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IN.SO.LEN.TE

Liberdade de expressão, esse "pecado imperdoável"

Foi há poucos dias que teve início o julgamento relativo aos atentados ao Charlie Hebdo. Foi um lembrete doloroso de que há apenas cinco anos um grupo de jihadistas matou 12 pessoas porque se sentiram ofendidos com um desenho humorístico num jornal francês. Uma brutalidade atroz cometida contra quem teve a ousadia de fazer piadas sobre religião no século XXI.

De aplaudir a resistência do Charlie Hebdo, que sem se deixar intimidar, lança um número especial com as caricaturas de Maomé que deram origem à indignação. Nem poderia ser de outra forma, mesmo sabendo que a ação não ficaria isenta de polémicas: hoje o ayatollah Ali Khamenei classificou-a como um "pecado imperdoável"; no Paquistão fizeram-se manifestaçõesqueimaram-se bandeiras da França e  até no Instagram foram desativadas as contas de duas jornalistas que partilharam a capa da nova edição, devido a denúncias de utilizadores.

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Até aqui nada de novo. Já seria de esperar algumas destas reações àquilo que é, mais do que uma crítica ao fanatismo religioso, uma homenagem aos que não se renderam perante ele.

Apesar disso, e anos depois de o ocidente sair à rua sob o mote "Je Suis Charlie", eis que vemos um flagrante ataque à liberdade satírica e humorística em Portugal: a queixa contra o cartoon de Nuno Saraiva no Inimigo Público. Bem sei que a ação leva já umas semanas, mas confesso que só agora refleti e ponderei os pontos comuns.

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Capa do suplemento do Jornal Público, "Inimigo Público" que deu origem à queixa da PSP

 

Sendo claro que ambas as situações não têm qualquer comparação (e deixo claro que não estou a tentar comparar um ataque terrorista a uma queixa da PSP!) mas não terão a mesma génese?

Tal como os jornalistas do Charlie Hebdo, Nuno Saraiva usou a sua arte e forma de expressão para satirizar um assunto crítico da atualidade. Enquanto no primeiro caso esse tema foi a religião, no segundo foi a polícia. Em ambas as situações está presente uma crítica que incute características que os visados não aceitam como verdadeiras. A questão é que não têm de o ser. O humor é isso mesmo: liberdade para ridicularizar, simplificar, inferir, comparar, caricaturar sem necessidade de verdade absoluta. 

“Parece que estamos a dar uma reviravolta para mais de 40 anos atrás, isso é que me preocupa. E o silêncio institucional preocupa-me também”.

Nuno Saraiva

O humorista Ricardo Araújo Pereira - que já muitas vezes discutiu publicamente este assunto - diz que 

À própria ideia de comédia está subjacente uma certa ideia de cepticismo. A comédia é uma espécie de anti-fanatismo que faz como que as certezas possam ser questionadas a toda a hora. Isso não só não é grave como é produtivo para nós”.

Não será por isso lamentável que aconteçam este tipo de situações? Este tipo de indignações soam demasiado a tentativas de silenciamento. Percebo que a comparação com o Klu Klux Klan não abone a favor de ninguém, mas quere-me parecer que proíbi-la só reforça a viabilidade da piada. Religião, Governo, forças de segurança... ninguém deve ser intocável, especialmente no que ao humor diz respeito. 

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Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

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