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IN.SO.LEN.TE

Fora do círculo

Em Portugal existe um "fora" e um "dentro".

Há quem esteja "fora" dos círculos de poder que se cruzam e comunicam entre si, e quem esteja "dentro" dos mesmos. Nós, forasteiros deste país, vemos quem está "dentro" pela janela das televisões, rádios e jornais, divididos em categorias associadas à temática das notícias. Mesmo tendo consciência da diferença abismal entre media e realidade, tendemos a pensar que cada figura pública se insere numa gaveta condizente com a sua função: políticos dão-se com políticos, juízes dão-se com juízes, empresários com empresários. Acabamos por isso a formular teorias e a emitir opiniões tendo em conta a ideal delimitação das funções dentros dos seus meios. Mas de vez em quando surgem vislumbres da ilusão que são estas distâncias, normalmente sob a forma de acusações do Ministério Público, ou investigações jornalísticas.

Quando são revelados exemplos de promiscuidade entre instituições públicas e privadas, temos a sensação de que se está apenas a arranhar a superfície. E é aqui que ganhamos a consciência de estar "fora": fora dos círculos de poder, fora das esferas de influência, fora dos estatutos que usam o silêncio cúmplice como moeda de troca. 

A notícia do Expresso de que António Costa e Medina integravam a Comissão de Honra da candidatura de Luís Filipe Vieira à liderança do Benfica foi um desses momentos esclarecedores. Uma daquelas alturas em que se dilui a fronteira e percebemos que o que sabemos é uma gota e o que ignoramos um oceano. Não é que não soubessemos já disso, mas de repente o alarme soa que nem um despertador. Acordamos para a realidade. 

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Costa, Medina e Vieira na consagração de um título de campeão do Benfica. Foto: LUÍS BARRA/Expresso

De repende torna-se tudo tão óbvio que qualquer declaração dos intervenientes só vai piorar a situação. E piorou:

 "Não comento, não tem nada a ver com as funções que exerço"

António Costa

A cena (que não é inédita) é de tal forma lamentável que a dado momento damos por nós a perguntar como ninguém percebeu que ia dar merda. "Como é que Costa se enfia voluntariamente numa armadilha que ninguém lhe estendeu?"pergunta - e bem - Miguel Sousa Tavares.

De facto é difícil de perceber que o político que fez bandoletes com as bandeiras da estabilidade e do optimismo tenha agora caído neste imbróglio sem ninguém o ter empurrado. (off: aposto que o nosso cavaleiro andante contra a corrupção já esfrega as mãos com a lista de indignações que vai levar ao parlamento).

Motivos fora parte, fica particularmente delicioso observar a sucessão de acontecimentos:

1-É revelado de que Costa integra a Comissão de Honra;

2-Indignação pública;

3-Polémica;

5-É revelado que o Novo Banco socorreu empresa de Luís Filipe Vieira no Brasil 

4-Mais polémica;

3-Revelação de excertos das conversas entre Luís Filipe Vieira e o juiz Rui Rangel - arguidos da operação LEX -  pela TVI 

4-Anúncio de Vieira de que retira os titulares de cargos públicos da dita Comissão de Honra (horas antes da reunião do Primeiro-Ministro com o Presidente da República).

De sublinhar que os últimos dois pontos aconteceram com uma diferença de horas. Talvez por isso se torne cómico ver o próprio Vieira a tentar escusar-se de culpas alegando promuiscuidades de funções (informativas):

Vivemos tempos em que a justiça passou a ser feita no Facebook, nas redes sociais e nos media. Tempos em que os juízes foram substituídos por jornalistas e comentadores que, num registo de excessos, sem conhecimento dos factos, mas com a cumplicidade de quem os vai parcialmente alimentando com o único objetivo de contaminar a perceção pública, vão minando o espaço mediático. Tempos em os jornais preanunciam condenações e em que líderes partidários e políticos mais populistas, propositadamente, esquecem um dos princípios básicos em que se assenta o nosso Estado de direito. Tempos em que falta seriedade e rigor. Tempos em que, quando a justiça finalmente chega, já não há justiça. Tempos em que o bom-nome e a reputação das pessoas se perdem na avalancha mediática que atropela qualquer presunção de inocência.

Excerto do comunicado de Luís Filipe Vieira 

No fim de ler isto parece quase que devemos sentir-nos culpados de ter tido conhecimento da cena e feito críticas. É como se a informação devesse ser limitada às elites que conhecem a situação e por isso a "sabem interpretar". Shame on us!

