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IN.SO.LEN.TE

Negar factos para evitar mudanças

Negar factos é uma boa forma de escapar à culpa. De facto torna-se inverosímil sermos acusados de algo quando não admitimos a sua ocorrência. É por isso que o negacionismo é perverso e obscenamente desresponsabilizador. Além disso é uma forma eficaz de oposição à mudança, pois a não admite a necessidade de alterações a uma realidade confirmada.

No livro “Denialism: How Irrational Thinking Hinders Scientific Progress, Harms the Planet, and Threatens Our Liveso jornalista da New Yorker Michael Specter define o negacionismo como algo que acontece quando, confrontado com o drama da mudança, um segmento da sociedade prefere voltar-se para uma mentira confortável, ao invés de enfrentar a realidade. O autor refere-se especificamente à descredibilização política da ciência e à forma como essa prática coloca em causa o bem-estar dos cidadãos. O livro foi escrito há mais de uma década mas continua atual, e a tese aplica-se perfeitamente a fenómenos sociais que estão a acontecer em Portugal.

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 Fachada da sede do SOS Racismo vandalizada. DR

 

Perante o apoio generalizado ao movimento Black Lives Matter, o partido do deputado único André Ventura saiu à rua para negar a causa defendida, alegando que “Portugal Não é Racista”. Já antes tinha dito na Assembleia da República que “O racismo estrutural é um fantasma que não existe em Portugal, é um fantasma que nos querem trazer para a discussão de temas ou para esconder outros”. Tudo isto numa altura em que o racismo é amplamente discutido a nível nacional e internacional, discussão que aliás tem como objetivo levar a cabo mudanças na sociedade (e sublinho aqui a ligação mencionada anteriormente entre negacionismo e oposição a mudanças).

Mais recentemente, Portugal viu uma assustadora manifestação (em frente à sede da SOS Racismo) que gerou pouco mais do que um encolher de ombros a nível nacional. Dias depois da ação que tinha elementos iconográficos muito semelhantes a grupos supremacistas brancos - como Klu Klux Klan – dirigentes da referida associação e deputados de esquerda foram ameaçados, numa carta que coloca em causa a segurança das suas famílias. Tudo porque pedem mudanças.

Perante esta situação o mesmo deputado único de extrema-direita diz no Twitter, e cito: “Todos os dias são feitas publicamente ameaças à minha vida ou de outros membros do Chega. Alguém ouviu alguma vez falar de racismo? Ou viu a indignação de Ferro Rodrigues? Mas eles precisam desta narrativa do racismo…”.

Perante pessoas diretamente ameaçadas - numa carta que dá prazo para que abandonem o país - o deputado prefere negar a gravidade da situação, tentando não apenas desvalorizar mas descredibilizar todas as ameaças em causa. O argumento utilizado é precisamente a negação do racismo e da discriminação.

É conhecida e amplamente estudada a ligação entre negacionismo,
extremismo, nacionalismo e, sim, nazismo. Isto porque negar problemas é negar as causas que lhe são intrínsecas e equivale a fingir argumentos para contrariar as necessidades de inclusão. As ameaças a que dirigentes associativos e políticos foram submetidas não podem ter lugar no Portugal democrático. Não admitir a sua gravidade é assumir o negacionismo crónico da extrema-direita e fechar os olhos à necessidade de mudança. O primeiro passo para solucionar problemas é encará-los de frente e aceitar que existem. Paremos de negar o evidente.

 

(este texto foi originalmente publicado em https://www.publico.pt/2020/08/14/p3/cronica/negar-factos-evitar-mudancas-1927975)

Ventura e o "novo apartheid"

Lembram-se do Apartheid na África do Sul? Era um sistema de segregação racial, assente nas supostas diferenças entre "brancos" e "negros", que tinha por base a ideia de que não devia haver "misturas de raças". A maioritária população negra era considerada "inferior" e era obrigada a viver afastada, em zonas separadas geralmente rurais, sem saneamento nem condições. Havia casas de banho distintas e lugares diferentes nos transportes públicos. O Apartheid era a discriminação racial expressa na lei, e terminou em 1994.

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Joanesburgo, 1990. Foto: Joanne Rathe/Boston Globe

 

Chegámos a 2020, ano em que uma pandemia obrigou o mundo a fechar-se em casa e evitar o contacto social. Perante as preocupações sanitárias, os países vivem alarmados, preocupados com os aumentos de contágio que já acusam graves impactos económicos. Apesar disso a pandemia e o protecionismo não podem ser justificação para tudo. Temos de estar alerta e não nos deixar cair em populismos que não fazem mais do que estupidificar a política, enaltecer ódios e instrumentalizar a saúde pública para legitimar discriminações.

É isso que faz André Ventura, cujo nível de argumentação e discurso está ao nível de uma truta.

A nova proposta apresentada pelo Chega! de um plano de confinamento específico para a comunidade cigana não é apenas inconstitucional, mas obscenamente racista e xenófoba. O deputado único daquele partido enviou mesmo cartas ao CDS, Iniciativa Liberal e PSD, convocando-os a aliarem-se à proposta. Numa delas, dirigida a Rui Rio, diz:

Penso que concordará que as comunidades ciganas – ou melhor, o seu comportamento e atitudes específicas -, não caindo em generalizações de qualquer tipo, representam hoje um forte problema de segurança e saúde pública nalgumas regiões do país. 

Comentar isto é doloroso, para qualquer pessoa com capacidade de raciocínio. Primeiro fala em "comunidades ciganas", depois afirma que não quer cair em generalizações... além disso tenta implicitar a concordância de Rio, alegando um "forte problema de saúde pública nalgumas regiões do país", sem dizer quais ou dar dados das mesmas. Esta afirmação tem o rigor e validade de uma conversa de café...

