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IN.SO.LEN.TE

Tomem a porra da vacina!

Vamos a ver se nos entendemos: recusar a vacina é, em 99,99999% dos casos, ESTÚPIDO, ARROGANTE e EGOÍSTA. Importa estabelecer bem isto antes de avançar com explicações e dissecar cada vocábulo desta minha irritação.

Nas últimas semanas os estímulos propícios a uma revirada de olhos são de tal forma abundantes que já quase nem consigo endireitar a vista.

Arrisco dizer que não há dia em que não oiça alguém afirmar que não quer a vacina, ou então que vai tomar “mas só porque...”, caso contrário não se sujeitavam a esta tão grande provação das suas vidas.

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Foto: Getty Images

Tenho para mim que esta situação já está a passar o limite do ridículo, pelo que passo a enumerar os motivos que justificam a minha tão ríspida adjetivação.

 

Motivos pelos quais recusar a vacina é ESTÚPIDO:

Primeiro: não há neste mundo nenhum tipo de medicamento, droga, vacina ou terapêutica completamente isenta de riscos. Até o vulgar Paracetamol pode provocar complicações na formação de coágulos de sangue (embora esse efeito secundário seja “muito raro” e se calcule que possa afetar uma em cada dez mil pessoas).

Só por isto já é ESTÚPIDO justificar a resistência às vacinas com o facto de conter "componentes perigosos". Mais perigosos são os químicos nos SG Ventil que tantas destas pessoas fumam às pazadas.

 

Segundo: Não há vacinas 100% eficazes (como aliás não há nada, nem o preservativo pessoal... sorry). Há sempre a hipótese de, estando vacinado, contrair Covid-19, mas as possibilidades de isso resultar em doença grave diminuem significativamente (cerca de três vezes, no caso de pessoas com mais de 80 anos e vacinadas com as duas doses, segundo estatísticas apresentadas pela DGS na reunião do Infarmed). O uso do argumento de possível reinfeção como justificação para evitar a vacina é, por isso, ESTÚPIDO.

 

Terceiro: Basta comparar os números da evolução de mortes e casos graves para perceber que a coisa melhorou bastante desde que uma significativa porção da população está vacinada. De acordo com estimativas de investigadores da Universidade do Porto, a vacina terá evitado cerca de 700 mortes entre maio e julho. São dados reunidos por quem faz carreira a analisar e estudar este tipo de coisas, todos os dias, durante anos. Assumir que estão todos a mentir é ESTÚPIDO. Nenhuma opinião proferida pelo Sr. Zé da Tasca pode ser mais sólida que esta, já que é ESTÚPIDO, assumir que se tem razão no que quer que seja sem ter lido uma linha sobre isso.

 

Quarto: A Covid-19 e a pandemia existem mesmo. Dizer o contrário é MUITO ESTÚPIDO, por isso nem me dou ao trabalho de justificar isto com evidências. Só não as vê quem não quer.

 

Motivos pelos quais recusar a vacina é ARROGANTE:

 Tal como a riqueza e o desenvolvimento, o acesso às vacinas no mundo é profundamente desigual.

Já em maio – esse mês longínquo em que ainda não tínhamos a percentagem de vacinados que temos hoje – a Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos alertava que 80% das vacinas disponíveis tinham sido administradas nos ditos “países ricos”, enquanto apenas 1,3% tinham chegado aos países mais pobres.

Ainda ontem a Organização Mundial de Saúde alertou para estas desigualdades que continuam a agravar-se. Enquanto em Portugal se discute a possibilidade de administrar uma terceira dose, há países onde os médicos não tem sequer acesso a uma primeira. Vivendo num país onde a vacinação não só é abundante como é gratuita, recusá-la é, no mínimo, ARROGANTE.

 

Motivos pelos quais recusar a vacina é EGOÍSTA:

 A vacinação só funciona se for comunitária. A erradicação de uma doença depende de uma elevada percentagem de população vacinada, e mesmo aí é um processo que demora décadas. Não nos vacinamos apenas para nos protegermos a nós próprios, mas para travar a propagação da doença pela sociedade e, assim, vencer a pandemia.