 Ironias à parte, há uma questão que não consigo evitar colocar:

É verdade que toda esta situação é lamentável, mas não será melhor, enquanto forasteiros que somos, aproveitá-la para tirar as nossas ilações? Seria mesmo melhor nada disto ter acontecido, conforme apregoam os analistas? Ou é preferível ficar na memória para mais tarde recordar?

Meio ano de pandemia e uma vida de precariedade

Olhar para trás após seis meses de pandemia é ver tentar o passado recente com binóculos de longo alcance.

Como sempre acontece no âmbito do nostálgico, vemos os tempos A.C. (Antes do Covid) em tons de sépia reconfortante, relembrando uma era em que tudo era mais simples. Temos a sensação de que "éramos tão felizes" apenas porque tínhamos a liberdade de ir onde quiséssemos, quando quiséssemos, sem estar preocupados em apanhar uma doença contagiosa com um aperto de mão. Mas se calhar não era tudo assim tão bom...

Muitas das mudanças sociais, políticas, económicas (...) a que assistimos no último semestre não são fruto do vírus, mas do medo que temos dele. Na realidade há, pelo menos, mais de duzentos vírus capazes de desencadear doenças em humanos, mas seria o SARS-COV-2 que faria correr mais tinta em papel de jornal e ficaria na história como a doença que obrigou o mundo globalizado a barricar-se em casa.

Não procuro aqui desvalorizar os efeitos e sintomas do novo coronavírus - que são obviamente preocupantes - mas apenas destacar o facto de que o nosso contexto e, consequentemente, a percepção que temos do mundo contemporâneo, são decisivos na forma como somos afetados pela dificuldade imposta pelo coronavírus. João Miguel Tavares teve (e tem) razão quando afirmou  - em março longínquo - que "a quarentena é um privilégio burguês". Isto é a mais dura verdade não só porque o isolamento pressupõe claramente a existência de uma habitação condigna, como também o teletrabalho só é possível para quem tem a profissão à distância de computador com internet (uma minoria, portanto).

A covid-19 e as medidas de contingência a que obriga levam-nos a pensar que fomos encurralados de um dia para o outro, que todos os nossos planos foram interrompidos, que sofremos uma fatalidade inesperada, mas o facto é as dificuldades que cada um enfrenta hoje são o reflexo das fragilidades que já existiam. O mundo mudou, é verdade, mas não mudou assim tanto. O que aconteceu foi que os problemas são agora mais visíveis a olho nu. 

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Foto: Roman Tarasevych/shutterstock

Vem isto a propósito da precariedade e do aumento do desemprego jovem noticiado esta semana.

Este é um problema que existe há muito em Portugal, e, pessoalmente, é algo com que lido desde que me lembro. Se a pandemia fez aumentar o número de jovens desempregados é tão só porque estes não estavam numa situação laboral estável, o que está longe de ser uma novidade.

A precariedade e o desemprego jovem estão de tal forma enraizados no mercado de trabalho atual que muitos de nós - e quando digo "nós" falo de millennials - encaram um trabalho mal-pago sem vínculo permanente como uma vitória, se este se inserir minimanente na área para a qual estudámos. 

Tal como é referido nesta reportagem do Público (que veio a propósito do tema), nós, jovens licenciados, vivemos numa frustração constante que oscila entre a necessidade de experiência na área e o esgotamento do leque dos estágios com apoio estatal (quando o estágio profissional deixa de ser possível deixamos de ser uma escolha para os empregadores). Estamos constantemente no limbo entre o imperativo de especialização, e a necessidade de ser versátil. Além disso, quando o emprego qualificado não existe, passamos a aceitar o que quer que seja que dê sustento, nem que seja "até nos conseguirmos orientar". A partir daqui torna-se cada vez mais díficil. O trabalho supostamente temporário monipoliza o tempo e a esperança e só a teimosia nos leva a insistir no envio de CV's.

É triste que assim seja, mas infelizmente é a minha (nossa!) realidade. Nas salas da universidade somos todos a personificação do futuro promissor, mas cá fora somos só mais um igual a outros tantos.

