Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

IN.SO.LEN.TE

Para quem ainda não percebeu: Trump não fez bem à economia

Tenho ouvido muitas pessoas cépticas quanto aos malefícios de Trump para os Estados Unidos da América e o mundo em geral. Mesmo não sendo seus apoiantes, há, de facto, muita boa gente que não consegue efetivamente compreender qual o impacto real das políticas económicas, não conseguindo ver grandes problemas em Trump além do seu discurso extremista e notório desastre na gestão da pandemia. No que respeita à economia, há ainda quem pense que, apesar de tudo, ele fez um trabalho aceitável, em especial no que respeita a impulsionar a indústria americana. Não é verdade, até porque muitos dos sinais económicos positivos que se registaram antes da pandemia resultaram de impulsos dados por Obama.

naom_5fac5920f1520.jpg

Foto: Getty Images

Pelo contrário, as políticas económicas de Trump de taxar importações e "des-taxar" capitalistas tiveram um grande efeito no desemprego, mesmo antes da vinda da Covid-19. A ideia de que taxar matéria-prima estrangeira beneficia o mercado interno revelou-se paradoxal e acabou por prejudicar os do costume: os trabalhadores que viram os seus salários ser afetados, o desemprego a aumentar e a qualidade de vida a baixar sob o peso do nacionalismo inconsequente.

Mr Trump came into office in January 2017 with a vow to reshape the economy to favour blue-collar workers who had been displaced by trade, immigration, globalisation and automation. For a while it seemed to be working: mining and logging jobs rebounded strongly with Mr Trump’s election after suffering big declines at the end of Mr Obama’s presidency. Manufacturing jobs growth also picked up. But even before the pandemic hit, those gains started to erode, as Mr Trump’s trade wars backfired on industrial America. Mining and logging jobs went from having the most rapid employment gain to being among the worst performers. Manufacturing employment also suffered disproportionately.

Financial Times

Estes aspetos paracem contraditórios, mas na verdade podem ser facilmente perceptíveis, após uma análise mais atenta. Susana Peralta, economista da Nova SBE, explica alguns destes fatores no seu último artigo no jornal Público:

Alguns estudos recentes mostram, por exemplo, as perdas de emprego nas indústrias que utilizam matérias-primas chinesas, que ficaram mais caras com as tarifas. A agricultura americana perdeu por ter acesso dificultado ao mercado chinês. Enquanto isso, a política de impostos de Trump gerou enormes ganhos para os mais ricos.

Mas o que aconteceu exatamente? Foi essa mesma pergunta que coloquei à colunista do Público que, amavelmente, me indicou exemplos muito elucidativos. Um deles é um estudo que revela os impactos das taxas nas matérias-primas importadas, dando o aço como exemplo.Trump implementou uma taxa que levou a um aumento nos custos das empresas que produzem com recursos a esta matéria-prima:

Let's take the example of Trump's steel tariffs. So he put a 25 percent tariff— that's
big, that's like having a new tax put on something you buy of 25 percent. He put it on imported steel from Canada, Europe, Mexico, India, China, everybody in 2018. This meant that industries that use steel— metal-using industries like autos and trucks, appliances like washing machines, construction— all had to pay 25 percent more for their inputs. So they raised their prices and they lost market share in the global market to competitors from other countries who didn't have to pay this 25 percent tax. That's a very, very big differential, 25 percent. So, businesses lost market share, other businesses downstream like auto, and they laid off workers.

SANDRA POLASKI, Senior Research Scholar, Global Economic Governance Initiative in "How have Trump’s trade wars affected Rust Belt jobs?"

Portanto, em termos leigos, uma taxa que em teoria serve para prejudicar empresas estrangeiras acaba por ter efeitos devastadores na indústria doméstica, pelo facto de aumentar o custo de produção das empresas nacionais, que se vêm obrigadas a aumentar preços, perdendo competividade. Perante esta situação, os países visados respondem na mesma moeda, taxando os produtos americanos, o que acaba por afetar também as exportações. A receita diminui, os custos aumentam, o que culmina em despedimentos.

Mas não é só isto. O temperamento instável de Trump também tem efeitos no investimento, que diminuiu face ao aumento da incerteza que ele injeta via Twitter.

