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IN.SO.LEN.TE

Eduardo Lourenço e o transcendente

É de certa forma macabro mas o poder da morte dos grandes é muitas vezes o de relembrar o quanto somos pequenos.

Sinto sempre isso de cada vez que assisto a uma retrospetiva obituária de grandes feitos. É verdade que aprendo sempre imenso mas ao mesmo tempo fico com a sensação de que nunca lá chegarei. Não em anos - que isso não sei - mas em alcances.

Após ver a entrevista de Fátima Campos Ferreira a Eduardo Lourenço senti-me criança outra vez. Não há como não gostar. À parte das perguntas - que por vezes achei desnecessárias - a clareza das respostas era de facto esplêndida. A forma esclarecida e profundamente conhecedora como o ensaísta descrevia o mundo era qualquer coisa de transcendental. Desarma-nos completamente.

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Passado, presente e futuro reúnem-se no discurso, sem nunca se confundirem, mas apenas para se complementarem. A riqueza de pensamento contrasta profundamente com a clareza e despretensão das suas palavras. É fantástico porque é algo extremamente raro! Poucos conseguem fazer prova de saber sem complicar o discurso. Só quem domina o conhecimento consegue simplificá-lo de forma a parecer "descomplexo". É por isso que Eduardo Lourenço é fascinante. Tudo parece simples sem o ser em momento algum.

"Sempre tive uma grande inaptidão para a realidade, para o real. Sou um pouco cego."

Eduardo Lourenço

Isto levar-me a pensar se no futuro vamos ter intelectos deste nível. Temos conhecimento, sim. Tecnologia, sem dúvida. Mas haverá sabedoria no sentido clássico do termo? Num tempo que se vive cada vez mais acelerado poderá prevalecer esta capacidade de distanciamento? De análise profunda? De apreciação? Haverá tempo para contemplar quando a leitura linear é cada vez mais difícil?

A verdade é que a importância histórica dos pensadores parece ser inversamente proporcional ao avanço do tempo. 

Não me parece possível sequer alcançar aqueles que estão gravados na memória coletiva analógica. O misticismo já não se forma no efémero mundo digital...

Adeus Eduardo Lourenço

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Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

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