nossa História, certo, mas a nossa concordância com essa mesma memória é o que influencia a corrente opinião sobre as suas ações. As diferentes interpretações do passado são, em última instância, o que dita as nossas posições no presente. Não consigo deixar de comparar esta polémica à da vandalização de estátuas, que aconteceu no ano passado. Também aí a razão da discórdia estava profundamente relacionada com a diferença de contextos e com a forma como esses contextos são encarados à luz da atualidade.

"É tempo de se falar sobre estas história de forma muito pragmática e analítica. O colonialismo foi algo hediondo e Marcelino da Mata é fruto disso e os comandos são fruto de um regime que massacrou pessoas durante mais de 500 anos".


"Não se pode olhar para a história de África dessa altura com os olhos de hoje. Para avaliar Marcelino da Mata é preciso olhar a história de Portugal na Guiné e inseri-lo nesse contexto."

Sofia Palma Rodrigues, doutoranda em Pós-Colonialismos, in DN

A condenação do colonialismo não é consensual. Isto é bastante claro. E fica ainda mais claro quando há partidos que reivindicam luto nacional após a morte de tão polémica figura - e não, não me refiro àquele que já sabemos que gosta muito de capitalizar ódios.

Também é claro que, mesmo passados tantos anos, a Guerra do Ultramar e os atos que se ali praticaram são alvo de um desconcerto tal que originam coisas tão absurdas como uma petição para deportar Mamadou Ba. O que está aqui a acontecer é que um enorme grupo de cidadãos quer que seja discutida no Parlamento a possibilidade de expulsar de Portugal alguém que disse uma coisa com a qual não concordam. Nas entrelinhas podemos ainda ler que consideram inadmissível criticar quem matou indiscriminadamente em defesa do colonialismo. 

É óbvio que esta polémica irá esfumar-se como aconteceu a tantas outras. O que está longe de desaparecer é a nostalgia ingénua que deturpa a realidade dos factos. O descontentamento crescente vai continuar a motivar indignações absurdas, especialmente porque o absurdo está cada vez mais normalizado.

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Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

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