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IN.SO.LEN.TE

Celebrar o 25 de abril é "desrespeitar o povo"???

O 25 de abril é uma das datas mais importantes na história deste cantinho à beira-mar plantado, que todos os anos celebramos como forma de honrar a restituição da democracia em Portugal. Fazêmo-lo para nos lembrarmos não só da importância da liberdade mas também do sofrimento que foi o regime repressivo de Salazar.

Depois de 48 anos de ditadura, foi neste dia que as Forças Armadas decidiram por fim levar a cabo a revolução que pôs ao fim ao Estado Novo. E o que era afinal o Estado Novo? Eu nunca saberei exatamente, pois nunca o vivi, mas de acordo com o livro "História de Portugal: O Estado Novo (1926-1974), de José Mattoso, foi "a mais longeva experiência autoritária moderna do Ocidente Europeu". Como é típico em regimes autoritários havia censura da imprensa, polícia política, culto do líder, um forte nacionalismo e pobreza a condizer (segundo me contam, claro).

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46 anos depois, a realidade é bem diferente. Vivemos num país com uma democracia sólida, que mesmo em Estado de Emergência (um estado de excepção, de duração limitada, previsto na Constituição da República Portuguesa) mantém os direitos fundamentais dos cidadãos. Este é um país onde, apesar da atual situação de pandemia, não houve nenhuma tentativa por parte do Governo de converter a saúde pública num pretexto para a repressão indiferenciada e permanente dos cidadãos, como aconteceu por exemplo na Hungria, onde o primeiro-ministro Viktor Orbán usou a Covid-19 como justificação para fazer aprovar um  estado de emergência sem limite temporal, que lhe permite governar por decreto e controlar o que é publicado nos meios de comunicação social. Note-se que este é um país (tecnicamente) democrático, que integra a União Europeia. Temos ainda os exemplos clássicos dos Estados Unidos, ou do Brasil, que embora tenham o rótulo de países democráticos, são liderados com base nos delírios dos seus Presidentes, que frequentemente pôem em causa aquilo que são as conclusões da ciência e as recomendações das entidades competentes. Depois há situações como a da China que (não sendo de todo democrática) aproveitou a crise de saúde pública para aumentar ainda mais a vigilância electrónica dos cidadãos.

Em Portugal, pelo contrário, a crise não aumentou o autoritarismo. Não vimos nenhum governante, presidente ou deputado a colocar em causa as conclusões da ciência, nem tampouco a negar a importância e gravidade da pandemia. Nenhuma medida restritiva foi adotada de forma permanente, e todo o procedimento relativo à implementação do Estado de Emergência foi transparente e democrático. Temos perfeita consciência dos erros que foram cometidos ao longo da evolução da pandemia porque nenhum deles nos foi ocultado. A incerteza sempre nos foi assumida e nunca negada. Apesar das restrições impostas acho seguro dizer que nenhum de nós se sente efetivamente em situação de prisão domiciliária, pois sabemos que - mesmo não estando aconselhados a fazê-lo - podemos sair à rua, ir às compras, auxiliar os nossos familiares, praticar exercício físico fora de casa e eventualmente ir trabalhar, se for caso disso.

Tudo isto acontece desta forma porque há 46 anos atrás os Capitães de Abril deram os primeiros passos para que assim fosse. Por estas e outras razões, é triste saber que há, neste momento mais de 40 mil portugueses a assinar uma petição para que não se celebre o 25 de abril em São Bento. Os peticionários indignados afirmam que "numa altura em que se pede que não exista concentração de pessoas, não se admite que a Assembleia, queira comemorar o 25 de abril, juntando centenas de pessoas no seu interior". Estas pessoas são, portanto unânimes quando consideram que é "uma vergonha o que aprovaram" em Assembleia de República, achando que os deputados que votaram a favor da realização da sessão solene comemorativa com 130 pessoas no parlamento "Não respeitam minimamente o POVO".

O meu apelo a estas pessoas é o seguinte: vejam bem o que significa a palavra "respeito", e "liberdade". Depois leiam jornais e informem-se sobre o aumento dos regimes autoritários no mundo. Depois comparem esses regimes com o nosso e congratulem-se com o facto de termos governantes que honram a democracia e insistem em celebrar a nossa tão bonita revolução, em vez de criticarem com hipocrisia os maus exemplos que possivelmente já todos vocês deram quando estão na fila para comprar pão! 

 

 



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Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

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