Há tantos exemplos disto que é ridículo negá-lo. Graças às vacinas: 

-"A varíola foi erradicada no Mundo em 1978 (matava cerca de 5 milhões de pessoas por ano, hoje está quase esquecida);

-A Organização Mundial da Saúde declarou a região europeia livre de poliomielite em 2002. O objetivo é a erradicação desta doença no mundo;

-Em Portugal, a maioria das doenças alvo do Plano Nacional de Vacinação, estão em fase de pré- eliminação (difteria, sarampo, rubéola, rubéola congénita, tétano neonatal) ou estão controladas (tétano, doença grave por Neisseria meningitidis C, doença grave por Haemophilus influenzae b, tosse convulsa, hepatite B e papeira). 

-Na década anterior à introdução do Programa Nacional de Vacinação, quatro doenças – a tosse convulsa, a poliomielite, o tétano e a difteria provocaram um total de 40 175 casos de doença (declarados) e 5 271 mortes. Na década de 2000-2009, devido à vacinação, o número de casos por estas doenças diminuiu acentuadamente para 376 e o número de mortes para 27".

*dados publicados pela ARS Algarve

 

...E isto são apenas alguns exemplos. Há muitos mais casos em que as vacinas comprovadamente erradicaram doenças que outrora estiveram fora de controlo. Por tudo isto, não tomar a vacina é EGOÍSTA, pois impede que a sociedade possa dar a pandemia de Covid-19 como controlada.

 

Resumindo:

Não faz sentido continuar a tomar decisões que impactam a vida de todos de forma individualista, com base em palpites não fundamentados. Parem de ser ignorantes e teimosos! Duvidar de tudo e colocar em causa cada frase que dizem os especialistas não faz das pessoas mais respeitáveis. O cepticismo desenfreado não corresponde a um alto nível de inteligência. Eu sei que acham que sim, mas é mentira...

Tomem a porra da vacina!

Obrigado.

Nem todos queremos saber

A seleção perdeu o jogo contra a Bélgica e foi eliminada do Euro 2020, uma informação dramática para a maioria da população. No meu caso, é-me complemente indiferente, já que não tenho qualquer interesse por nenhum tipo de evento desportivo. Sim, é verdade, admito ser esse extraterrestre e dou o peito às balas: não me interessa mesmo. A nível pessoal até terei menos sobressaltos de agora em diante, pelo que até acaba por me agradar. 

Apesar disso e mesmo que quisesse, é-me impossível ficar imune ao assunto. A importância mediática que é dada ao futebol em Portugal é perturbadora e invade completamente as rotinas até de quem - como eu - não quer saber.

Nós últimos dias vi notíciários a abrir com o campeonato europeu, segmentos especiais a mostrar o hotel onde fica hospedada a seleção, diretos feitos a partir dos aeroportos de partida e chegada dos jogadores e até programas de debate público dedicados a saber qual a opinião da população sobre os resultados dos jogos. Será que isto faz sentido? É mesmo relevante fazer da vida da seleção nacional o Big Brother desportivo?

O futebol é de tal forma o ópio do povo que o pensamento crítico parece perder-se. Confunde-se fanatismo com patriotismo e julga-se a cidadania com base na mobilização "nacional".

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 Os campeonatos são negócios que envolvem milhões, mas ainda assim temos responsáveis políticos a dar a cara por este tipo de eventos. Sabendo eles que o "Zé Povinho" vira acéfalo durante as competições, os responsáveis políticos aproveitam demagogicamente a deixa para cair nas boas graças e dizer as maiores barbaridades. Não sei bem se é uma tentativa ingénua de espelharem aquilo que acham que é o espírito popular ou se é puro calculismo político.

Há vários exemplos que importa recordar:

-No ano passado tivemos António Costa a tecer elogios a Fernando Gomes pelo facto de Portugal ser o anfitrião da final da Champions League. Chegou a dizer que tal acontecimento seria "um prémio para os profissionais de saúde", após estes terem feito das tripas coração para dar resposta às necessidades crescentes dos infetados com Covid-19;

-Sem surpresa, esta mesma final da Champions League trouxe ao Porto milhares de ingleses fanáticos absolutamente indiferentes às preocupações de saúde pública. Nessa altura choveram críticas, sim, mas só porque os clubes eram estrangeiros...  Perante o previsível aumento de casos a UEFA apressou-se ainda a dizer que era impossível poderia provar a relação entre os dois acontecimentos;

-Antes disso tivemos ainda a majestosa festa do título do Sporting, que fez esquecer a Covid um pouco por todo o país. Sendo mais do que esperada a mobilização em massa dos adeptos, destacou-se a inação e a falta de planeamento das entidades responsáveis;

Chegados a este ponto, eis que surge a cereja no topo do bolo: Ferro Rodrigues apela à deslocação "em massa" dos portugueses para Sevilha para apoiar a seleção. A palermice foi de tal ordem que, no fim, nem ele próprio se atreveu a ir.

