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IN.SO.LEN.TE

Meio ano de pandemia e uma vida de precariedade

Olhar para trás após seis meses de pandemia é ver tentar o passado recente com binóculos de longo alcance.

Como sempre acontece no âmbito do nostálgico, vemos os tempos A.C. (Antes do Covid) em tons de sépia reconfortante, relembrando uma era em que tudo era mais simples. Temos a sensação de que "éramos tão felizes" apenas porque tínhamos a liberdade de ir onde quiséssemos, quando quiséssemos, sem estar preocupados em apanhar uma doença contagiosa com um aperto de mão. Mas se calhar não era tudo assim tão bom...

Muitas das mudanças sociais, políticas, económicas (...) a que assistimos no último semestre não são fruto do vírus, mas do medo que temos dele. Na realidade há, pelo menos, mais de duzentos vírus capazes de desencadear doenças em humanos, mas seria o SARS-COV-2 que faria correr mais tinta em papel de jornal e ficaria na história como a doença que obrigou o mundo globalizado a barricar-se em casa.

Não procuro aqui desvalorizar os efeitos e sintomas do novo coronavírus - que são obviamente preocupantes - mas apenas destacar o facto de que o nosso contexto e, consequentemente, a percepção que temos do mundo contemporâneo, são decisivos na forma como somos afetados pela dificuldade imposta pelo coronavírus. João Miguel Tavares teve (e tem) razão quando afirmou  - em março longínquo - que "a quarentena é um privilégio burguês". Isto é a mais dura verdade não só porque o isolamento pressupõe claramente a existência de uma habitação condigna, como também o teletrabalho só é possível para quem tem a profissão à distância de computador com internet (uma minoria, portanto).

A covid-19 e as medidas de contingência a que obriga levam-nos a pensar que fomos encurralados de um dia para o outro, que todos os nossos planos foram interrompidos, que sofremos uma fatalidade inesperada, mas o facto é as dificuldades que cada um enfrenta hoje são o reflexo das fragilidades que já existiam. O mundo mudou, é verdade, mas não mudou assim tanto. O que aconteceu foi que os problemas são agora mais visíveis a olho nu. 

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Foto: Roman Tarasevych/shutterstock

Vem isto a propósito da precariedade e do aumento do desemprego jovem noticiado esta semana.

Este é um problema que existe há muito em Portugal, e, pessoalmente, é algo com que lido desde que me lembro. Se a pandemia fez aumentar o número de jovens desempregados é tão só porque estes não estavam numa situação laboral estável, o que está longe de ser uma novidade.

A precariedade e o desemprego jovem estão de tal forma enraizados no mercado de trabalho atual que muitos de nós - e quando digo "nós" falo de millennials - encaram um trabalho mal-pago sem vínculo permanente como uma vitória, se este se inserir minimanente na área para a qual estudámos. 

Tal como é referido nesta reportagem do Público (que veio a propósito do tema), nós, jovens licenciados, vivemos numa frustração constante que oscila entre a necessidade de experiência na área e o esgotamento do leque dos estágios com apoio estatal (quando o estágio profissional deixa de ser possível deixamos de ser uma escolha para os empregadores). Estamos constantemente no limbo entre o imperativo de especialização, e a necessidade de ser versátil. Além disso, quando o emprego qualificado não existe, passamos a aceitar o que quer que seja que dê sustento, nem que seja "até nos conseguirmos orientar". A partir daqui torna-se cada vez mais díficil. O trabalho supostamente temporário monipoliza o tempo e a esperança e só a teimosia nos leva a insistir no envio de CV's.

É triste que assim seja, mas infelizmente é a minha (nossa!) realidade. Nas salas da universidade somos todos a personificação do futuro promissor, mas cá fora somos só mais um igual a outros tantos.