Apesar disso a queda no investimento foi algo que ele próprio tentou contrariar quando, em 2017 aprovou a redução de impostos. Uma medida que, segundo disse, tinha como objetivo aumentar os benefícios dados aos trabalhadores, através da diminuição de encargos dos patrões. A lógica era que, se as grandes multinacionais pagassem menos impostos teriam mais possibilidades de investir em novos projetos e criar emprego.

Não aconteceu.

O dinheiro serviu para engordar as contas que já antes eram obesas, levando ainda a que os investimentos fossem realizados além-fronteiras (onde é mais rentável).

The corporate tax cuts went into share buybacks, dividends to shareholders, executive pay increases, fabulous executive pay increases in some cases, and not into factories and equipment and service businesses or things that would help Main Street and that would help the average American. So it was very lopsided and unfair, but it gets worse. The 2017 tax cut actually introduced several new incentives for corporations to send jobs offshore.
To send jobs overseas. 

SANDRA POLASKI, Senior Research Scholar, Global Economic Governance Initiative in "How have Trump’s trade wars affected Rust Belt jobs?"

Este exemplo tem por base um estudo que refere os casos particulares do Michigan e o Ohio, mas é bastante demonstrativo dos impactos negativos na economia que Trump provocou, mesmo antes da pandemia.

Nada disto beneficiou os trabalhadores, mas fez muito para enriquecer quem já era rico. As medidas de Trump apenas tiveram impactos positivos nos bolsos fundos de Wall Street, prejudicando o emprego, os salários e a qualidade de vida dos trabalhadores americanos, além de lesar o próprio estado, que acabou por perder receitas preciosas (e que poderiam servir o interesse público).

No fim de tudo isto, ainda há dúvidas?

O radicalismo já está a afetar-nos

João Miguel Tavares dizia ontem no Público que, agora que Joe Biden foi eleito, parece que mais ninguém teria sido capaz de o fazer. Se inicialmente era desvalorizado, agora Biden é "erguido a candidato visionário em função dos resultados eleitorais". 

Concordo plenamente, mas sera que Biden foi incialmente desvalorizado apenas pela sua falta de carisma e retórica nos debates? Ou queríamos antes combater o extremismo com extremistas? A nossa falta de crença no democrata não estaria antes no facto de também nós termos perdido a fé na moderação?

Bidn-11-7.jpg

Agora tornou-se óbvio que Biden ganhou por pretender unificar e não dividir. Não se trata de defender a ideologia, "os blue estates", mas antes pensar como "United states" como ele tem vindo - e bem - a defender.

(...) a tarefa árdua começa agora. E ela tem de começar por dar voz e dignidade aos muitos milhões que votaram em Donald Trump. Não, eles não são deploráveis. São na sua esmagadora maioria pessoas decentes, trabalhadoras, dignas, patriotas, que só querem cuidar da sua família, e viram as suas vidas destruídas pelos efeitos da globalização, dos acordos de comércio livre, da transferência de empresas e empregos para o exterior, do colapso financeiro de 2007 e subsequente “grande recessão”, de cerca de 30 anos de estagnação de rendimentos, de crescentes desigualdades e, em muitos casos, desemprego de longa duração com a humilhação (para os americanos) de terem de viver de subsídios do estado. Em rigor, são hoje uma grande parte das classes médias americanas, do Ohio, da Pensilvânia, do Wisconsin, do Michigan, das cinturas industriais, dos campos, de muitos outros estados, condados, cidades e localidades. 

Tiago Moreira de Sá, Público

Durante o período pré-eleitoral todos dizíamos (eu incluída) que seria necessário alguém mais carismático e destemido para fazer face ao radicalismo de Trump. Vejo agora que não podíamos estar mais errados.

O radicalismo de Trump foi combatido com pacifismo e foi por isso que resultou. A moderação de Biden foi de facto o antídoto para a "raiva" que engoliu os Estados Unidos. Candidatos da ala mais à esquerda possivelmente não teriam tão bons resultados, pois seriam encarados como alternativas completamente opostas quando muitos americanos na verdade pretendiam um meio termo.

A grande lição a tirar disto é talvez que a polarização da sociedade não se resolve com soluções completamente opostas, mas antes com tolerância e conciliação. A grande força de Biden foi essa capacidade de apaziguar, de compreender, ao invés de atacar e odiar, como Trump tanto gosta de fazer. 