O que é grave aqui, é que me parece que esta estupidez é propositada. Ventura sabe perfeitamente que nada disto faz sentido, mas também sabe que é sempre mais eficaz apelar ao ódio do que à razão. O jogador Quaresma condenou esta atitude de forma exemplar:

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Perante a falta de argumentos, o deputado CMTV chegou ao ridículo de afirmar que 

é lamentável que um jogador da selecção nacional se envolva em política. Espero que as autoridades do futebol não deixem que isto se torne o novo normal.

Qual é a ideia? Passar um amarelo ao Quaresma porque exprimiu uma opinião publicamente? De facto dá vontade de rir...A mesma pessoa que faltou a um debate político para comentar futebol - e que ganhou popularidade precisamente a comentar futebol - vem tentar descridibilizar a opinião legítima de um cidadão, que por acaso é atleta.

Quando há falta de argumentos só resta mandá-los calar... 

Felizmente a larga maioria da sociedade portuguesa tem noção deste ridículo e do "novo apartheid cigano" a que a aprovação da proposta iria previsivelmente conduzir.

Celebrar o 25 de abril é "desrespeitar o povo"???

O 25 de abril é uma das datas mais importantes na história deste cantinho à beira-mar plantado, que todos os anos celebramos como forma de honrar a restituição da democracia em Portugal. Fazêmo-lo para nos lembrarmos não só da importância da liberdade mas também do sofrimento que foi o regime repressivo de Salazar.

Depois de 48 anos de ditadura, foi neste dia que as Forças Armadas decidiram por fim levar a cabo a revolução que pôs ao fim ao Estado Novo. E o que era afinal o Estado Novo? Eu nunca saberei exatamente, pois nunca o vivi, mas de acordo com o livro "História de Portugal: O Estado Novo (1926-1974), de José Mattoso, foi "a mais longeva experiência autoritária moderna do Ocidente Europeu". Como é típico em regimes autoritários havia censura da imprensa, polícia política, culto do líder, um forte nacionalismo e pobreza a condizer (segundo me contam, claro).

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46 anos depois, a realidade é bem diferente. Vivemos num país com uma democracia sólida, que mesmo em Estado de Emergência (um estado de excepção, de duração limitada, previsto na Constituição da República Portuguesa) mantém os direitos fundamentais dos cidadãos. Este é um país onde, apesar da atual situação de pandemia, não houve nenhuma tentativa por parte do Governo de converter a saúde pública num pretexto para a repressão indiferenciada e permanente dos cidadãos, como aconteceu por exemplo na Hungria, onde o primeiro-ministro Viktor Orbán usou a Covid-19 como justificação para fazer aprovar um  estado de emergência sem limite temporal, que lhe permite governar por decreto e controlar o que é publicado nos meios de comunicação social. Note-se que este é um país (tecnicamente) democrático, que integra a União Europeia. Temos ainda os exemplos clássicos dos Estados Unidos, ou do Brasil, que embora tenham o rótulo de países democráticos, são liderados com base nos delírios dos seus Presidentes, que frequentemente pôem em causa aquilo que são as conclusões da ciência e as recomendações das entidades competentes. Depois há situações como a da China que (não sendo de todo democrática) aproveitou a crise de saúde pública para aumentar ainda mais a vigilância electrónica dos cidadãos.

Em Portugal, pelo contrário, a crise não aumentou o autoritarismo. Não vimos nenhum governante, presidente ou deputado a colocar em causa as conclusões da ciência, nem tampouco a negar a importância e gravidade da pandemia. Nenhuma medida restritiva foi adotada de forma permanente, e todo o procedimento relativo à implementação do Estado de Emergência foi transparente e democrático. Temos perfeita consciência dos erros que foram cometidos ao longo da evolução da pandemia porque nenhum deles nos foi ocultado. A incerteza sempre nos foi assumida e nunca negada. Apesar das restrições impostas acho seguro dizer que nenhum de nós se sente efetivamente em situação de prisão domiciliária, pois sabemos que - mesmo não estando aconselhados a fazê-lo - podemos sair à rua, ir às compras, auxiliar os nossos familiares, praticar exercício físico fora de casa e eventualmente ir trabalhar, se for caso disso.

Tudo isto acontece desta forma porque há 46 anos atrás os Capitães de Abril deram os primeiros passos para que assim fosse. Por estas e outras razões, é triste saber que há, neste momento mais de 40 mil portugueses a assinar uma petição para que não se celebre o 25 de abril em São Bento. Os peticionários indignados afirmam que "numa altura em que se pede que não exista concentração de pessoas, não se admite que a Assembleia, queira comemorar o 25 de abril, juntando centenas de pessoas no seu interior". Estas pessoas são, portanto unânimes quando consideram que é "uma vergonha o que aprovaram" em Assembleia de República, achando que os deputados que votaram a favor da realização da sessão solene comemorativa com 130 pessoas no parlamento "Não respeitam minimamente o POVO".

O meu apelo a estas pessoas é o seguinte: vejam bem o que significa a palavra "respeito", e "liberdade". Depois leiam jornais e informem-se sobre o aumento dos regimes autoritários no mundo. Depois comparem esses regimes com o nosso e congratulem-se com o facto de termos governantes que honram a democracia e insistem em celebrar a nossa tão bonita revolução, em vez de criticarem com hipocrisia os maus exemplos que possivelmente já todos vocês deram quando estão na fila para comprar pão! 

 

 



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Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

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