Tendo isto em mente, só pode ser classificada de demagógica a forma como António Costa e Manuel Heitor exaltam o aumento histórico do número de candidatos ao ensino superior. Sou da opinião que o saber não ocupa lugar, e que o investimento na educação nunca é a fundo perdido, mas isso não é motivo para tentar iludir os cidadãos com números que omitem consequências, especialmente tendo em conta que:

-o aumento do número de candidatos foi pura e simplesmente fruto do facilitismo nos critérios de avaliação dos exames nacionais do secundário, que permitiram a muitos jovens aumentar as notas;

-não há vagas para todos (apesar de Manuel Heitor achar que resolve o problema com vagas dos alunos internacionais);

-mesmo que as vagas fossem suficientes, há alunos que nunca chegam a matricular-se por dificuldades económicas e outros que não terminam as suas formações pelo mesmo motivo (veja-se esta reportagem do Diário de Notícias, que revela o agravamento desta situação devido à pandemia) - ou seja, o aumento de candidatos, para se traduzir num aumento de diplomados, tem necessariamente de incluir um aumento dos apoios sociais.

É certo que não podemos apenas ver o lado negro, e precisamos de sinais de esperança que nos façam crer num futuro mais risonho, mas não desta forma. A precariedade é um problema crónico que vai agravar-se com a pandemia. Acenar aos cidadãos com números crescentes de ilusões a prazo é apenas hipocrisia.

Demasiada concordância

Ter os olhos postos no que se passa lá fora não pode ser razão para encolher os ombros perante o que se passa cá dentro. 

No mesmo dia em que (finalmente) os líderes europeus chegam a acordo quanto aos valores da "bazuca" (que supostamente nos vai resgatar da crise Covid-19 e tornar a Europa mais verde e digital) foi aprovado (em votações indiciárias) o fim dos debates quinzenais em Portugal

A coincidência de calendário desviou as atenções do público para Bruxelas, levando a uma lamentável desvalorização mediática de uma mudança tão relevante para o funcionamento da democracia. Se a proposta (elaborada pelo PSD) for aprovada no parlamento António Costa só terá de ir à Assembleia da República responder a questões de dois em dois meses (os debates são mensais, mas o primeiro-ministro irá alternar a presença com outros governantes). Este assunto tem passado demasiado incólume no debate público e quase parece que é vontade dos intervenientes que assim seja. 

 

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Foto: Inácio Rosa/LUSA

Que António Costa não achava graça ao regime quinzenal já era sabido (em Novembro de 2013 já ele tinha criticado o modelo que descrevia como “uma das invenções mais estúpidas que a Assembleia da República teve nos últimos anos”.). Estranho é que o PSD, o maior partido da oposição, tenha sido quem avançou com a proposta que reduz as ocasiões para questionar o atual chefe de Governo.

Acho demasiado dúbias as motivações de Rui Rio para apresentar esta proposta. Onde está o interesse público no meio desta tentativa de "enobrecer os debates com o primeiro-ministro e o Governo”, nas palavras do próprio líder social-democrata? O que pode motivar esta iniciativa senão interesses próprios de governação futura? Tudo isto é estranho e soa demasiado a complô do Bloco Central...

 

Rio não está sozinho – o PS apoia o fim dos debates quinzenais. Que o líder do PSD não entenda que com esta vertigem antiparlamentar e populista alimenta o monstro que ameaça as democracias ocidentais é uma pena. Que o PS o “ajude” a deixar “o primeiro-ministro trabalhar” é igualmente lamentável. 

Ana Sá Lopes, diretora-adjunta do jornal Público

 

Se no início da pandemia aplaudi a postura de "colaboração" que Rui Rio assumiu na Assembleia da República, agora já me parece que a parceria foi um bocadinho longe demais. Até dentro do PSD há vozes a levantar-se contra esta proposta:

De entre as profundas mudanças no funcionamento do Parlamento introduzidas em 2007, uma há que, tanto no universo da política, quanto fora dele, tem sido vista como uma significativa melhoria, pela dimensão acrescida que trouxe ao escrutínio político do Governo, mas também à sempre necessária vivacidade do trabalho parlamentar – trata-se, precisamente, do modelo dos debates quinzenais. Para quê, então, mudar o que está bem? 

