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IN.SO.LEN.TE

Ironia da pandemia

O Covid-19 pôs o mundo e a sociedade em estado de sítio (ainda que não declarado na maioria dos casos). A rapidez com que o nosso quotidiano se desmoronou é assustadora, e perturba completamente a nossa noção de prioridades. Basta pensar que apenas há cerca de uma semana Portugal vivia ainda sem grandes sobressaltos, com pessoas a reunir-se na praia mesmo sob aviso das autoridades de saúde para evitar aglomerados.

A pandemia que todos desvalorizámos de início vai sem dúvida transformar a nossa forma de ver mundo, e dificilmente será para melhor. A meu ver vamos dividir-nos ainda mais entre sonhadores e céticos - ou entre moderados e extremistas, conforme a terminologia que preferirem. 

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ensaio do filósofo José Gil, publicado por estes dias no jornal Público, mostra bem o quanto a nossa natureza é primitiva, independentemente das nossas construções sociais. Montámos uma estrutura produtiva global para sustentar o nosso comodismo diário, e vemos agora que tudo pode ser reduzido a pó, se valores mais altos se levantarem - como a saúde pública, neste caso. 

Tenho acompanhado com fervor a avalanche mediática das últimas semanas, não apenas para me actualizar sobre a propagação do surto, mas tentar observar as reacções que surgem como cogumelos a cada nova partilha de conteúdos nas redes sociais. É perigoso auscultar a sociedade pela internet, mas é também irresistível - para mim pelo menos. É que a ameaça global do novo coronavírus é aterradora, mas os seus impactos (sociais) são fascinantes. Vejo um paradoxo tão grande na postura colectiva perante a pandemia que chega a roçar a hipocrisia. É extremamente contraditória a forma como a generalidade das pessoas encara este estado de alerta. Seja ela consciente ou não. 

Enquanto se multiplicam as iniciativas de solidariedade e as manifestações de companheirismo entre pessoas isoladas nos seus domicílios, aumenta o repúdio do outro em função da sua proveniência e os pedidos de limitação de movimentações internacionais. Percebo que o medo leva ao protecionismo, mas acho que não devemos cegar-nos com a necessidade de afastamento social que neste momento enfrentamos. Até porque isso leva-nos à completa loucura. A nossa capacidade de análise e abstração é o que nos distingue dos animais, por isso temos de lutar por não a perder, mesmo em tempos de crise.

Até porque se alguns de nós se podem dar ao luxo de estar trancados em casa é porque muitos outros continuam a aceitar expôr-se ao contágio, garantindo que temos cuidados de saúde, medicamentos, bens alimentares, informação (e aqui me incluo), segurança e recolha de resíduos. Entre outras coisas que provavelmente nem estou a lembrar-me de momento.

No momento inédito que vivemos sofremos com o isolamento porque somos profundamente dependentes uns dos outros. Ao mesmo tempo negamos essa dependência e insistimos em colocar barreiras e rótulos, ao mesmo tempo que tentamos açambarcar produtos nos supermercados, sem pensar nos outros. Basta dizer que hoje, uma notícia que relatava um novo caso positivo de Covid-19 na cidade onde trabalho, levou a que muitas pessoas achassem que a identidade dessa pessoa devia ser pública, para que eles próprios possam proteger-se e perceber se o contactaram (isto porque a cidade é pequena e a probabilidade de isso acontecer é grande).

Já imaginámos o que uma coisa destas implica? É uma completa violação dos direitos fundamentais do indivíduo que pode transformar-se num perigoso escrutínio social, dirigido a pessoas específicas. 

Não pode valer tudo. Temos de saber onde desenhar a linha que separa a precaução da paranóia, para bem da nossa saúde e da vida como a conhecemos.

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Sobre mim

Sofia Craveiro. Jornalista por obra do acaso. Leitora e cronista nas horas vagas.

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