Perante tudo isto parece correto afirmar que o futebol é a "soma" que faz deste país um Admirável Mundo Novo  ilusoriamente livre de covid-19. É no minímo bizarro pensar a indignação que é manifestada com, por exemplo, a corrupção, e depois ninguém se espantar com o apoio político a ligas, clubes e afins.

Enquanto duram as competições presenciamos uma espécie de diplomacia futebolística, na qual seria de mau tom não comentar a última derrota dos "nossos heróis".

Está ainda para nascer o dia em que veja um político assumir-se neutro neste (meio) campo...

 

“Porque não te levantas para cantar o hino?”

A noite de 24 para 25 de abril é de “Grândola, Vila Morena”. À meia noite eu e o meu grupo de amigos calamos a conversa para ouvir este hino da liberdade, e escutar os foguetes, que normalmente são em número idêntico aos anos que este país tem de democracia.

É um momento bonito, mas é apenas isso: um momento. Assim que se ouvem os últimos passos dos camponeses na canção de Zeca de Afonso – sim, os passos foram incluídos para representar camponeses e não militares – o silêncio evapora e dá lugar à discórdia.

O "tempo de Salazar", os falhanços do Portugal democrático e a pobreza que persiste são, muitas vezes, desculpa para um saudosismo contido, que todos os anos tento combater. De nada adianta relatar os factos, destacar a opressão, relembrar a gigante taxa de analfabetismo ou referir a normalidade da fome naquele tempo, há sempre argumentos para descredibilizar a revolução. De uma forma ou de outra, todos os anos passo pelo purgatório de desmontar os mitos que persistem em torno no Estado Novo - sem nunca ter sucesso, diga-se. É uma luta solitária e ingrata, que, na maior parte das vezes acaba comigo a falar alto ou a mandar alguém à merda. É triste mas é verdade.

Ontem, além do habitual “debate”, tivemos a agradável surpresa de um jovem músico que apareceu para tocar o hino nacional em trompete. Quase todos se levantaram para ouvir e cantar “A Portuguesa”, valorizando a dedicação do menino que soprava as notas com afinco. Não me levantei nesse momento. Não o fiz por nenhuma razão em especial - nem sequer pensei muito no assunto, confesso - porque essa atitude se devia apenas à forma contorcida com que entalava as pernas na traseira da cadeira. Além do mais, nunca senti necessidade de encarar cada fração do hino como partes de uma sessão solene.

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DR

Não significa que não respeite o meu país, ou que não ame Portugal, significa apenas que o valor “pátria” me traz à memória laivos de conservadorismo que acho desnecessários. É que, mesmo nunca tendo vivido em ditadura, ainda me recordo bem do tempo em que era obrigada a cantar o hino nacional de mão no peito, de cada vez que o professor entrava numa sala de aula que tinha na parede a cruz de Cristo.

“Deus, Pátria, Família” ainda eram valores presentes em escolas no início do milénio, mesmo que apenas de forma implícita.

Talvez por a chamada de atenção me lembrar da “Lição de Salazar”, senti maior obrigação de me levantar quando o jovem tocou depois a canção que eterniza a Revolução dos Cravos. A “Grândola, Vila Morena” mereceu da minha parte um esforço diferente, não acompanhado por muitos dos que comigo escutavam a melodia.

Ninguém percebeu a razão desta minha insolência, encarada como um certo desrespeito e parvoíce. Para mim não foi nada disso. Foi apenas uma tentativa modesta de mostrar aos presentes que valorizo mais a liberdade do que o nacionalismo. Que prefiro a fraternidade ao invés de fronteiras terrestres. Que honro mais os valores do que as bandeiras e que a revolução é o que me permite hoje gritá-lo a plenos pulmões, sozinha ou acompanhada.

Viva o 25 de abril! Viva a liberdade!

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Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

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