Tendo isto em mente, só pode ser classificada de demagógica a forma como António Costa e Manuel Heitor exaltam o aumento histórico do número de candidatos ao ensino superior. Sou da opinião que o saber não ocupa lugar, e que o investimento na educação nunca é a fundo perdido, mas isso não é motivo para tentar iludir os cidadãos com números que omitem consequências, especialmente tendo em conta que:

-o aumento do número de candidatos foi pura e simplesmente fruto do facilitismo nos critérios de avaliação dos exames nacionais do secundário, que permitiram a muitos jovens aumentar as notas;

-não há vagas para todos (apesar de Manuel Heitor achar que resolve o problema com vagas dos alunos internacionais);

-mesmo que as vagas fossem suficientes, há alunos que nunca chegam a matricular-se por dificuldades económicas e outros que não terminam as suas formações pelo mesmo motivo (veja-se esta reportagem do Diário de Notícias, que revela o agravamento desta situação devido à pandemia) - ou seja, o aumento de candidatos, para se traduzir num aumento de diplomados, tem necessariamente de incluir um aumento dos apoios sociais.

É certo que não podemos apenas ver o lado negro, e precisamos de sinais de esperança que nos façam crer num futuro mais risonho, mas não desta forma. A precariedade é um problema crónico que vai agravar-se com a pandemia. Acenar aos cidadãos com números crescentes de ilusões a prazo é apenas hipocrisia.

Negar factos para evitar mudanças

Negar factos é uma boa forma de escapar à culpa. De facto torna-se inverosímil sermos acusados de algo quando não admitimos a sua ocorrência. É por isso que o negacionismo é perverso e obscenamente desresponsabilizador. Além disso é uma forma eficaz de oposição à mudança, pois a não admite a necessidade de alterações a uma realidade confirmada.

No livro “Denialism: How Irrational Thinking Hinders Scientific Progress, Harms the Planet, and Threatens Our Liveso jornalista da New Yorker Michael Specter define o negacionismo como algo que acontece quando, confrontado com o drama da mudança, um segmento da sociedade prefere voltar-se para uma mentira confortável, ao invés de enfrentar a realidade. O autor refere-se especificamente à descredibilização política da ciência e à forma como essa prática coloca em causa o bem-estar dos cidadãos. O livro foi escrito há mais de uma década mas continua atual, e a tese aplica-se perfeitamente a fenómenos sociais que estão a acontecer em Portugal.

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 Fachada da sede do SOS Racismo vandalizada. DR

 

Perante o apoio generalizado ao movimento Black Lives Matter, o partido do deputado único André Ventura saiu à rua para negar a causa defendida, alegando que “Portugal Não é Racista”. Já antes tinha dito na Assembleia da República que “O racismo estrutural é um fantasma que não existe em Portugal, é um fantasma que nos querem trazer para a discussão de temas ou para esconder outros”. Tudo isto numa altura em que o racismo é amplamente discutido a nível nacional e internacional, discussão que aliás tem como objetivo levar a cabo mudanças na sociedade (e sublinho aqui a ligação mencionada anteriormente entre negacionismo e oposição a mudanças).

Mais recentemente, Portugal viu uma assustadora manifestação (em frente à sede da SOS Racismo) que gerou pouco mais do que um encolher de ombros a nível nacional. Dias depois da ação que tinha elementos iconográficos muito semelhantes a grupos supremacistas brancos - como Klu Klux Klan – dirigentes da referida associação e deputados de esquerda foram ameaçados, numa carta que coloca em causa a segurança das suas famílias. Tudo porque pedem mudanças.

Perante esta situação o mesmo deputado único de extrema-direita diz no Twitter, e cito: “Todos os dias são feitas publicamente ameaças à minha vida ou de outros membros do Chega. Alguém ouviu alguma vez falar de racismo? Ou viu a indignação de Ferro Rodrigues? Mas eles precisam desta narrativa do racismo…”.

Perante pessoas diretamente ameaçadas - numa carta que dá prazo para que abandonem o país - o deputado prefere negar a gravidade da situação, tentando não apenas desvalorizar mas descredibilizar todas as ameaças em causa. O argumento utilizado é precisamente a negação do racismo e da discriminação.

É conhecida e amplamente estudada a ligação entre negacionismo,
extremismo, nacionalismo e, sim, nazismo. Isto porque negar problemas é negar as causas que lhe são intrínsecas e equivale a fingir argumentos para contrariar as necessidades de inclusão. As ameaças a que dirigentes associativos e políticos foram submetidas não podem ter lugar no Portugal democrático. Não admitir a sua gravidade é assumir o negacionismo crónico da extrema-direita e fechar os olhos à necessidade de mudança. O primeiro passo para solucionar problemas é encará-los de frente e aceitar que existem. Paremos de negar o evidente.

 

(este texto foi originalmente publicado em https://www.publico.pt/2020/08/14/p3/cronica/negar-factos-evitar-mudancas-1927975)

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Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

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