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IN.SO.LEN.TE

Narcisismo assumido

Não há dúvidas de que Donald Trump é um narcisista descarado mas a sua falta de consciência humanitária e irresponsabilidade continuam a ser originais na forma de expressão.

O mundo soube há pouco mais de um dia que o Presidente dos Estados Unidos da América decidiu cortar temporariamente a contribuição americana para a Organização Mundial de Saúde. Numa clara tentativa de criar barulho e desviar as atenções da sua irresponsabilidade relativamente à gestão da pandemia de covid-19, Trump decidiu, as always, culpar outros pelos seus erros.

Desta vez foi a OMS, uma entidade com um papel primordial no combate global à Covid-19, que sofreu os disparos. Segundo Trump, "eles têm sido muito centrados na China", razão pela qual vai investigar a "má gestão" que a OMS fez da pandemia. Isto vindo da boca da mesma pessoa que não apenas desmantelou em 2018 a equipa que o país tinha para combater eventuais epidemias, como esteve quase completamente apático face à propagação do vírus no seu país durante semanas. Entre muitas outras coisas, que nem me darei ao trabalho de enunciar por serem demasiadas.

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Ao invés de assumir o erro e a culpa, prefere canalizar atenções para a entidade máxima de gestão da crise de saúde pública a nível global. Atenção que não estou desta forma a elogiar a OMS, pois já existem evidências que tornam duvidosa a sua atuação, mas esse facto não invalida a importância do seu papel no combate à pandemia, mais que não seja porque funciona como importante elemento agregador de medidas e recomendações que, de mal o menos, estimulam a convergência dos países nesta luta.

Todos sabemos que Trump negou inicialmente os impactos da covid-19, achando que os EUA são sempre vencedores em todas as guerras e que esta não seria exceção, mas agora, confrontado com a desvalorização dos efeitos de um vírus que já causou perto de 26 mil mortos no país, Trump faz o que sabe melhor: manobra e altera notícias e informações de forma a sair sempre por cima. Exibiu até um vídeo numa conferência de imprensa, para mostrar o quanto foi competente nas medidas tomadas face à propagação do SARS-COV-2 no país que lidera.

But wait, there's more!

Este magnífico supra-sumo da sabedoria ainda não jogou todas as cartas face à perda eleitoral que (espero eu) se avizinha. Diz o Observador que: 

"Numa medida inédita, o presidente dos EUA exigiu que o seu nome aparecesse nos documentos que dão liquidez aos mais afetados pela crise do coronavírus. Já há acusações de aproveitamento político."

Ou seja, a famíias que não tenham contas bancárias, Trump vai enviar cheques para as apoiar financeiramente que, ao mesmo tempo, irão funcionar como panfleto de propaganda política. Assim tem a certeza que essas famílias memorizam bem e não se esquecem que o seu nome vinha escrito num cheque "oferecido" quando forem votar. Este capricho pode atrasar bastante a atribuição dos apoios, mas também o que é que isso interessa? Importante é todos saberem que foi ele que teve a ideia, pois claro. 

Tudo isto faz-me pensar num ensaio de José Gil que li há uns dias no Público. Entre outras coisas o filósofo fala numa "digitalização de todas as atividades" devido à pandemia que vivemos e que nos obriga ao confinamento.

"A inteligência artificial terá sem dúvida um papel decisivo neste processo de sedentarização. As novas subjectividades caracterizar-se-ão pela submissão e adequação dos corpos às (ou mesmo a sua exclusão das) tarefas da economia digital, e a permeabilização das mentes às ordens e necessidades da vida virtual. A nova subjectividade comportará capacidades passivas de obediência voluntária e capacidades activas de funcionamento programado. Estas características estavam já presentes na subjectividade digital pré-pandémica".

É perante esta brilhante premissa que me parece que Trump irá continuar a dominar. Queira-se ou não é mestre na inversão de conclusões, e sua respetiva propagação virtual, tornando-se perfeitamente capaz de baralhar muitas opiniões menos atentas. É um pouco como o que André Ventura tenta fazer por cá, mas com muito mais gabarito e alcance de audiência: diz o que lhe apetece, sem preocupação com a verdade, para depois editar os discursos e lhes retirar contexto, selecionando o conteúdo que vai bater certo com as suas pretensões. É uma tática extremamente eficaz quando as pessoas não procuram fontes fidedignas de informação. E mais ainda se não tiverem a capacidade de colocar na balança a credibilidade das suas políticas. 

Gostava imenso de acreditar que todas estas incongruências escandolosas levariam à substituição do Presidente dos EUA num futuro breve, mas sei que é pouco provável. Está a perder-se a confiança nas moratórias da democracia...

 

 

 

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Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

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