José Matos Correia, ex-deputado do PSD

Os partidos que fizeram campanha a referir a importância de "melhorar a qualidade da democracia" (ver programas eleitoriais do PS e do PSD) mostram que não valorizam a pluralidade e o confronto de ideias. Ou pelo menos não com tanta frequência.
A diminuição da periodicidade dos debates com o primeiro-ministro é uma redução desnecessária do escrutínio ao Governo. É verdade que muitas vezes a discussão parlamentar descarrila para clubismo partidário, mas isso não pode ser motivo para regredir desta forma. 

Centeno e os "abraços" em suspenso

Mário Centeno pôs ontem o lugar à disposição.

O “Ronaldo das Finanças” demite-se numa atmosfera que deixa muitas dúvidas quanto às motivações que o levam a sair, especialmente tendo em conta que escolhe o dia de apresentação do Orçamento Suplementar para virar as costas.

O Ministro que quebrou vários "recordes" elabora e revela um documento que não irá defender na Assembleia da República, passando a bola para as mãos do seu Secretário de Estado do Orçamento e futuro Ministro de Estado e das Finanças, João Leão. É no mínimo curiosa a escolha do timing e deixa no ar a ideia de um cansaço e mal estar governativo que se terá tornado incomportável. 

O percurso de Centeno no Governo foi uma ascensão e queda digna de filme: começou aos tropeções, com uma figura desajeitada que não inspirava confiança - especialmente porque Bruxelas teimava em descredibilizar o seu trabalho e colocar dúvidas face às previsões de controlo do défice. Perante o sucesso da estratégia assente em cativações – que permitiu a Portugal sair do procedimento por défice excessivo – Centeno passou a entranhar as preferências dos Portugueses. E com mérito, sublinhe-se.

Sem Título.pngFoto: Mário Cruz/LUSA

Foi, em tempos que agora parecem longínquos, o terceiro político mais popular do país, logo após o Presidente da Republica e o Primeiro Ministro, de tal forma que se tornou um arquétipo de trunfo eleitoral até para a oposição (recorde-se que Rui Rio afirmou na campanha para as legislativas ter também o "seu" Centeno). O ministro tornou-se sinónimo de equilíbrio financeiro, consolidado com o primeiro superavit alcançado na história da democracia portuguesa.

No sistema financeiro não há azar, há inacção.

Mário Centeno, em entrevista ao jornal Público, julho de 2019

Após conseguir establizar a banca - nomeadamente em gestão de crises polémicas como a do Banif, Caixa Geral de Depósitos ou Novo Banco - Centeno é confrontado com uma força maior que o poder da carga fiscal: uma epidemia que faz a economia parar, obriga o Governo a abrir os cordões à bolsa para evitar o colapso e deita por terra as previsões de crescimento económico.

Como se isso não bastasse surge pelo meio a problemática da injeção planeada de 850 milhões no Novo Banco, feita aparentemente "à revelia" de António Costa. Esta alegada “falha de comunicação” entre o Primeiro-Ministro e o Ministro das Finanças quase ditou o fim imediato do casamento, e nem a encenação das pazes feita em São Bento pôs fim às dúvidas quanto à continuidade nas Finanças. O ministro não saiu bem visto deste imbróglio - sobre o qual já me debrucei anteriormente - e era cada vez mais previsível que iria abandonar o executivo. 

Assim, passados "1664 dias" como Ministro das Finanças e "912 dias" como presidente do Eurogrupo, Centeno não teve uma saída propriamente triunfal. Se antes António Costa o apresentava como o seu grande trunfo, agora parece tê-lo mantido à margem. Não falo apenas da polémica do Novo Banco, mas também do "paraministro" (António Costa Silva) com quem Centeno nunca falou (!) Tudo isto culmina numa demissão em plena crise pandémica. O Banco de Portugal aguarda? Costa não esclarece...

No fim de tudo o que ficámos realmente a saber? Apenas que os "abraços" terão de ficar para depois ... 

 

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Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

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