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IN.SO.LEN.TE

Acham mesmo que não somos racistas?

Tenho-me questionado muito sobre o tema do racismo. Pensei durante semanas se deveria de facto debruçar-me sobre este assunto por escrito, pois não quero nem admito ser rotulada de racista. Nunca me achei no direito de tratar alguém de forma diferente só com base na aparência ou proveniência. Tenho amigos de várias etnias e nacionalidades, pelo que sempre me considerei uma pessoa justa e tolerante.

Apesar disso o que tenho notado, à medida que me informo cada vez mais sobre a temática do racismo, é que eu própria tinha noções discriminatórias. Isto é para mim doloroso e vergonhoso de admitir, mas é verdade. Sei que, ao escrever isto, não estou a ser politicamente correta – e estou a dar o corpo às balas – mas tenho esperança de que sirva para que mais pessoas tenham noção desta inconsciência discriminatória que todos temos.

Na sociedade ocidental temos impregnado em nós um sentimento de superioridade de que não nos damos conta, e que só pode ser contrariado com a devida informação e educação. O meu apelo é, por isso, que se informem sobre o assunto (deixo aqui algumas sugestões) para que possam desfazer esses muros mentais com séculos de existência e, sim, deixar de ser racistas.

“Não há racismo em Portugal”

Esta é uma afirmação que me tem intrigado profundamente. Não é uma frase dita exclusivamente por Rui Rio e pelas direitas em geral, mas repetida por uma grande parte da população. Não me parece de todo verdade, mas ultimamente resisti em contestá-la e vou explicar porquê:

Nasci num meio rural, no interior, onde por natureza se aponta o dedo à diferença. Este hábito,  (que acredito que se repete um pouco por esse Portugal fora) não é necessariamente o reflexo de uma comunidade maldosa e conscientemente discriminatória, mas é o resultado de um ambiente onde todos estão habituados a reconhecer-se. Todas as caras são familiares, o que faz gerar desconfiança quando surgem "forasteiros". (Importante sublinhar que todos os ali vivem são portugueses brancos).

Numa comunidade deste tipo afirmar que existe de facto racismo em Portugal é ser alvo de chacota. “Vês alguém a discriminar alguém? Ou a tratar alguém mal?”. (De facto não vejo, porque aqui somos todos idênticos!). 

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Foto: Manuel de Almeida/Lusa

É por isso difícil confrontar as pessoas com a brutalidade dos seus dogmas porque, na maioria das vezes, não são capazes de admitir que se baseiam em algo errado. Na maior parte das vezes observo que as pessoas não têm sequer noção de que estão definir uma linha de separação entre "nós" e os "outros". Descredibilizar as certezas de uma vida - como "os brasileiros são preguiçosos" ou "os ciganos são todos manhosos" - é no minímo trabalhoso. Acredito que talvez esta falta de consciência do preconceito seja uma das razões pela quais é tão difícil ultrapassar o tema do racismo e da xenofobia, mesmo no século XXI.

Racismo não é só violência física, mas tudo o que envolva

a imposição da minha perspetiva de ser gente a outros que são diferentes de mim. Isso é pretensamente apresentado como uma missão cultural e civilizacional.

Não tenho por hábito citar o clero, mas neste caso José Ornelas Carvalho, novo presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, tem razão. É muito isto. E as raízes desta conceção, estão no facto de nós, ocidentais, acharmos que somos a civilização padrão, que serve de base para comparar todas as outras.

Não é verdade? Vamos testar.

Acha que:

Há grupos étnicos ou raciais por natureza mais inteligentes?

Há grupos étnicos ou raciais por natureza mais trabalhadores?

Há culturas, por natureza, mais civilizadas que outras?

Sim ou não? 

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Foto: Lucília Monteiro

Estas perguntas foram a base de um estudo elaborado pelo European Social Survey. Este estudo, relativo a 2018/2010 e divulgado hoje pelo jornal Público conclui que 62% dos portugueses manifestam racismo (!!!).

Porquê? Porque, e cito o artigo do Público:

Dos inquiridos, 62% concordou com pelo menos uma das crenças. A concordância com todas as crenças em racismo biológico [primeiras duas perguntas] e cultural [terceira pergunta] é de 32% — ou seja, um em cada três portugueses. Em contrapartida, os que discordam de todas crenças racistas representam apenas 11% da população. Isto significa que há três vezes mais pessoas a manifestar racismo do que a rejeitar as crenças racistas. 

Por tudo isto será que faz sentido continuarmos a afirmar que não somos um país racista? Ou será mais adequado pôr a mão na consciência e tentar educar-nos a nós próprios sobe o tema? “É preciso confrontar a realidade, e não negá-la, perceber que o problema está longe de ser resolvido e que poderá potencialmente ser agravado." Assim diz a demógrafa Maria João Valente Rosa.

Pessoalmente concordo, e estou a tentar contrariar essa realidade...

2 comentários

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    Anónimo 29.06.2020

    Não está sozinho (ou sozinha) na interpretação confusa do termo "cultura" pois é muito subjectivo e abrange várias áreas de uma sociedade e creio que não existe uma definição concreta do que é. E, na minha opinião, a pergunta está mal redigida porque sendo este termo tão incerto daí entendo porque muitos poderão ter respondido afirmativamente a nossa cultura é mais civilizada.
    Contudo, não quero acreditar que quem respondeu "não" tenha comparado em pé de igualdade a cultura portuguesa/europeia a actos de pura barbaridade, praticados por um grupo de extremistas do ISIS. Não esqueçamos que na Europa e em Portugal, muito actos de barbaridade foram cometidos no passado baseado em crenças e ideologias e não considero que isso seja cultura, como não considero que o ISIS tenha sido parte activa da cultura síria e iraquiana. Por isso que acho que deviam ter feito a seguinte questão "Há culturas, por natureza, superiores a outras?". Eu não acredito. Não acredito que a cultura tenha que ser hierarquizada e "imposta" a outras sociedades porque é civilizado fazê-lo. Não acredito que o rancho folclórico minhoto (que buscou elementos de dança do centro da Europa) seja superior ao haka Maori, ou que o fado (que retirou tantos elementos das culturas cigana, africana, árabe e lisboeta, onde tantos marinheiros viviam) seja superior ou mais civilizado que o morna, ou que o reggae seja inferior ou menos civilizado que música barroca ou jazz. Assim o é na música e dança, como é nos filmes, literatura, ficção e etc... Se há actos bárbaros legitimado em rituais e tradições? Há, e infelizmente em todo o mundo. E a começar em Portugal, onde ainda hoje são erigidas arenas para a prática de actos bárbaros em nome da cultura nacional ou na queima do gato em Mourão (Vila Flor). É dessa perspectiva que interpreto o sentido real do termo "cultura", mas como disse e bem, posso estar equivocado.
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