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IN.SO.LEN.TE

Páscoa: ressurreição e absolvição

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Vi ontem o filme "Os Dois Papas", de Fernando Meirelles, na Netflix. Já levo uns bons meses de atraso - bem sei disso - mas a quarentena tem as suas vantagens, e uma delas é libertar espaço para pôr em dia o que quer ler, ver e saber.

Admito que foi um acaso feliz, o de ter visto este filme agora, uma altura em que, mesmo sendo de virose global, antecede a páscoa e me lembra do quanto admiro os rituais religiosos, mesmo sem os compreender.

O filme é cativante, e consegue captar a nossa atenção por nos ligar flagrantemente à simplicidade e humanismo de Jorge Bergoglio, contrapondo-a à austeridade e frieza de Ratzinger. É óbvio que nada do que ali se retrata se passou daquela forma, nem tampouco aquelas representações são fiéis às personalidades que evocam, mas o filme vale pelo simbolismo (ainda que este roce um pouco a caricatura e o arquétipo).

É bom e reconfortante ver dois líderes da Igreja Católica a conversar de uma forma intimista sobre como encaram os dogmas da Santa Sé, mas é também falacioso.

Nunca percebi, e continuo sem perceber, como é que um estado baseado na religião, que defende a moral, a verdade, os bons costumes, e etc., continua a encobrir e a compactuar quotidianamente com um dos crimes mais horrendos que existem: a pedofilia. 

Hoje mesmo, quando pesquisava sobre as últimas novidades do Vaticano - empurrada pelo filme, sim - vejo, sem grande espanto, a notícia da libertação de George Pell, um ex-cardeal condenado a seis anos de prisão por abuso sexual de menores. Condenado a seis anos, mas libertado após um. Porquê? Porque, segundo a notícia da Euronews, o coletivo de juízes do Supremo Tribunal da Austrália «considerou existir uma possibilidade "significativa de as provas não terem estabelecido a culpabilidade com um nível de prova exigido"». Este ex-tesoureiro do Vaticano, «considerado o número 3 da Santa Sé», foi condenado em março do ano passado, no âmbito de um processo iniciado em 2014, cujo o ponto de partida foi uma denúncia de uma vítima, feita algum tempo após uma outra vítima do cardeal ter morrido de overdose.

Perante esta libertação, o Vatican News escreve que o cardeal George Pell - que já tinha sido afastado do círculo de conselheiros pelo Papa Francisco mesmo antes da condenação - «afirmou não nutrir ressentimento, esperando que sua absolvição não provoque outra dor. A base da cura a longo prazo - ele disse - é a verdade e a única base da justiça é a verdade, porque justiça significa verdade para todos».

Mas qual verdade??? Qual justiça???

Como explicar que a mesma entidade que não aprova que os sacerdotes se casem, se congratula com a absolvição de um pedófilo? Bem sei que isto não é novo, e que o problema terá - arrisco dizer - séculos de existência, mas será por isso tolerável? Até quando vamos compactuar com um estado religioso, autónomo, detentor de um património incalculável, que existe apenas e só para servir o elitismo de uma minoria que se diz "iluminada" por Deus?
Todos somos pecadores, mas os pecados não são todos iguais. A autoridade e o conhecimento - a que a Cúria tem acesso priveligiado - são motivo para desvalorizar a violação da dignidade humana e o trauma infantil que esta provoca? 

Não sou crente, mas parece-me a mim, que mesmo sendo Páscoa, a morte de Cristo não pode absolver todos os pecados...

 

 

 

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Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

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