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IN.SO.LEN.TE

Ditadura dos convictos II

Se há coisa que me incomoda são as certezas absolutas.

aqui tinha escrito sobre isso (num contexto mais específico), mas a pertinência do assunto leva-me a querer escrutinar mais ainda a questão. Isto porque acredito que a certeza leva à intransigência e ao extremismo. Quanto mais leio e me tento informar mais dúvidas me surgem, pelo que não consigo compreender que haja tanta gente a vestir camisolas ideológicas sem as colocar sob a lupa do espírito crítico. Falo não só de política (e de populismo ) mas de muitas outras coisas, algumas tão aparentemente simples como o desporto (que, se pensarmos bem, acaba por ser um pouco político, mas já nem vou entrar nesse caminho).

Parece-me que há cada vez mais uma tendência para o fundamentalismo, observável a olho nu na internet. Fecha-se a porta a opiniões contrárias porque se crê na verdade absoluta das próprias. Nem vale a pena escutar quem pensa diferente, pois isso poderia confirmar a hipótese remota de estarmos a ver as coisas de forma errada. A crítica (não construtiva) gratuita e a falta de contenção sobrepõem-se ao bom senso e o resultado é simplesmente alarmante.

É verdade que por vezes se torna difícil tomar uma posição, mas pessoalmente gosto de ler aquilo com que não concordo, porque mesmo não que não me reveja no texto isso não o torna menos enriquecedor. Antes pelo contrário. 

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Infelizmente os algoritmos digitais das redes sociais não favorecem esta postura divergente. Um artigo publicado hoje no jornal Público analisa a subjetividade do extremismo e a forma como esse facto está ligado à própria configuração das plataformas de partilha de conteúdo.

“As redes sociais estão a promover grupos homogéneos, convictos de que estão do lado da razão”, resume ao PÚBLICO Fabian Baumann, físico da Universidade Humboldt, na Alemanha. Baumann usa fórmulas matemáticas para analisar o discurso nas redes sociais. “Temos pessoas com as mesmas opiniões a interagir entre si, a repetir as mesmas ideias e a criticar as mesmas pessoas, o que as impede de questionarem as suas opiniões.”

Ainda no mesmo artigo é referido que:

“Tornou-se evidente que na Internet ninguém se encontra no centro. As pessoas estão a falar do que ouvem e a ouvir do que falam”, conclui o físico, que acredita que ver pessoas divididas em grupos ideológicos é muito mais fácil online. “As grandes plataformas como o Twitter, o Facebook e o YouTube aceleram um processo que já é humano”, admite. “No mundo real, quando andamos na rua ou vamos a eventos, somos confrontados com pessoas muito diferentes.”

Acredito que esta é a verdadeira pandemia do século XXI. Não é possível construir opiniões fundamentadas com base numa única visão dos factos. A forma mecânica e vincadamente emocional com que somos guiados nos conteúdos da internet é preocupante e tem um impacto enorme na proliferação da desinformação. E é cada vez mais difícil contrariar. (Este caso de desinformação climática relatado pelo Diário de Notícias é só um exemplo). Vou arriscar o dramatismo e dizer que estamos perto de viver na Matrix.

Pedro Mexia acaba por referir isto numa entrevista (extremamente interessante) que hoje saiu no jornal Público. Mexia referia-se ao universo da crítica literária, mas a tese é válida no contexto a que me refiro. 

a legitimação já não é uma evidência: o que as pessoas tendem a dizer é: “O que é que me interessa a opinião desta pessoa?” Percebo, não concordo, porque há razões para uma pessoa ser melhor do que outra. Porque os jornais e revistas generalistas já não fazem parte do quotidiano das pessoas. Mas se isso é problemático na critica literária, o que dizer da crítica de cinema; é totalmente deslegitimizada pela Internet. As pessoas hoje em dia não conseguem achar que há uma pessoa que viu mais filmes e que os viu melhor, e que sabe mais. Que há uma dimensão objectiva segundo a qual podemos dizer que um escritor ou um cineasta é melhor do que outro. Depois isso fica aberto a discussão e a revisitações periódicas.

Não poderemos evoluir sem confronto de opiniões, pelo que a intransigência não nos leva a lado nenhum. Está na altura de começar a sair da caverna da convicção (conselho dado por quem vive com dúvidas)...

 

Hiroshima e as novas disputas

Faz hoje 75 anos que Hiroshima foi bombardeada pelos Estados Unidos da América, durante a Segunda Guerra Mundial, ficando na História como palco de um dos maiores massacres de sempre. A data passou algo incólume, quase como uma nota de rodapé, perante a igualmente lamentável explosão em Beirute, no Líbano, mas não deve ser ignorada.

Vale a pena destacar o discurso de Kazumi Matsui, presidente da câmara de Hiroshima que, durante as cerimónias que assinalaram a data sublinhou que 

“um subsequente aumento do nacionalismo levou à Segunda Guerra Mundial e aos bombardeios atômicos. Jamais devemos permitir que esse passado doloroso se repita. A sociedade civil deve rejeitar o nacionalismo autocentrado e unir-se contra todas as ameaças. ”

O autarca destacou a importância para o Japão de ratificar o Tratado de Proibição de Armas Nucleares, mas foi basicamente ignorado pelo governo.

