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IN.SO.LEN.TE

"Shut up man"

O debate desta madrugada entre Donald Trump e Joe Biden deve preocupar-nos. O que devia ser uma discussão séria e esclarecedora teve a eloquência de um reality-show.

Já se esperava que o nível de argumentação de Trump ia ficar preso às aleatórias acusações vazias e absurdas, mas (também conforme esperado) Biden não esteve à altura. O candidato democrata transmite decência e sensatez, mas infelizmente falta-lhe assertividade no discurso. Não transmite segurança, o que é grave num líder.

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Foto: ABC

Biden bem tentou focar-se no seu próprio raciocínio, ignorar Trump e dirigir-se aos eleitores, mas essa tarefa era demasiado hercúlea para a conseguir concretizar com eficácia. Devo dizer que passei a última madrugada a sofrer por ele, que visivelmente lutava contra a frustração de não conseguir emitir palavra. O democrata deixava transparecer demasiado esforço, o que afetou gravamente o apelo ao voto que tanto se esforçou por concretizar. 

President Trump demonstrated a willingness to lie, exaggerate and mislead during the first presidential debate, repeatedly interrupting former Vice President Joseph R. Biden Jr. with attacks based on thin evidence. Mr. Biden appeared exasperated through much of the night but stood his ground, calling the president a liar and a racist and at one point saying, “Shut up, man.”

The New York Times

Apesar de tudo foram notórias as diferenças na postura dos dois candidatos: enquanto o atual Presidente dos Estados Unidos manteve o ar desafiador que o carateriza, sempre dirigido ao adversário, Biden olhava direto para as câmaras, tentando ignorar o presidente enquanto puxava a ferros a atenção do eleitorado. Infelizmente não me parece que tenha sido bem-sucedido. O ex-vice de Obama teve muitas oportunidades para "agarrar o touro pelos cornos", mas simplesmente não o fez: deixou passar levemente a tão importante revelação do New York Times que Trump foge ao fisco há décadas - uma questão que aliás foi colocada pelo moderador - deixou que os ataques baixassem o nível do seu discurso ("It's hard to get a word with this clown"), não explorou de forma firme o facto de Trump não condenar grupos supremacistas brancos (desculpando-se com a "radical left") e deixou muito a desejar no que toca a propostas concretas para o país. Quanto a Trump não houve grandes surpresas, mas devo dizer que esperava (ainda) pior. Manteve-se fiel ao seu registo e aposto que fez as delícias de quem se alimenta de azedume.

Mesmo perante este cenário, a maioria considera que foi Biden quem ganhou (público e analistas). Isto já era esperado tendo em conta que Biden já liderava as sondagens de antemão . Esse facto não é, contudo, garantia de nada pois Hilary estava sensivelmente na mesma situação há quatro anos.

Há ainda dois debates onde os candidatos se irão defrontar antes das eleições presidenciais, a 15 e 22 de outubro. Até lá só nos resta aguardar e ter esperança (muita esperança!) que sejam mais esclarecedores que este.

P.S.Não quero deixar de referir o tão útil fast-checking que o New York Times fez em direto. Ainda que os comentários dos editores fossem por vezes subjetivos, era extremamente relevante saber com exatidão as verdades, mentiras e imprecisões que ali estavam a ser proferidas por ambos sem que isso interferisse com o debate. 

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Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

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