Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

IN.SO.LEN.TE

O radicalismo já está a afetar-nos

João Miguel Tavares dizia ontem no Público que, agora que Joe Biden foi eleito, parece que mais ninguém teria sido capaz de o fazer. Se inicialmente era desvalorizado, agora Biden é "erguido a candidato visionário em função dos resultados eleitorais". 

Concordo plenamente, mas sera que Biden foi incialmente desvalorizado apenas pela sua falta de carisma e retórica nos debates? Ou queríamos antes combater o extremismo com extremistas? A nossa falta de crença no democrata não estaria antes no facto de também nós termos perdido a fé na moderação?

Bidn-11-7.jpg

Agora tornou-se óbvio que Biden ganhou por pretender unificar e não dividir. Não se trata de defender a ideologia, "os blue estates", mas antes pensar como "United states" como ele tem vindo - e bem - a defender.

(...) a tarefa árdua começa agora. E ela tem de começar por dar voz e dignidade aos muitos milhões que votaram em Donald Trump. Não, eles não são deploráveis. São na sua esmagadora maioria pessoas decentes, trabalhadoras, dignas, patriotas, que só querem cuidar da sua família, e viram as suas vidas destruídas pelos efeitos da globalização, dos acordos de comércio livre, da transferência de empresas e empregos para o exterior, do colapso financeiro de 2007 e subsequente “grande recessão”, de cerca de 30 anos de estagnação de rendimentos, de crescentes desigualdades e, em muitos casos, desemprego de longa duração com a humilhação (para os americanos) de terem de viver de subsídios do estado. Em rigor, são hoje uma grande parte das classes médias americanas, do Ohio, da Pensilvânia, do Wisconsin, do Michigan, das cinturas industriais, dos campos, de muitos outros estados, condados, cidades e localidades. 

Tiago Moreira de Sá, Público

Durante o período pré-eleitoral todos dizíamos (eu incluída) que seria necessário alguém mais carismático e destemido para fazer face ao radicalismo de Trump. Vejo agora que não podíamos estar mais errados.

O radicalismo de Trump foi combatido com pacifismo e foi por isso que resultou. A moderação de Biden foi de facto o antídoto para a "raiva" que engoliu os Estados Unidos. Candidatos da ala mais à esquerda possivelmente não teriam tão bons resultados, pois seriam encarados como alternativas completamente opostas quando muitos americanos na verdade pretendiam um meio termo.

A grande lição a tirar disto é talvez que a polarização da sociedade não se resolve com soluções completamente opostas, mas antes com tolerância e conciliação. A grande força de Biden foi essa capacidade de apaziguar, de compreender, ao invés de atacar e odiar, como Trump tanto gosta de fazer. 

Esperávamos que a moderação e o centrismo de Biden levasse ao fracasso. Achámos que apenas um candidato com energia frenética para se opor a Trump seria capaz de lhe roubar a sala oval, mas enganámo-nos. De certa forma aguardávamos um certo radicalismo, embora de forma oposta. Estaremos todos a desvalorizar o poder do consenso? 

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Mais visitados

  • Manifesto feminista

    05 Novembro, 2021

    Estive relutante em escrever sobre isto, mas tornou-se demasiado sufocante para não o fazer. (...)

  • O Desprestígio

    30 Setembro, 2021

    «Num país com tradição antiga de centralismo, em que os órgãos de soberania sempre (...)

  • Memória colonial: Marcelino da Mata e Mamadou Ba

    17 Fevereiro, 2021

    A polémica em torno de Marcelino da Mata mostra bem as divisões que persistem em Portugal. (...)

  • Mas que m**** é esta???

    06 Janeiro, 2021

    Profundo choque. Horror. Arrepios. Medo. Muito medo. A cena que vimos acontecer ontem em (...)

  • O porquê disto tudo

    03 Março, 2020

    Entrei no jornalismo por acaso, e depressa percebi que teria de trabalhar muito para estar à (...)

Pensamento do dia

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

Redes Sociais

Mensagens

E livros?

Em destaque no SAPO Blogs
pub