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Cerimónia dos 75 anos de Hiroshima. Foto: Dai Kurokawa/EPA

 

A bomba atómica - em Hiroshima e também em Nagasáqui - foi de facto um acontecimento de proporções monstruosas, que matou centenas de milhares de pessoas, e deixou sequelas em outras tantas. Sob o nome de código "Projeto Manhattan" foi elaborada uma gigantesca construção da física que envolveu o trabalho de centenas de cientistas e investigadores. Tudo em prol da guerra e do nacionalismo exarcebado.

Setenta e cinco anos depois, as ambições territoriais e as disputas geopolíticas continuam na agenda. De facto, um dos maiores perigos que enfrentamos e que, passados tantos anos, continua a ser uma ameaça é o nacionalismo.

António Guterres fez referência a isto mesmo, há uma semana atrás. Num discurso tão claro quanto abrangente  - a que tive o privilégio de assistir presencialmente - o secretário-geral da ONU exprimiu preocupação com o "vacinonacionalismo", que está a materializar-se aquando da procura por uma vacina para a covid-19. Guterres destacou a necessidade de este ser um bem público mas, infelizmente, não parece que isso vá acontecer.

A corrida pela vacina está a agudizar a competição internacional e a afetar a qualidade da investigação científica. A informação sobre o coronavírus é a nova arma, e ganha uma importância cada vez mais decisiva para a diplomacia internacional (já há hackers a trabalhar para a obter). Basta pensar que estamos a atravessar uma fase de profunda instabilidade, em que a quarentena obrigatória (ou a falta dela) passou a ser símbolo de fortalecimento de relações entre países.

O mundo começou por enfrentar a pandemia colocando a saúde no topo das preocupações, mas o choque de realidade - em que todos percebemos que a crise pandémica vai perdurar mais do que se pensava - institucionalizou a doença, tornando-a parte integrante de todas as vertentes da sociedade (política incluída). Não é, por isso, surpreendente que a covid-19 (e respetivos número de casos de infeção) se torne o barómetro através do qual acontecem as relações internacionais.

Não sabemos como pôr fim a esta pandemia, mas sabemos que, tal como a bomba atómica, já mudou o mundo de forma catastrófica. Cabe agora a todos nós cooperar ao invés de disputar, isto se quisermos mesmo controlar os estragos.

Cegueira de um país

«Pior cego é aquele que não quer ver»

...ou alguma coisa parecida com isto, é o provérbio que melhor se adequa a Portugal neste momento. Acho hilariante que, no país onde impera a perplexidade perante as constantes mudanças de posição de Donald Trump, ou o escandaloso negacionismo de Bolsonaro, se observe um crescimento drástico do partido que procura agir como eles.

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Foto: José Sena Goulão/LUSA

Segundo uma sondagem feita pelo Centro de Estudos e Sondagens de Opinião (Cesop) da Universidade Católica para o PÚBLICO/RTP (entre os dias 13 e 18 de Julho, com 1482 inquéritos válidos): 

A subida do Chega destaca-se das demais oscilações. Trata-se de um partido que elegeu um deputado em Lisboa (...) e que nesta sondagem aparece com a dimensão eleitoral de partidos como o BE ou a CDU”. Os peritos lembram que “sondagens são sondagens” mas que os dados deste inquérito mostram inequivocamente que este é o partido que mais está a crescer nesta legislatura”. 

Ou seja, mesmo perante as notícias sobre a ligação a pastores e líderes evangélicos, notícias que relatam que o partido defendeu, no programa eleitoral, o fim dos serviços públicos na educação e saúde, que integra grupos de extrema-direita (mas que negou ser de extrema-direita), que André Ventura falta a debates na Assembleia da República para fazer propaganda pelo país, que possui ligações a empresários poderosos (alguns dos quais ligados ao fornecimento de armas ao Estado), que o partido faz crescer a audiência com base em perfis falsos nas redes sociais, ainda há pessoas que acham que é uma opção a considerar para o país!? Já esperava que o partido crescesse assim que pusesse o pé na AR - a exposição mediática não podia senão favorecê-lo - mas confesso que não esperava um crescimento tão expressivo num tão curto espaço de tempo. Especialmente tendo em conta que caímos numa crise pandémica para a qual Ventura nunca deu contributo algum.

Não compreendo como, perante estas evidências, muitos ainda consideram que "ele diz o que ninguém quer dizer". Se o discuro político do Chega é tão "fácil de compreender" então é porque é construído sem complexidade e profundidade. 

A "simplicidade" das afirmações é feita com base na omissão de pormenores relevantes. É fácil dizer o que a população quer ouvir, quando se omite as condicionantes a que a concretização dessas propostas obrigaria.

Política não é simples. Democracia muito menos. Fazer e apresentar as propostas de modo descomplexo e redutor é, pura e simplesmente, desconsiderar universos que não podem ser desconsiderados quando se vive numa sociedade justa e plural. Simplificar é reduzir. Reduzir é limitar. Ponto final. 

 

 

 

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Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

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