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IN.SO.LEN.TE

Irá o vírus matar a Europa?

 
O mundo está a mudar e assim vai continuar.
Na altura em que escrevo passaram poucas horas desde que o primeiro-ministro britânico Boris Johnson revelou ao mundo estar infectado com o novo coronavírus. A situação é, no mínimo irónica, tendo em conta que, se recuarmos no tempo apenas uma semana e meia, a normalidade ainda era defendida pelo governante conservador, que mantinha escolas abertas e transportes públicos a funcionar, mesmo afirmando que iria haver “mais famílias que perderão os seus entes queridos antes do seu tempo”.
 
Com as mudanças que estamos a viver, a noção de tempo alterou-se completamente. Em poucas horas muito acontece, alterando a realidade rapidamente. «Tudo é simultâneo», tudo é vivido em direto, como referia Nuno Severiano Teixeira, em “Mensagem do vírus” (texto que vale a pena ler). 
De facto, para nós comuns mortais a sensação é de uma vivência comum, decorrente de uma situação de ameaça global que coloca muitos de nós confinados ao domicílio. Mas essa ideia é ilusória, pois mesmo com as cidades paradas o tempo não parou de avançar.
 
No panorama internacional, é impossível não reparar nas diferenças das medidas tomadas face à crise sanitária que nos atinge. Há um contraste enorme na postura dos países democráticos versus autoritários, em governos de esquerda versus governos de direita. A forma como sairmos desta crise vai inevitavelmente servir barómetro à opinião pública, colocando todos os governos na corda bamba. Ainda que todos nós apelemos à necessidade de cooperação e à importância de salvar vidas, isso não significa que o escrutínio esteja suspenso. Assim que a poeira assentar vão ser visíveis os destroços. 
 

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O abrandamento da economia, o desemprego, a recessão vão influenciar a percepção do mundo e inevitavelmente colocar a democracia na balança. Face a estas previsões, o espírito de união europeu parece estar a desmoronar-se. A ideia-base dos 27 - a da cooperação entre países -  está a cair por terra e a ceder face ao nacionalismo. Perante a possibilidade de partilha de prejuízo – a emissão conjunta de dívida dos países, ou os denominados “coronabonds” – Áustria, Alemanha, Holanda e Finlândia isolam-se e recusam aceitar. O Ministro Holandês das Finanças chegou a pôr em causa a postura espanhola face ao surto do novo coronavírus, e a insinuar que a gestão do seu orçamento devia ser escrutinada. Esta atitude é no mínimo «repugnante», para usar as palavras de António Costa, que condenou com firmeza estas declarações. «Se a Europa não faz o que tem de fazer, a Europa vai acabar», disse o primeiro-ministro em direto na televisão, enquanto escrevo. Lamentavelmente isto é verdade. É mais do que notória a relutância daqueles países em colaborar com algo que não os beneficia. Estaremos a assistir ao princípio do fim?
 
Se a União Europeia resiste em funcionar como rede de segurança para os estados membros, temos de questionar se continua a ser vantajosa. Afinal de que forma podemos afirmar-nos como União, se o que acontece é uma crescente e permanente divisão?...
 
 

 

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Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

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