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IN.SO.LEN.TE

Será um cordão sanitário a melhor forma de combater a extrema-direita?

PSD-Açores e Chega. Esta é uma questão difícil de analisar, no que às sequelas diz respeito.  

Rui Rui tem estado "debaixo de fogo", devido ao facto de ter violado o cordão sanitário em relação ao Chega, ao aceitar ceder para ter o seu apoio na governação do arquipélago.

[Antes de mais queria frisar o facto altamente irónico de um partido que se diz "anti-sistema" ter, assim de repente e como quem não quer a coisa, aceitado ser uma muleta do sistema. Acho hilariante e nem consigo escrevê-lo sem mostrar os dentes. Oram vejam a contradição destes dois excertos do mesmo discurso:

“Ontem, o dr. Rui Rio disse que admitia conversar com o Chega e ter entendimentos com o Chega a nível nacional. E hoje o Chega quer dizer que admite conversa com o PSD a nível nacional e admite entendimentos com o PSD a nível nacional”, vincou André Ventura. 

“O Chega não precisa de acordos com nenhum partido do sistema nem os pretende”, afirma Ventura que, no entanto, insiste logo a seguir nas sondagens que indicam que só o Chega e o PSD conseguem ser alternativa de peso suficiente à direita. 

enfim...voltemos ao que interessa...]

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Foto: António Cotrim/Lusa

Perante a abertura dos sociais-democratas ao partido Chega, mais de 50 personalidades de direita - como Adolfo Mesquita Nunes, Pedro Mexia, Samuel Úria, Miguel Esteves Cardoso entre outros - divulgaram no jornal Público um abaixo assinado onde se distanciam claramente da postura assumida pelo PSD:

uma coisa é os movimentos nacional-populistas, xenófobos e autocráticos assumirem aquilo que são; outra, mais grave, é o espaço não-socialista deixar-se confundir com políticos e políticas que menosprezam as regras democráticas, estigmatizam etnias ou credos, acicatam divisionismos, normalizam a linguagem insultuosa, agitam fantasmas históricos, degradam as instituições.

Rui Rio já tinha demonstrado há algum tempo que estava disponível para fazer acordos com o Chega se este "se for moderando", pelo que não fiquei espantada que acontecesse agora (primeiro é no arquipélago mas depois será obviamente no continente).

O grande problema de tudo isto é, para começar, a nossa histeria em volta do assunto. Sim, é verdade que todos ficamos incomodados com o facto de um partido democrático, o maior da oposição, ceder à extrema-direita xenófoba (eu também fico), mas não podemos esquecer-nos de forma alguma que se este partido tem representação parlamentar é porque a conquistou nas urnas. Se ele está lá, é porque foi eleito, ainda que diga desprezar o próprio sistema democrático que lhe deu alguma chance. O Chega representa uma parcela da população portuguesa, mesmo que isso custe muito - e custa mesmo - a engolir.

Dito isto, a nossa postura de repulsa estará a ter o efeito que queremos? Ou, pelo contrário, ao estigmatizar a extrema-direita populista estamos a fortalecê-la? É que o Chega continua com a postura de underdog mártir, reforçando a ideia (ridícula) do "eles criticam-nos porque têm medo do nosso crescimento". A força do partido está precisamente no facto de afirmar ser diferente de todos os outros. Se esvaziarmos esta diferença não poderemos tirar-lhe força? Será que a procura de consenso democrático pode ser a solução para moderar o Chega? É que se o Chega deixar cair o radicalismo não lhe sobra nada e concerteza torna-se-á irrelevante (pois não tem ideologia nem tampouco propostas relevantes para o país)...certo?

Pensamos sempre que será o PSD a radicalizar-se, mas tendo em conta o número de assentos dos sociais-democratas na AR, a sua história e influência no país, será que não poderá criar-se o efeito contrário? Não haverá hipótese de a direita-moderada esvaziar um pouco o extremismo?

Posso estar a ser ingénua, mas quero crer que haverá coisas com as quais o PSD nunca concordará e que chegará a um ponto em que Rui Rio traça uma linha vermelha. Nessa altura, não terá o Chega perdido força? Daí em diante será óbvio para qualquer Ser pensante que o Chega tentou fazer parte do sistema e não foi propriamente bem sucedido. A sua postura de rejeitado incompreendido perde força, deixando notar a falta de conteúdo das suas propostas. Não poderá esta ser uma forma de demonstrar a hipocrisia das alegações que tanto defende?  Pode a conciliação democrática ser a solução para enfraquecer o populismo?

A quebra do cordão sanitário em redor do Chega é uma aceitação ou antes uma desmistificação?

Admito não fazer ideia das respostas mas creio que estas estarão, daqui para a frente, nas mãos do PSD. O que fez o maior partido da oposição foi colocar-se num limbo em que não poderá dar qualquer passo em falso. É um caminho perigoso, na medida em que cada movimento será julgado de forma implacável, mas por outro lado é uma forma eficaz de roubar palco ao Chega.

De facto deixa-me curiosa qual o efeito desta "união" nos respetivos eleitorados: será mesmo o PSD que vai perder votos, ou pelo contrário será o Chega que vai acabar por cair na irrevelevância onde pertence?



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Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

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