Esperávamos que a moderação e o centrismo de Biden levasse ao fracasso. Achámos que apenas um candidato com energia frenética para se opor a Trump seria capaz de lhe roubar a sala oval, mas enganámo-nos. De certa forma aguardávamos um certo radicalismo, embora de forma oposta. Estaremos todos a desvalorizar o poder do consenso? 

O extremismo institucional não será fácil de reverter

Já todos sabemos o que vai acontecer nos próximos dias: perante a incerteza e a necessária demora na contagem dos votos por correspondência, Donald Trump tudo fará para ver descredibilizado o resultado destas eleições.

Isto claro, se houver alguma hipótese de a vitória ser claramente de Biden. As sondagens indicam que sim, mas na América atual a previsibilidade é uma ilusão. Além disso, há quatro anos atrás Hilary Clinton também liderava as probabilidades e acabou por perder, mesmo com quase mais três milhões de votos populares do que Trump, fruto do colégio eleitoral e do tão americano "winner takes it all".

voting_booth-1024x683.jpg

Foto: Scott Olson/Getty Images

Devo dizer que não estou muito optimista.

Se Biden ganhar - ainda que isso seja uma luz ao fundo do túnel escuro onde está soterrado o multilateralismo americano - não será fácil. Joe Biden necessita de manter a maioria democrata na Câmara dos Representantes e de aumentar a cor azul nas cadeiras do Senado, caso contrário todas as suas iniciativas futuras serão travadas pela sombra "trumpiana" em que se tornou o Partido Republicano. Isto claro, se a vitória de Biden for inequívoca, pois não o sendo, o Supremo Tribunal poderá ter um papel decisivo. Também aqui o cenário não é animador, pois Trump conta com a maioria conservadora, que recentemente reforçou com a nomeação apressada de Amy Coney Barrett. Não será fácil de forma alguma e acredito que as próximas semanas serão muito perigosas.

Trump já se tem vindo a preparar, semeando a desinformação e a dúvida acerca do processo eleitoral. É isso que continuará a fazer nos próximos dias (quissá semanas). Neste momento não prevejo mais nada que não o agravamento da divisão extrema da sociedade americana, que pode trazer mais episódios de violência.

“As pessoas estão cada vez mais a ver as pessoas do lado oposto como menos do que humanas (…) Quando se vêem os adversários como o inimigo, torna-se muito difícil para a democracia persistir”

Katherine Cramer, professora de Ciências Políticas na Universidade de Wisconsin. In Público

Trump mudou a política, e não há como voltar atrás. A América virou-se para dentro e absteve-se de liderar o mundo, como tinha vindo a fazer. O egoísmo capitalista exacerbou-se e revoltou-se contra as mudanças socialistas que Obama quis implementar. A revolta, no entanto já vem de trás, pois há muito que o país tem vindo a observar (e contestar) as exigências de uma sociedade mais justa. Trump foi apenas o fósforo que acendeu a clamor já latente.

De uma forma racialmente codificada e distintamente nacionalista, Nixon trouxe os brancos sulistas dos antigos bastiões democratas definitivamente para o lado republicano. Em 1980, Ronald Reagan nem pensou duas vezes em lançar a sua campanha presidencial com um discurso sobre “o direito dos estados” (na altura ainda queria dizer segregação) em Filadélfia, no Mississippi, a poucos quilómetros de uma barragem de terra onde os corpos de três activistas dos direitos cívicos tinham sido encontrados enterrados em 1964. E desde então o Partido Republicano sulificou-se (para dizer de alguma maneira) à grande, numa forma de iliberalismo que, mesmo no tempo de Nixon, já era impressionante.

Claro que em 2016, essa estratégia sulista tinha-se transformado mais numa estratégia nacional nas mãos de Donald Trump.

"A América de Trump já existia no Verão de 1973" - Agence Global/Público

Mesmo que a vitória de Biden se confirme (façamos figas), o extremismo não desaparecerá. Trump legitimou e normalizou o discurso institucionalmente egoísta, nacionalista, extremista e ignorante, personificado na figura do empresário de sucesso que se fez líder político. Deixou de haver linhas vermelhas e isso é difícil de reverter. Será no minímo complicado para um líder pacifista afirmar-se num ambiente tão polarizado, ainda para mais para alguém com as graves lacunas de carisma e retórica de Biden.

O primeiro desafio do democrata, caso ganhe, será afirmar a vitória. Só depois disso pode começar a pensar em limpar os cacos.

Mais visitados

Pensamento do dia

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

Redes Sociais

Mensagens

E livros?