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IN.SO.LEN.TE

A necessidade de contexto e bom senso

Atualmente a polémica ofusca a realidade com uma facilidade tão grande que se torna aborrecidamente previsível. A polarização social transformou temas consensuais em tabus, fazendo com que acabemos por confundir o bom senso com a ingenuidade de julgamento. Só me espanta que ainda haja tanta gente que pensa poder compreender acontecimentos sem conhecer o contexto.

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Foto: Screenshot da Grande Entrevista de José Rodrigues dos Santos na RTP3

Bastou-me digitar "José Rodrigues Santos" para que as primeiras referências fossem as do seu alegado "negacionismo" face ao holocausto. A polémica em relação à Grande Entrevista que o escritor e jornalista deu na RTP3 - a propósito da óbvia  promoção dos seus novos livros "O Mágico de Auschwitz" e "O Manuscrito de Birkenau" -  pareceu-me sempre exagerada, mas não há como confirmar por nós mesmos e ver a razão da discórdia (na íntegra e não em excertos!).

“Aquilo foi um processo gradual que a certa altura há alguém que diz: ‘Estão nos guetos, estão a morrer de fome, não podemos alimentá-los. Se é para morrer, mais vale morrer de uma forma mais humana. E porque não com gás?'”.

José Rodrigues dos Santos

Conforme esperava, as declarações de José Rodrigues dos Santos foram profundamente descontextualizadas. Quando referiu estas palavras, o escritor falava no seguimento da explicação de que, contrariamente ao que é a crença mais comum, os nazis não chegaram ao poder e começaram imediatamente a exterminar judeus. Segundo JRS os judeus foram primeiro segregados do resto da população, sendo reunidos em guetos. As condições de vida foram sendo degradadas de forma gradual, e foi essa degradação que paulatinamente conduziu aos assassínios em massa, nomeadamente nas câmaras de gás. Houve, portanto, uma normalização da xenofobia, que se agravou.

 

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O que foi referido muito antes destas declarações - mas que é decisivo para compreender a lógica das mesmas - foi a pergunta de Vítor Gonçalves em relação ao conceito de "banalidade do mal", de Hannah Arendt, algo que é, inclusivamente, retratado no livros de JRS. Este conceito foi explorado pela filósofa no livro “Eichmann em Jerusalém", obra escrita na sequência do julgamento de Adolf Eichmmann, no pós-guerra.

Durante o processo, Arendt constantou que o oficial nazi, que cometeu indescritíveis atrocidades durante a II Guerra, não o terá feito por ser alguém maquiavélico, mas principalmente pelo facto de acreditar estar a cumprir ordens que, em última instância, desresponsabilizariam os seus atos. Eichmann não seria, portanto, alguém psicopata, mas um funcionário que executou ordens sem as questionar, executando o mal originário de hierarquias superiores. 

É esta tese que está na origem das declarações referidas, e que importa ter em conta ao julgar JRS.

Confesso que não acho que a escolha de palavras do escritor tenha sido a mais feliz, mas também não creio que considere que os nazis eram misericordiosos ao exterminar judeus. Não foi essa a ideia que ele quis transmitir, mas antes a crença dos nazis de que os seus atos eram feitos em prol de um bem maior. Eles (nazis) acreditavam estar a "salvar a humanidade", e esse delírio foi o que os levou a cometer as atrocidades que todos conhecemos.

Perante toda a leva de críticas a que foi sujeito, JRS acabou por esclarecer isto mesmo, na sua página de Facebook:

O problema destes comentários é que eles ignoram um facto evidente para qualquer pessoa de boa fé que veja toda a entrevista e que leia os dois volumes da minha obra na íntegra: em momento algum eu defendi que os gaseamentos eram humanitários. Mais ridículo do que eu sustentar tal absurdo é haver pelos vistos pessoas que têm suficiente falta de bom senso para achar que eu penso tal coisa.
 
O que eu expliquei, e que julgo que é claro para qualquer pessoa que sem preconceitos e estereótipos me oiça e leia, é que os nazis invocaram razões humanitárias para o extermínio, o que é bem diferente. Quando eu digo “A certa altura há alguém que diz – Eh, pá, estão nos guetos, estão a morrer de fome, não podemos alimentá-los. Se é para morrer, mais vale morrer de uma forma mais humana. E porque não com gás?”, estou apenas a citar de improviso o raciocínio dos nacional-socialistas, não o meu.
 
Esse raciocínio está plasmado no primeiro documento nazi existente a preconizar explicitamente o extermínio dos judeus. Esse documento foi enviado de Poznan a Adolf Eichmann a 16 de julho de 1941 pelo oficial SS Rolf Hoppner, e consultei-o na sua tradução para inglês: “Existe este inverno o perigo de não se conseguir alimentar todos os judeus. Dever-se-ia considerar seriamente se não seria uma solução mais humana eliminar os judeus (dispose of the Jews), designadamente os que não conseguem trabalhar, através de um agente de morte rápida (quick-acting agent). Seria melhor do que deixá-los morrer à fome.”
 
Quando Hannah Arendt, em Eichmann in Jerusalem, falou na banalização do mal, não se referia necessariamente ao conceito de que o mal se tornou banal mas à ideia de que o mal era perpetrado por pessoas banais. Muitos sobreviventes do Holocausto disseram a mesma coisa. Os SS que estavam nos campos não eram necessariamente psicopatas (embora também os houvesse), mas pessoas normais. Como é possível que pessoas normais aceitassem envolver-se em ações de extermínio? Essa é a grande questão, o grande mistério suscitado por Arendt e que tantas pesquisas alimentou até no ramo da psicologia.

José Rodrigues dos Santos

Posto isto, pergunto: Não será já hora de parar com conclusões apressadas baseadas em excertos não elucidativos do contexto?

2 comentários

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    A INSOLENTE 08.12.2020

    Igualmente... de facto devo dizer que fiquei um pouco desapontada com ele...
  • Comentar:

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